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Com dívida bilionária, viação Itapemirim está prestes a ter aérea de novo

Divulgação
Imagem: Divulgação

Alexandre Saconi

Colaboração para o UOL, em São Paulo

25/04/2021 04h00

A empresa de ônibus Itapemirim está a um passo de receber autorização para voar, em meio a um processo de recuperação judicial e com uma dívida de mais de R$ 2 bilhões. A empresa deve retomar operações com aviões cerca de 20 anos após deixar o mercado. Nos anos 1990, operava principalmente transporte de carga.

Quatro das cinco fases para se obter o Certificado de Operador Aéreo já foram concluídas. Falta apenas a certificação, etapa meramente administrativa, que deve ocorrer em uma das próximas reuniões da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), agendadas para 4 e 18 de maio. Só depois disso a companhia poderá marcar uma data para começar.

Neste mês, a Itapemirim fez 14 voos de avaliação operacional exigidos pela agência, com passagens pelos aeroportos de Guarulhos (SP), Confins (MG), Salvador, Galeão (RJ) e Porto Alegre. A aeronave escolhida para começar a voar foi um Airbus A320, com capacidade máxima para 180 lugares, com a matrícula PS-SPJ, as iniciais do dono do grupo, o empresário Sidnei Piva de Jesus.

Rotas indefinidas e novos aviões

As rotas ainda são um mistério. Recentemente, a empresa reservou "slots", que são autorizações para pousos e decolagens, em Congonhas, e disse que pretende ligar capitais. No ano passado, porém, anunciou que operaria voos regionais.

Hoje a empresa tem 400 funcionários e diz que já encomendou outros nove Airbus A320.

Ela se tornará a primeira de grande porte a iniciar operações no Brasil nos últimos anos. Existia a expectativa de que novas aéreas viessem ao Brasil a partir de 2019, com a abertura do mercado de voos domésticos a estrangeiros, mas isso não aconteceu. A Air Europa tentou voar aqui, mas acabou cancelando os planos.

A rapidez com que a Itapemirim se movimentou causou surpresa. Em um cenário de pandemia e com o setor enfrentando uma das maiores crises até hoje, a Itapemirim levou pouco mais de um ano para fazer seu primeiro voo, desde os primeiros anúncios, feitos no começo de 2020.

Recuperação judicial e dívida de mais de R$ 2 bi

A decisão de criar uma aérea também causou incômodo e desconfiança no mercado, porque o grupo Itapemirim está em recuperação judicial. A empresa deve mais de R$ 2 bilhões só em impostos, segundo relatório da administradora judicial responsável pelo processo, a EXM Partners, ao qual o UOL obteve acesso. Além disso, deve R$ 167 milhões a credores.

Apesar das dívidas, a empresa gastou mais de R$ 27 milhões entre setembro de 2020 e fevereiro de 2021, com a criação da nova companhia aérea, ainda de acordo com a administradora judicial. Um valor semelhante (R$ 27,7 milhões) já foi pago aos credores até agora, informou a Itapemirim.

Justiça diz que empresa tem liberdade nos negócios

No ano passado, em ação questionando o ingresso da Itapemirim no mercado de aviação, a Justiça decidiu que a empresa tem liberdade para conduzir seus negócios, desde que respeite a recuperação judicial.

A Itapemirim afirma que está cumprindo regularmente seu plano de recuperação e prevê que a Justiça poderá encerrá-lo em 24 de maio, quando um juiz irá avaliar o caso. Além disso, diz que tem em torno de R$ 400 milhões em imóveis e outros ativos, que poderem ser empenhados em caso de descumprimento de determinações judiciais.

Em fevereiro de 2020, o presidente do grupo anunciou um aporte de US$ 500 milhões de um fundo dos Emirados Árabes Unidos. Até hoje, porém, não foi confirmado se esse dinheiro chegou à empresa, já que os termos do acordo são confidenciais.

Itapemirim já teve aérea de carga

Na década de 1990, a Itapemirim teve uma companhia aérea própria, que deixou de existir no início dos anos 2000. Operava prioritariamente aviões de carga, setor que já explorava na modalidade rodoviária. Passageiros eram transportados em aviões Cessna Grand Caravan, com capacidade máxima de nove lugares.

Em 2017, a Itapemirim anunciou a compra da Passaredo, que passava por um processo de recuperação há anos. Em agosto daquele ano, porém, a Justiça decretou o fim da recuperação judicial da Passaredo, e a empresa voltou atrás na negociação com a Itapemirim. Segundo a aérea, a companhia de transporte rodoviário descumpriu condições estabelecidas em contrato, o que teria feito o negócio não evoluir.

Diversificação para sobreviver

Apostar em outros ramos para manter o grupo Itapemirim saudável pode ser uma maneira de resistir às fortes pressões econômicas existentes desde antes da pandemia, afirmou Sillas de Souza Cezar, professor de economia da Faap (Faculdade Armando Álvares Penteado).

"Em termos teóricos, podemos pensar que o empresário está fazendo uma aposta alavancada num setor diferente do seu, supondo que os ganhos futuros serão de tal ordem que o permitam pagar suas dívidas e seguir com o novo ramo, mais bem remunerado", diz.

Mas ele alerta que políticas de incentivo ao turismo ou de taxação de combustíveis, por exemplo, podem influenciar diretamente o novo negócio. "Assim como no restante do mundo, esse é um setor sensível [às políticas econômicas] do Poder Público. Então os interesses em jogo nessa movimentação nunca ficam totalmente claros", afirma.