Chuvas devastam produção de azeite brasileiro; agricultores somam prejuízos

As tempestades fora do normal que caíram no Rio Grande do Sul nos últimos meses devastaram a plantação de oliveiras do empresário Marcelo Costi. Ele é proprietário de uma marca de azeite de oliva em Caçapava do Sul, uma das principais regiões produtoras do óleo vegetal no Brasil.

Muita chuva prejudica a colheita

Costi calcula que as fortes chuvas de setembro a novembro foram responsáveis pela perda de mais de 90% da próxima safra, que acontecerá de fevereiro a abril. "Eu devo colher, sendo otimista, [o equivalente a ] uns 100 litros. Já tive perdas causadas pela seca em anos anteriores, mas nada chega perto do que a chuva fez agora", diz o empresário, que na temporada passada envazou 4.000 litros do produto.

Um dos vilões da inflação brasileira em 2023, o azeite de oliva está mais caro para o consumidor. Isso porque países como a Espanha, líder mundial na produção da iguaria, têm sido castigados com a falta de chuva que secou os campos de cultivo de azeitona. No Brasil, que importa 99,5% de todo o azeite de oliva consumido em território nacional, o preço disparou 33% ao longo do ano, segundo o IPCA. Uma embalagem já é encontrada nos supermercados por mais de R$ 40.

Se a seca tem prejudicado o cultivo de azeite de oliva na Europa, a preocupação no Brasil é com o excesso de chuvas no Rio Grande do Sul e na Serra da Mantiqueira, principais regiões produtoras do óleo vegetal. A previsão para as próximas semanas é de um início de verão chuvoso, sobretudo no estado do Sul.

O estado de emergência climática em que o mundo se encontra acendeu o alerta vermelho em produtores gaúchos. Marcelo Costi diz que não tem como se preparar para eventos dessa magnitude, porém sente um alívio momentâneo por ainda ter mais da metade de garrafas de azeite de oliva da colheita passada para vender.

Eu não vou mais fazer garrafas de meio litro de azeite em 2024. É melhor vender apenas as pequenas [de 250 ml] para ter uma quantidade um pouco maior.
Marcelo Costi, empresário do ramo do azeite de oliva

O empresário Marcelo Costi exibe resultado de colheita passada
O empresário Marcelo Costi exibe resultado de colheita passada Imagem: Arquivo Pessoal/Marcelo Costi

Por que o azeite brasileiro pesa mais no bolso?

O preço do azeite de oliva disparou 33% ao longo do ano, segundo o IPCA
O preço do azeite de oliva disparou 33% ao longo do ano, segundo o IPCA Imagem: Acervo pessoal/ Marcelo Costi
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O azeite de oliva brasileiro é mais caro do que o estrangeiro. Uma garrafa de 500 ml é vendida na faixa dos R$ 60 a R$ 70, quase o dobro cobrado hoje em uma embalagem inflacionada que vem de Portugal ou da Espanha com a mesma quantidade.

O presidente do Ibraoliva (Instituto Brasileiro de Olivicultura), Renato Fernandes, diz que o alto custo do azeite de oliva é justificado por alguns fatores: alto custo de produção e menor escala.

O óleo produzido aqui é do tipo extravirgem, em um processo em que as azeitonas são colhidas mais novas e manualmente, transportadas para o lagar (tanque), onde são refrigeradas até serem transformadas no líquido. Em média, 10 kg de azeitonas rendem 1 litro da opção extravirgem.

A indústria nacional também é mais recente, iniciada em 2008, e muito menor do que a europeia. As áreas de pomares ocupam cerca de dez mil hectares em todo o Brasil e a produção anual fica em torno de 500 toneladas — 0,5% de tudo o que é consumido no país. Os negócios, geralmente, são tocados por famílias que acumulam prêmios de reconhecimento internacional.

O processo de produção do azeite brasileiro tem uma dinâmica diferente do europeu: as oliveiras podem ser plantadas em qualquer época do ano, sobretudo em períodos mais chuvosos, e a colheita acontece de fevereiro a abril. A árvore é resistente a altas temperaturas e ao tempo seco, mas longos períodos de estiagem prejudicam o seu ciclo produtivo.

