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Mudanças climáticas podem inviabilizar soja e gado no Brasil, diz cientista

Em entrevista, o cientista brasileiro Paulo Artaxo, membro do IPCC, comenta novo relatório do painel da ONU - Ernesto Carriço/NurPhoto via Getty Images
Em entrevista, o cientista brasileiro Paulo Artaxo, membro do IPCC, comenta novo relatório do painel da ONU Imagem: Ernesto Carriço/NurPhoto via Getty Images

Nádia Pontes

09/08/2021 12h44Atualizada em 09/08/2021 16h48

A primeira parte do novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas, na sigla em português), divulgado hoje, afasta quaisquer dúvidas sobre a causa do aquecimento do planeta.

O modo de vida da humanidade, movido à base da queima de combustíveis fósseis, emite gases de efeito estufa que estão levando a um rápido aquecimento do planeta. Até a próxima década, a temperatura média global deve subir 1,5 °C, estima o IPCC.

Paulo Artaxo, professor do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo) e membro do IPCC, alerta para os impactos desse cenário no Brasil. Na região central do país, a temperatura pode subir até 5,5 °C, e as chuvas podem cair 30% até o fim do século.

"Esse cenário vai fazer com que áreas onde hoje são produzidas soja e carne possam não ter mais condições de produzir competitivamente daqui a 10, 20, 30 anos", analisa em entrevista à DW Brasil.

O sexto relatório do IPCC (AR6) será composto por quatro partes. Além da ciência física, divulgada agora, as demais se ocuparão com os impactos, vulnerabilidade e adaptação, mitigação, programadas para serem publicadas em 2022.

DW Brasil: O novo relatório do IPCC reforça o entendimento de que o aquecimento do planeta, que provoca as mudanças climáticas, é causado pelas atividades humanas. Dos pontos abordados no documento sobre os quais não se tinha o mesmo grau de certeza nos relatórios passados, o aumento dos eventos climáticos extremos é um dos com mais avanços?

Paulo Artaxo: É muito claro que o aquecimento do planeta está sendo causado pelas atividades humanas. Não houve nenhum único país, durante os debates sobre aprovação do relatório, que tenha levantado dúvidas sobre essa questão.

É um consenso, passamos dessa etapa. Agora é o que fazer, como fazer, quem paga a conta.

Esse relatório trata de vários aspectos que não foram tratados no passado. O primeiro deles, por exemplo, há uma quantificação dos eventos de extremos climáticos. Isso não existia antes.

A gente dizia antes que, aquecendo o planeta, iria aumentar a incidência de eventos climáticos extremos. Esse novo relatório diz que se a gente deixar o planeta aquecer 4 ºC, ondas de calor vão ocorrer 38 vezes mais frequentemente do que ocorreria sem o aquecimento global. É muita coisa.

O documento também faz a vinculação das emissões urbanas e clima global, o que é importante considerando que 80% da população vai viver em áreas urbanas em 2050. Precisamos de políticas públicas para tornar nossas cidades mais eficientes no uso de energia e transporte, mais sustentáveis.

DW Brasil: Essa informação chega num momento em que eventos extremos estão trazendo impactos nos dois hemisférios, como as chuvas fortes na Alemanha e a crise hídrica no Brasil, o que já reforça a mensagem do relatório.

Paulo Artaxo: Exatamente. O Canadá, por exemplo, não registrava 48 ºC nos últimos 150 anos. Chover em um dia o que chove normalmente em um ano também é inédito.

As enchentes recentes que aconteceram na Alemanha, por exemplo, ocorreram depois de um nível de chuva recorde. Os alemães viram que o aumento de eventos extremos climáticos pode matar pessoas lá também.

DW Brasil: E para o Brasil? Os impactos podem ser considerados ainda mais severos?

Paulo Artaxo: Um aumento médio se temperatura de 4°C, que é para onde estamos indo com o cenário de emissões, vai fazer com que o Brasil central aumente de temperatura 5,5 °C, com uma redução de chuvas de 30%.

Esse cenário vai fazer com que áreas onde hoje são produzidas soja e carne possam não ter mais condições de produzir competitivamente daqui a 10, 20, 30 anos.

Isso leva o Brasil a ter que repensar que economia nós queremos fomentar. Vamos continuar dependendo do agronegócio? Pode ser um péssimo negócio.

DW Brasil: Por que essa região do país sofreria um aumento maior de temperatura em relação à média global?

Paulo Artaxo: Um aquecimento médio de 2 °C no planeta significa que as áreas continentais se aquecem 3,5 °C. Isso porque 70% da superfície do planeta é oceano, e a água tem uma capacidade térmica muito maior do que os ecossistemas terrestres. Então as áreas continentais se aquecem muito mais.

