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Brasileiro só gosta de um tipo de feijão, e isso encarece, diz especialista

Um das variedades é o feijão munge - CNA/Divulgação
Um das variedades é o feijão munge Imagem: CNA/Divulgação

Viviane Taguchi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

15/12/2021 04h00

A combinação arroz e feijão é um clássico brasileiro. A dupla de grãos se consolidou como base da alimentação, mas há uma disparidade entre as produções de um e de outro projetadas para a safra 2021/2022. Estatísticas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgadas na semana passada, apontaram que a produção de arroz deve ser de 11,1 milhões de toneladas e a de feijão, considerando as três safras da leguminosa, de 3,1 milhões de toneladas.

A diferença entre os volumes se deve, principalmente, a um fator cultural, a produção e o consumo majoritário de um tipo de feijão específico no Brasil: o carioca, o preferido da população.

"Mais de 60% da produção e consumo de feijão no Brasil é de feijão carioca, e isso coloca o agricultor numa situação complicada: se faltar, ele não tem onde comprar [só o Brasil produz o carioca] e quando sobra, ele não tem para quem vender", explicou Marcelo Lüders, presidente do Instituto Brasileiro de Feijões e Pulses (Ibrafe).

Por isso, segundo Lüders, o produtor planta cada vez menos feijão carioca, tornando o produto mais caro para o consumidor, que por sua vez, não tem mais poder de compra como antigamente.

"O agricultor vê preços internacionais da soja e do milho valorizados, com incentivos das empresas e facilidades para comercializar esses grãos. Então, ele para de plantar feijão e vai plantar soja e milho porque ele não vai ter prejuízo", afirmou.

A saída, segundo ele, seria a diversificação do consumo, que estimularia mais plantios, aumentaria a oferta, e reduziria o preço da comida. "Existem muitos tipos de feijões produzidos no Brasil."

Opções de feijões

Mudar um hábito de consumo e aumentar a demanda por outros tipos de feijão poderia dar ao consumidor mais poder de compra, já que o agricultor estaria estimulado a investir mais em lavouras de feijão das variedades fradinho, rajado, preto, vermelho, branco, caupi ou munge.

"Com maior oferta, o preço cai, é a regra do mercado. Essas variedades, diferentemente do feijão carioca, são exportáveis. Então, se o produtor tem excedente de produção, existe a alternativa de vender no mercado externo e não ficar no prejuízo", disse ele.

Neste ano, as exportações de feijão atingiram, pela primeira vez, R$ 1 bilhão, com a venda de 200 mil toneladas de feijões (que não são carioca).

"Se houvesse o consumo desses feijões no Brasil, a oferta seria maior e o preço, menor para o consumidor. O produtor precisa de estímulo para plantar. Nesse caso, a exportação foi um estímulo, mas se houvesse o consumo interno, o consumidor também seria beneficiado", disse o executivo.

Preços mais altos em 2022

Em 2021, o preço do feijão teve até uma queda, de 5,21% em relação ao ano passado, mas os custos de produção, que são calculados em dólar, subiram.

"Neste final do ano os preços do feijão estão semelhantes aos do começo do ano, mas o produtor sentiu as altas nos insumos. Então provavelmente, nos próximos quatro meses, haverá uma reação dos preços", disse Lüders.

Segundo o executivo, a alta projetada se deve à distribuição do novo auxílio financeiro do governo, "que deve ir todo para comprar produtos básicos" e as compras do próprio governo, para distribuição de cestas básicas.

"Há uma projeção de maior consumo, mas definitivamente, o consumidor tem que começar a mudar o hábito de consumo e experimentar outros feijões e conseguir comer; caso contrário, caminhamos para uma guerra: um homem com fome fica louco, mas quando um homem vê a sua família com fome, ele fica insano", declarou.

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