Sem mencionar nomes, Fernandes defende que marcas estrangeiras oferecem azeites adulterados ao anunciarem como "extravirgem" no rótulo. Ele afirma que os produtos internacionais vendidos no Brasil são feitos em larga escala e sem os mesmos cuidados no manuseio e transporte. "É um azeite virgem de segunda categoria", declara.

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A colheita de azeitonas é um processo manual e demorado, dizem produtores
A colheita de azeitonas é um processo manual e demorado, dizem produtores Imagem: Arquivo pessoal/Marcelo Costi

Produtor brasileiro tem que aumentar o preço

Ricardo Abdala (à esq.) prevê perdas expressivas em 2024 e vai aumentar o preço do azeite do oliva
Ricardo Abdala (à esq.) prevê perdas expressivas em 2024 e vai aumentar o preço do azeite do oliva Imagem: Arquivo pessoal/Ricardo Abdala

Em menos de um mês, a expectativa de Ricardo Abdala de ter uma próxima safra positiva de azeite de oliva em 2024 foi frustrada. Antes de conferir os estragos causados pela chuva, ele acreditava que igualaria a quantidade de 4.000 litros deste ano. Mas ele refez os cálculos após visitar a fazenda e ver que o excesso de água interrompeu a polinização nas oliveiras e agora espera ter de 800 a 1.000 litros.

Como reflexo das perdas, o empresário de Caçapava do Sul terá de subir os preços das garrafas de azeite entre 10% e 20% a partir de janeiro. E nada até o momento traz uma perspectiva de que novos aumentos serão freados ao longo do ano.

As vendas vão diminuir um pouco, mas não vamos afastar novos clientes. Acredito que não vamos conquistá-los na mesma velocidade que vinha acontecendo.
Ricardo Abdala, empresário do ramo de de azeite

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A presidente da Oliva (Associação Brasileira de Importadores, Produtores e Comerciantes de Azeite de Oliveira), Rita Bassi, declara que a preocupação do setor com a emergência climática é geral. Ela afirma que o COI (Conselho Oleícola Internacional), com sede em Madri, realizará estudos na tentativa de mitigar as perdas causadas tanto pela estiagem quanto pelos temporais. "Nós temos tecnologia e mentes para isso. Não dá para ficarmos à mercê."

Chuvas não vão parar tão cedo

Família Capoani mantém otimismo nos negócios, apesar de prever quebra de safra de 20% em 2024
Família Capoani mantém otimismo nos negócios, apesar de prever quebra de safra de 20% em 2024 Imagem: Arquivo pessoal/Carolina Capoani

Tudo indica que a temporada de colheita será feita sob temporais no verão gaúcho. A meteorologista do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia), Danielle Barros, diz que a previsão de chuva para Caçapava do Sul até fevereiro é de 140 mm de chuva, quantidade quase cinco vezes menor do que o volume registrado em setembro, de 680 mm.

Segundo Barros, o El Niño é um dos responsáveis pelo desequilíbrio nas chuvas nesse período. O fenômeno gera uma grande circulação de ventos, interfere no movimento de outros ventos, e impede o avanço de frentes frias na região Sul. Mas existe outro ponto igualmente importante: o aquecimento global.

Nós estamos vendo mudanças climáticas que favorecem a ocorrência de eventos mais extremos, como inundações, secas e ondas de calor. A tendência é que nos próximos anos esses eventos mais extremos apareçam cada vez mais.
Danielle Barros, meteorologista do Inmet

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A empresa de azeite de oliva das irmãs Carolina e Martina Capoani dificilmente vai superar a produção de 16 mil litros do óleo registrada em 2023. Elas preveem que a quebra na próxima safra deve ser em torno de 20%, algo que não estava no radar do negócio familiar de Canguçu, município próximo a Caçapava do Sul.

Mesmo com esse prejuízo em vista, elas avaliam que a crise da indústria espanhola desponta como uma oportunidade para o brasileiro conhecer os produtos nacionais. Ainda que os preços fujam da realidade de uma parcela significativa da população. "O brasileiro é preocupado com saúde e estética. Algumas pessoas estão dispostas a investir mais porque o azeite de oliva pode ser um remédio. É extremamente saudável", diz Carolina Capoani.

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