Cliente de banco apoiado por Carlinhos Maia sofre sem dinheiro: 'Humilhada'

Correntistas do banco digital Girabank dizem que não conseguem movimentar suas contas e nem sacar o dinheiro depositado. O influenciador Carlinhos Maia se apresentava como sócio-fundador da empresa e aparecia como garoto-propaganda do banco, mas declarou que se desligou do Girabank há um ano.

O que aconteceu

Os clientes contam que fizeram depósitos, mas não conseguem operar a conta. "Estou há duas semanas tentando contato com eles, mas não respondem. Depositei R$ 2.000 na conta e não consigo mexer no dinheiro", disse ao UOL o empreendedor Luiz Carlos Oliveira, que mora em São Paulo.

A queixa é compartilhada por outros clientes, que tentam há dias recuperar o dinheiro. Alguns afirmam que não conseguem fazer transferências ou Pix e que os canais de comunicação oficiais do banco não respondem às demandas.

Algumas pessoas até conseguiram movimentar a conta, mas depois de muito insistir com o banco. É caso da caixa de restaurante Maria Nilayra Oliveira, 28, de Fortaleza. Ela recebeu o salário e parte do 13° na conta do Girabank e ficou com o dinheiro retido até 11 de dezembro.

Ficamos mais de dez dias praticamente sem ter o que comer e sem poder pagar as contas. Tentei de tudo. Os canais do banco não respondiam. Passei mensagem para o Carlinhos, para os associados dele. Depois, para pessoas relacionadas a ele. Minha geladeira ficou vazia, meu filho de 5 anos ficou sem ter o que comer. Só permitiram que eu acessasse o dinheiro quando deixei registrado que me atiraria embaixo de um carro. Foi muito humilhante.
Maria Nilayra Oliveira do Vale, caixa de restaurante

Emily conta que ficou com R$ 5.767,00 presos na conta
Emily conta que ficou com R$ 5.767,00 presos na conta Imagem: Arquivo pessoal

Clientes dizem que atrasaram pagamentos e compromissos. A fotógrafa Emily Ramos, 24, de Sergipe, conta que ficou com R$ 5.767 presos na conta, por mais de 30 dias. Ela afirma que não conseguia sacar, transferir ou fazer Pix. Por isso, atrasou pagamentos do cartão de crédito, deixou de fazer exames médicos já marcados, não pagou aluguel e atrasou conta de água e energia.

No site do Reclame Aqui, havia 2.458 reclamações contra a instituição até a noite de terça-feira. A empresa se enquadra como "Não Recomendada", pois não responde a pelo menos 50% das reclamações recebidas.

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No perfil do banco no Instagram, com 238 mil seguidores, os comentários foram desativados. As últimas manifestações de clientes descontentes datam de duas semanas atrás.

'Viraram clientes por causa dele'

Carlinhos Maia fez propaganda para banco
Carlinhos Maia fez propaganda para banco Imagem: Reprodução/Redes Sociais

Clientes dizem que acreditaram em afirmações anteriores de Carlinhos Maia, de que seria o dono da instituição voltada a pessoas sem recursos. "Depois ele disse que não tinha nada a ver com o que tinha acontecido", afirma Maria Nilayra, que criou um grupo de vítimas do banco no WhatsApp —o grupo reúne dezenas de pessoas que ainda não conseguiram o dinheiro de volta ou cujo processo foi demorado.

Milhões de pessoas viraram clientes do banco por indicação dele. Se o banco não era confiável, para que indicar? Ele prometeu, principalmente para os pobres, que o banco era para eles, que o cartão ia ser o cartão do povo pobre. No grupo tem ainda um monte de gente que recebe salário por esse banco e que há semanas não consegue mexer no dinheiro.
Emily Ramos, fotógrafa

O que diz Carlinhos Maia

No surgimento do banco, em novembro de 2021, Carlinhos Maia se apresentou como o seu fundador. Em vídeo nas redes sociais na época, ele afirmava ter investido, com outros sócios, mais de R$ 100 milhões no projeto, cujo nome (Girabank) faz menção à forma como ele chama seus fãs (girassóis). Desde então, atua como garoto-propaganda da instituição.

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Após o caso vir à tona, pouco antes do Natal, ele afirmou que se desligou da empresa há cerca de um ano, justamente por ser procurado constantemente por seguidores descontentes com o Girabank. O influenciador não aparece no cadastro do banco como sócio.

Gente, não estou mais no Girabank --não porque eu não acredite no banco. Pelo contrário, é porque não aguento. Eu me arrependi. Esses projetos que eu entrei foram sonhos de outras pessoas e que eu sei que ralam muito e decidi entrar. Mas não existe dinheiro que vem para a nossa conta, a gente não tira dinheiro de ninguém.
Carlinhos Maia, influenciador, em um vídeo publicado nos Stories do Instagram

Carlinhos afirmou que o banco está sendo vendido para outro grupo e comunicando seus clientes da mudança. "Olhem no e-mail de vocês, eles estão respondendo todo mundo. Está tendo uma troca de donos e de maneira nenhuma o dinheiro de ninguém será roubado —até porque não pode, envolve o Banco Central e tudo mais. Fiquem tranquilos, olhem o e-mail de vocês. Eles estão resolvendo tudo", disse o influenciador alagoano, considerado um dos mais importantes da internet, com 29 milhões de seguidores.

O UOL procurou Carlinhos Maia, mas ele não respondeu aos questionamentos. Segundo sua assessoria, o que havia a ser dito foi declarado nos Stories do influenciador.

Sem fiscalização

A Girabank Tecnologia e Finanças Instituição de Pagamento não aparece no catálogo público de bancos e fintechs reguladas e supervisionadas pelo BC (Banco Central). Tampouco Carlinhos Maia aparece no cadastro como sócio.

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O Banco Central informou em nota que a empresa não é fiscalizada nem supervisionada pela instituição.

A empresa tem como sócias três companhias, segundo o quadro societário registrado no governo federal: a Three Hundred Investimentos e Participações; a DMB Technology; e a Prudente Gestão de Pagamentos. A partir de 2023, surgem outros dois nomes na composição da empresa: Ana Paula Soares Parente e José Amaro da Silva, ambos como administradores. O UOL procurou as empresas e os administradores, por meio de e-mails fornecidos nos cadastros de CNPJ, mas até o momento não houve resposta. O espaço permanece aberto.

Nos termos de uso do sistema do banco, no site da empresa, a informação é que os serviços de transferência de dinheiro são oferecidos por outras empresas: a Acesso Soluções de Pagamento, operadora da plataforma de investimentos Bankly, e a Pinbank Brasil Instituição de Pagamentos S.A., pertencente ao grupo Prudencial Bank e operadora de outra fintech: a Pinbank.

Procurado, o Bankly informou que é prestador de serviços ao Girabank. "O Bankly, como instituição regulada pelo Banco Central, confirma que manterá os recursos à disposição dos clientes e fornecerá meios para que os clientes possam transferir seus recursos para outras contas de sua titularidade."

Já a Pinbank informou que se encontra na fase pré-operacional como prestadora de serviços bancários, sem contas ativas ou saldo aportado. "Consideramos a possibilidade de não prosseguir com a parceria, pois não concordamos com práticas que possam estar em desacordo com as regras de mercado", diz a empresa, na nota.

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