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Presidente da Latam Brasil rejeita comparação com Avianca e garante voos

Jerome Cadier, presidente da Latam Airlines Brasil  - Karime Xavier/Folhapress
Jerome Cadier, presidente da Latam Airlines Brasil Imagem: Karime Xavier/Folhapress

Vinícius Casagrande

Colaboração para o UOL, em São Paulo

26/05/2020 15h57

O presidente da Latam Brasil, Jerome Cadier, afirmou que os voos da companhia aérea devem continuar normalmente após o pedido de recuperação judicial feito nos Estados Unidos pelo grupo nesta terça-feira (26). Segundo ele, o processo tem como objetivo principal obter melhores condições para renegociar as dívidas da empresa, especialmente com o leasing (aluguel) de aviões. Mesmo com a renegociação e com um aporte dos acionistas, o grupo Latam vai precisar de mais US$ 1 bilhão para superar a crise.

A filial brasileira da Latam não entra no processo, mas pode ser beneficiada com reduções de custo. Por outro lado, se não houver solução para o problema financeiro da empresa, a operação da filial brasileira será afetada.

Cadier também respondeu a uma declaração do ministro da Economia, Paulo Guedes, divulgada na semana passada. Guedes disse que "não vai ter 'molezinha' para empresa aérea". Para tentar sobreviver à crise do coronavírus, as aéreas negociam um empréstimo com o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). O executivo da Latam Brasil afirmou que "'molezinha' nunca foi a nossa realidade aqui".

'Não tem comparação com a Avianca Brasil'

O executivo afirmou que boa parte dos aviões que voam no Brasil possui contratos de leasing assinados pela holding chilena. "Na medida em que a Latam Chile entra em chapter 11 [referência à lei norte-americana que trata de recuperação judicial], a Latam consegue renegociar as dívidas e os contratos de leasing e beneficiar a operação no Brasil", afirmou.

Cadier afirmou que a situação atual da empresa é completamente diferente da que ocorreu com a Avianca Brasil no ano passado. Depois de entrar em recuperação judicial, a Avianca Brasil teve todas as suas operações suspensas.

"O mercado tem de ficar tranquilo porque é uma diferença da água pro vinho do que está acontecendo hoje para o que aconteceu no passado [com a Avianca Brasil]. Quando a Oceanair [razão social da Avianca Brasil] entrou em recuperação foi por problema na sua gestão. A Latam não está entrando nessa solução por nada relacionado a gestão, pelo contrário. Essa crise está afetando todas as empresas do setor. Não só do setor aéreo, mas do turismo", afirmou.

A companhia disse que todas as suas afiliadas continuarão operando voos de passageiros e de carga e que todas as passagens atuais e futuras, vouchers de viagem, pontos e benefícios do programa Latam Pass, bem como políticas de flexibilidade, serão respeitados.

"O passageiro pode ficar tranquilo comprando passagem, utilizando e acumulando as milhas no programa de fidelidade Latam Pass, o colaborador tem o seu salário também garantido, os fornecedores vão receber pelo serviço que estão prestando. Essa é a garantia que a gente tem de passar, porque tem caixa, tem solução para equacionar o tamanho da empresa e tem compromisso dos acionistas em injetar dinheiro na companhia", afirmou Cadier.

Latam Brasil será afetada se não houver solução

Apesar de a Latam Brasil não estar dentro do processo de recuperação judicial, caso o grupo não encontre uma solução para as dívidas, as operações brasileiras também seriam afetadas. "A estrutura organizacional das empresas não mudou. O grupo Latam continua sendo o dono de 100% da operação da Latam Brasil, independente de o Brasil estar ou não no chapter 11", afirmou Cadier.

O presidente da Latam Brasil afirmou, no entanto, acreditar que a empresa tem grandes possibilidades de encontrar uma solução para resolver seus problemas de dívidas e renegociar os contratos. "O grupo deu ontem um sinal superpoderoso de que tem a capacidade de sair [da crise]", disse.

O grupo Latam tem US$ 1,3 bilhão em caixa, e os acionistas (Qatar Airways e as famílias Cueto e Amaro) se comprometeram em emprestar mais US$ 900 milhões. "Isso é um sinal muito forte dos acionistas, colocando dinheiro na companhia, diferentemente de alguns países onde só o governo está vindo ajudar", afirmou Cadier.

Grupo precisa de mais US$ 1 bilhão

Mesmo com a renegociação das dívidas e contratos e desse novo aporte dos acionistas, a grupo Latam ainda vai precisar de um capital adicional de US$ 1 bilhão para superar a crise. "Esse US$ 1 bilhão vai vir da colaboração dos governos chileno, brasileiro, peruano, colombiano. Eventualmente, de investidores que vão olhar para essa estrutura de aporte financeiro com prioridade", avaliou o presidente da Latam Brasil.

No Brasil, a Latam, a Gol e a Azul estão negociando um financiamento junto ao BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) de cerca de R$ 2 bilhões para cada empresa. Para concretizar o aporte, as empresas ainda negociam os últimos termos do acordo.

"Aérea do Brasil nunca teve 'molezinha'"

Na reunião ministerial de 22 de abril cujo vídeo foi divulgado na última semana, o ministro da Economia, Paulo Guedes, chegou a dizer que "não vai ter 'molezinha' para empresa aérea, pra nada disso".

Cadier responder o ministro. "Companhia aérea no Brasil tem tudo, menos 'molezinha' na história. A gente acabou de ver nessa semana que o governo decidiu aumentar o imposto sobre o leasing para 15% no ano que vem, uma coisa que a gente nunca pagou desde 1996, e o governo resolveu começar a cobrar das companhias aéreas. Então 'molezinha' nunca foi a nossa realidade aqui", afirmou.

Redução de frota e demissões

O presidente da Latam estima que, mesmo com a retomada gradual dos voos nos próximos meses, a companhia deve fechar o ano com uma redução de 30% a 40% de sua capacidade em relação ao período pré-crise. Por conta disso, muitos aviões deverão permanecer parados em solo. O processo de recuperação judicial permite, por exemplo, que a empresa rompa os contratos de leasing sem pagar multas.

Em alguns casos, o executivo avalia que será possível negociar com as empresas donas dos aviões para que as aeronaves não sejam totalmente devolvidas. Assim, os contratos poderiam ser retomados quando houver a volta da demanda.

Até lá, no entanto, o presidente da Latam Brasil afirmou que terá de renegociar a situação dos funcionários. A empresa entrou em acordo com os sindicatos para não demitir ninguém até o final de junho. Nesse período, boa parte da empresa entrou em licença não remunerada. "Vamos estudar o que fazer a partir de julho. Pode ser corte ou ampliação da licença não remunerada", afirmou Cadier.

Latam entra com pedido de recuperação judicial

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