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Trabalhar e cuidar de filhos: perrengues do home office de microempresários

Empresária Thuanny Santos, da Hers Maternagem Urbana, trabalha ao lado dos filhos - Arquivo pessoal
Empresária Thuanny Santos, da Hers Maternagem Urbana, trabalha ao lado dos filhos Imagem: Arquivo pessoal

Claudia Varella

Colaboração para o UOL, em São Paulo

02/04/2020 04h00Atualizada em 02/04/2020 18h21

Pais empreendedores têm procurado conciliar sua rotina em tempos de coronavírus, para conseguir tocar os seus negócios e ainda cuidar dos filhos que agora ficam o dia todo em casa, por causa do fechamento das creches e escolas. A situação deve se prolongar sem prazo definido.

"Precisei reduzir o serviço para dar mais atenção a elas [as três filhas] e para cumprir um cronograma de estudos orientados. Elas ficam comigo e com meu marido, Fernando. Não temos funcionária e também resguardamos os avós", declarou Daniela Foltran, 38, dona da empresa Aurora, senhora!, em São Paulo, especializada em babadores, aventais e acessórios para alimentação e artes. Fernando também ajuda a esposa a tocar a empresa.

Mais TV liberada para filhos

Antes, as três filhas (Catarina, 8, e as gêmeas Emília e Gabriela, 6) ficavam na escola no período da manhã e, à tarde, com Daniela no ateliê.

"Eu aproveitava o período em que elas estavam na escola para fazer serviço externo da empresa, como comprar material ou ir aos prestadores de serviço. Agora isso fica prejudicado, tanto por causa delas quanto por termos diminuído as saídas."

Entre as atividades da família dentro de casa, estão desenhar, pintar, ver TV e até preparar bolo. "Haja brincadeiras, o bom é que são três. Elas adoram desenhar e pintar. Liberamos mais horas de TV. Fazer bolo virou uma diversão constante", disse.

A crise do coronavírus já afetou os seus negócios —as vendas caíram 25%. "Mas a projeção deve ser ainda pior, porque o acompanhamento diário tem mostrado queda. Os envios dos produtos estão programados para dias alternados, e há reforço da higiene para embalar os pedidos", afirmou Daniela.

Paciência para as demandas dos filhos

As sócias Mirani Miranda da Silva, 34, e Thuanny Santos, 30, correram para adiantar todas as encomendas enquanto os filhos estavam nos últimos dias de aula.

Elas são donas da Hers Maternagem Urbana, em São Paulo, empresa que confecciona mordedores para bebês em forma de colares, entre outros produtos. Mirani é mãe da Melissa, 2, e Thuanny, dos meninos Murilo, de 3 anos e meio, e Mateus, de 2 anos e um mês.

"Agora com o fechamento temporário das escolas, eu e o Marcelo [marido] temos que equilibrar novamente essa equação, usando muito a imaginação, buscando manter a paciência com todas as demandas que forem surgindo e contando com a rede de apoio que conseguirmos", disse Thuanny.

Segundo ela, uma das medidas que as sócias estão adotando é "desacelerar para não criar expectativas" e não se frustrar por conta de demanda dos filhos.

"A renda oriunda da Hers é o que paga nossos boletos. Portanto, mesmo reduzindo a carga horária, precisaremos continuar com a empresa ativa", afirmou Mirani, casada com Djalma, que divide com ela o cuidado com a Melissa em casa. As vendas já sofreram um baque de 50%. Como cada sócia está em sua casa em isolamento social, o jeito para fazer reunião da Hers é por meio de videochamadas via celular.

Desenhos, massinhas e jardinagem

Em casa, as atividades com as crianças envolvem assistir aos desenhos prediletos, ler livros, jardinagem, massinhas, canetas e lápis coloridos e muita criatividade. "Por aqui temos momentos de arte, nos quais se sujar é inevitável", disse Thuanny.