Um aquecimento médio de 4 °C significa um aquecimento nas áreas continentais de 5,5 °C. Esse aumento da temperatura vai fazer com que a chuva no Brasil central diminua muito. Pode não ser viável uma agricultura com eficiência como a que gente tem hoje.

A mensagem é clara. A questão é o que os governos vão fazer. Ou seja, é o mesmo problema de antes.

A Amazônia é outro destaque deste relatório. Ela armazena 120 bilhões de toneladas de carbono no ecossistema. Se isso for para a atmosfera, todo o cenário de aquecimento pode piorar muito.

DW Brasil: O relatório também traz mais clareza em relação às projeções voltadas para elevação do nível do mar?

Paulo Artaxo: A projeção até 2100 é de que o nível do mar suba em torno de um metro. E esse relatório faz pela primeira vez uma projeção para 2300. Isso porque, uma vez iniciado o processo de derretimento das geleiras, não há maneira de parar. E a parte do relatório Science for Policy Makers traz a projeção de elevação de até 16 metros até 2300.

As consequências disso para cidades como Rio de Janeiro, Nova York, Londres e para países como Bangladesh são catastróficas.

DW Brasil: A palavra "irreversível" aparece muitas vezes no relatório. O que ainda é possível reverter com o corte significativo de emissões de gases do efeito estufa?

Paulo Artaxo: Muitos processos já iniciados são irreversíveis. A meia vida do CO2 na atmosfera é de alguns milhares de anos, ou seja, o CO2 que a gente já emitiu vai ficar lá.

A única maneira de tirar esse CO2 da atmosfera é através da fotossíntese. Mas como vamos plantar árvores onde hoje se cultiva comida? Isso traria um impacto gigantesco para a sociedade.

Há ainda um dado muito importante nesse relatório. Os aerossóis estão mascarando o aquecimento. A poluição emitida por partículas que resfriam o clima é responsável pelo resfriamento de 0,5 ºC. Isso foi calculado pela primeira vez.

A hora em que a gente parar de queimar carvão e petróleo, que a gente eletrificar os veículos do mundo inteiro — e isso vai ocorrer — o planeta será aquecido imediatamente em mais 0,5 ºC. Isso é 50% de tudo o que foi aquecido até agora desde a Revolução Industrial.

DW Brasil: Isso significa que não será possível manter o aumento da temperatura "bem abaixo dos 1,5ºC", como estipulado no Acordo de Paris, já que a temperatura média do planeta já subiu 1 ºC desde a Revolução Industrial?

Paulo Artaxo: O IPCC fala nesse relatório que vamos aquecer em média 1,5 ºC nesta década. Mas na verdade, isso é eufemismo. Vamos diminuir a redução dos aerossóis, isso vai acontecer na Índia, China, América Latina, com a eletrificação da frota e a desativação das usinas a carvão. E esse 0,5 °C que está mascarado vai ser somado de imediato.

DW Brasil: Então parar de queimar combustíveis fósseis vai piorar o aquecimento do planeta?

Paulo Artaxo: Vai aumentar a temperatura no curto prazo. Mas, para a sociedade, ao longo dos anos, isso é vantajoso. Primeiro: vai reduzir as 3 milhões de pessoas que morrem por ano por doenças causadas pela poluição do ar.

E, segundo, vai tornar os nossos ecossistemas mais sustentáveis, diminuindo a deposição de substâncias tóxicas. Parar de queimar carvão e outros [combustíveis fósseis] vai deixar de mascarar um terço do aquecimento, mas é esse o caminho a seguir.

DW Brasil: Quais são as perguntas desafiadoras a serem respondidas nos próximos relatórios?

Paulo Artaxo: As principais perguntas estão associadas com o que a gente chama dos tipping points, os chamados pontos de não retorno. Onde estão eles?

Em que nível de subida de temperatura a gente altera a circulação oceânica? Em que nível de temperatura a Floresta Amazônica passa a emitir carbono em vez de absorver, como ela estava fazendo até há algum tempo? Qual é o impacto do feedback da liberação de metano pelo derretimento do permafrost [solo permanentemente congelado]? São todas questões ainda sem respostas.

DW Brasil: Estudos recentes mostraram que a Corrente do Golfo está enfraquecendo. Mais um sinal dos impactos das mudanças climáticas?

Paulo Artaxo: Sim. Nós estamos alterando o principal canal de redistribuição de energia do planeta. Isso é extremamente preocupante.

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Errata: o texto foi atualizado
O texto informava de maneira incorreta que as mortes por poluição são na casa dos bilhões, e não dos milhões. O trecho foi corrigido.

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