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Brasil passa Índia e é 2º maior exportador de algodão; transporte é desafio

José Medeiros/Folhapress
Imagem: José Medeiros/Folhapress

Eliane Silva

Colaboração para o UOL, em Ribeirão Preto (SP)

19/05/2019 04h00Atualizada em 19/05/2019 11h16

Com três recordes registrados nesta safra de algodão, o Brasil atinge um novo patamar no mercado internacional, passando a Índia e tornando-se o segundo maior exportador mundial de pluma, atrás apenas dos Estados Unidos. O desafio agora para o país manter-se competitivo é aumentar a participação nos mercados da Ásia, onde estão as maiores indústrias de algodão, já que o mercado interno está estagnado há cerca de dez anos.

Os recordes são:

  • em área plantada, que registra um aumento de 35,4% em relação à safra passada
  • em produção, com alta de 32,8%
  • nos volumes exportados, com embarque de 998 mil toneladas até abril

Os números foram publicados em boletim da Conab (Companhia Nacional do Abastecimento).

Em área plantada, a estimativa da safra que se encerra em junho é de 1,590 milhão de hectares, com produção de 2,66 milhões de toneladas de plumas.

Pelos dados da Anea (Associação Nacional dos Exportadores de Algodão), os embarques para o exterior até abril já atingiram 1,045 milhão de toneladas, ante as 915 mil toneladas da safra passada, e devem passar de 1,2 milhão de toneladas até junho, quando se encerra a safra 2018/19.

Passando o recorde histórico de 2012

A Índia, que ocupava a segunda posição no ranking mundial, deve exportar 980 mil toneladas até junho, segundo estimativa da USDA (Departamento de Agricultura dos EUA). Já os líderes preveem embarcar 3,5 milhões de toneladas.

"Já passamos nosso recorde histórico de 2012, quando exportamos 1,030 milhão de toneladas", disse Henrique Snitcovski, presidente da Anea. Segundo ele, com o aumento de produção, o Brasil deixou de lado a sazonalidade que caracterizava a exportação de algodão.

Tradicionalmente, 70% dos embarques se concentravam no segundo semestre, período de entressafra da produção norte-americana. "Desde o ano passado, passamos a participar mais do mercado internacional e vender volumes grandes também no primeiro semestre."

O recorde mensal foi obtido em dezembro de 2018, com 215 mil toneladas embarcadas.

Crescimento em áreas de milho

Bruno Nogueira, analista de mercado da Conab, e Daniele Santos, analista de algodão da Céleres, consultoria focada no agronegócio, afirmaram que a demanda internacional por pluma está em alta, o que atrai mais produtores e investimentos.

Apesar disso, o grande aumento da produção brasileira nesta safra e a estagnação do mercado interno vão elevar os estoques de passagem, que devem atingir 1,081 milhão de toneladas ante as 691 mil toneladas da safra passada.

Milton Garbugio, presidente da Abrapa (Associação Brasileira dos Produtores de Algodão), disse que a cultura vem crescendo em cima de áreas de milho, especialmente no Mato Grosso, que produz quase 70% da pluma nacional. Na safra 2017/18, a produção no estado foi de 1,290 milhão de toneladas. Nesta safra, deve chegar a 1,765 milhão.

As estimativas da Abrapa indicam que a produção brasileira vai atingir 2,8 milhões de toneladas nesta safra, pouco mais de 100 mil toneladas na comparação com os dados da Conab.

Boa remuneração ao produtor

Apesar do custo de produção alto, de R$ 7.000 a R$ 8.000 por hectare, Garbugio disse que a atividade está remunerando bem o produtor na comparação com outros produtos e que pelo menos dois terços da safra são vendidos antes da colheita.

Rodrigo Rigon, administrador da fazenda Mirandópolis, em Rondonópolis (MT), afirmou que pelo menos 50% da produção de algodão já está vendida. A área plantada dessa cultura na propriedade de 16.500 hectares cresceu de 2.200 ha para 4.260 ha nesta safra. "O mercado está pagando bem, o clima está favorável e a nossa produtividade deve subir de 110 arrobas de pluma por ha para 125 arrobas."

Segundo ele, o que está atrapalhando um pouco é a infestação do bicudo, praga do algodão. No grupo Bom Jesus, que inclui a Mirandópolis, a área de algodão subiu de 50 mil hectares para 70 mil nesta safra.

Desafio é chegar mais rápido à Ásia

O desafio de produtores e exportadores agora é resolver problemas de logística para conseguir ser mais competitivo no mercado internacional e elevar suas exportações para os países que já compram o algodão brasileiro: China, Vietnã, Turquia, Coreia do Sul e, especialmente, Bangladesh, que é o maior importador mundial da pluma e já recebeu neste ano 14% dos embarques do Brasil, ante os 9% do ano passado.

Nesta safra, as exportações para a China, que respondiam por 10% em média, passaram para quase 35%. Parte disso é creditada à guerra comercial da China com os EUA.

"Nosso 'transit time' (tempo de viagem) até os portos da Ásia, na melhor das rotas, é de 35 dias. Os americanos chegam em 20 dias, e australianos e indianos, em menos de 15 dias", afirmou Snitcovski.

Para tentar diminuir esse tempo, o setor reativou um comitê de logística para abrir novos portos para a exportação, já que mais de 90% do algodão é exportado via Santos (SP). Estão em testes os portos de Paranaguá (PR), Salvador (BA), Pecém (CE) e Manaus (AM).

Para se manter competitivo, além de reduzir o tempo de viagem, o dirigente avalia que o país precisa manter a qualidade de seu algodão, enquadrado na categoria não contaminante, assim como a eficiência no planejamento da safra e a regularidade de exportação o ano todo.

O presidente da Abrapa afirmou que, além da falta de contêineres em outros portos para transportar o algodão para a Ásia, outro gargalo da exportação é a logística de transporte rodoviário do país, que inclui a tabela de frete. "Essa questão da tabela vem judiando do produtor."

Para Garbugio, a qualidade do algodão brasileiro melhorou muito graças ao uso de mais tecnologia e novas cultivares. Dono de 1.700 hectares de algodão em Campo Verde (MT), ele afirma que 90% da produção brasileira é certificada por boas práticas ambientais e sociais, e todas as cargas embarcadas têm sistema de rastreabilidade.

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Errata: o texto foi atualizado
O Porto de Paranaguá fica no Paraná, e não no Pará, como informado em versão anterior deste texto. A informação foi corrigida.

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