Para elas, a crise do coronavírus pode trazer ensinamentos. "Há mesmo necessidade de que todos estejam na mesma empresa o dia inteiro, enfrentando horas no transporte e vendo a vida passar diante dos olhos sem de fato aproveitá-la?", questiona Mirani.

Contadoras de histórias infantis pelo Instagram

Maria Vitoria Malavazzi Bergamasco, 39, diz que conta com o marido, Rafael, em casa para dividir com ela a atenção e o cuidado dos filhos: o casal de gêmeos, Filipo e Donatela, de 2 anos e 11 meses. Mas Maria Vitoria deixou de lado a Guarapa Gourmet, empresa de caldo de cana, em Sorocaba (SP).

"Meu marido também está em casa por conta do rodízio no trabalho dele nessa época do coronavírus. Como ele começa a trabalhar às 12h, na parte da manhã ele brinca com as crianças, enquanto eu cuido da casa. À tarde, eu fico com as crianças. Mas o meu negócio teve de ficar de lado, porque está impossível visitar clientes e fazer divulgação, mesmo que online", afirmou. Os negócios da Guarapa Gourmet são voltados para feiras e eventos —e isso está sendo cancelado.

Para entreter os gêmeos, Maria Vitoria diz que conheceu contadoras de histórias infantis online no Instagram. "Achei genial, pois posso tirar um pouco os meus filhos da TV, dos desenhos", afirmou ela, que também foca em brincadeiras "possíveis de fazer em casa", como pintar, desenhar, recortar.

"Também vou investir em cozinhar com eles. Estamos usando a criatividade para segurá-los ao máximo dentro de casa. Tivemos que cortar até mesmo o contato com outras crianças do condomínio."

Revezamento com o marido para cuidar da filha

Em época de isolamento social, a pequena empresária Sabrina Maróstica, 35, não leva mais a filha Maria Flor, de 2 anos e 10 meses, para o maternal, diminuiu o ritmo de trabalho e faz revezamento com o marido, Reinaldo, no cuidado com a menina.

Até então, Maria Flor era cuidada pela babá, Karina, por meio período. Mas, por conta da crise do coronavírus, Karina foi desobrigada de trabalhar para se resguardar em isolamento social em sua casa, mas continua sendo remunerada, segundo Sabrina.

"Eu e meu marido estamos aqui na força-tarefa. Agora a ideia é desacelerar um pouco, produzir menos. Minha filha precisa de mim inteira", declarou Sabrina, dona da PFzinho, empresa que faz comidinhas, lanches e sobremesas para crianças, em São Paulo.

Na parte da manhã, Sabrina fica com a filha, enquanto o marido trabalha. À tarde, é ela quem trabalha, e Reinaldo brinca com a Maria Flor. Brincadeiras, pipoca e assistir a filmes estão na lista de atividades delas.

Para Sabrina, a parte mais difícil é evitar levar a filha para visitar a avó Nair, 69, e a bisavó Esther, 94, "por elas estarem no grupo de risco".

Rotina de filha não mudará muito, diz empresária

A rotina da pequena Maria Alice, de 2 anos e meio, não mudou muito, mesmo com o isolamento social imposto para conter o coronavírus. Ela ainda não foi matriculada em creche e vinha sendo cuidada pela avó Marlene, 52, por meio período, para que Gislayne Santos, 31, sua mãe, pudesse tocar a Minitees, uma marca de roupa para mulheres e crianças, com sede em São Paulo.

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Gyslayne Santos, da Minitees, e a filha, Maria Alice
Imagem: Claudia Varella/UOL

"Nossa rotina se manteve a mesma. A Maria não frequenta creche. Então, eu e meu marido, Alexandre, continuamos nos resguardando. Mas ao mesmo tempo buscando alternativas para conseguir honrar com os compromissos da empresa. A rotina com a Maria segue normal", disse Gislayne.

Segundo ela, as vendas online da Minitees caíram 90%, e as feiras e os eventos programados foram cancelados.

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