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Você entende o que os ministros do STF dizem? Precisa ser tão complicado?

Reinaldo Polito

Reinaldo Polito

Um aluno do nosso Curso de Expressão Verbal comentou que precisa recorrer ao dicionário para tentar entender o que alguns ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) dizem para sustentar seus votos nos diferentes julgamentos transmitidos pela televisão. Embora bem preparado, para ele, em certos momentos, a linguagem desses juízes é quase incompreensível.

Como nos próximos meses, e talvez até nos próximos anos a oratória desses ministros estará à nossa frente nas transmissões ao vivo pelas emissoras de televisão, nas dezenas de julgamentos no processo do Petrolão, seria interessante avaliarmos se essa linguagem é ou não adequada, e que vocabulário devemos usar nas nossas apresentações.

Termos jurídicos têm significado específico

Será que eles precisam mesmo usar esse palavreado tão complexo e sofisticado? Sim. E não. No meu livro "Oratória para advogados e estudantes de direito" defendo o "sim" ao chamar a atenção para o fato de alguns termos jurídicos possuírem significado particular, que nem sempre corresponde à linguagem comum. Como argumento destaco um alerta de Edmundo Dantès do Nascimento.

Em sua obra "Lógica aplicada à advocacia", resgata considerações de Plácido e Silva, no livro "Vocabulário jurídico forense": "Em relação aos prazos, dilação, prorrogação, e renovação, aparentemente análogos no conceito vulgar, exprimem no sentido jurídico conceitos próprios, que não se identificam nem se confundem, como ocorre na linguagem vulgar".

Por isso, alguns termos usados pelos ministros, por mais "pernósticos" que possam parecer, precisam ser exatamente aqueles, já que se usassem outros, embora semelhantes, ou com sentido aparentemente idêntico talvez significassem conceitos totalmente distintos. Não seria difícil deduzir as consequências que esses equívocos poderiam provocar.

As pessoas precisam entender a Justiça

Por outro lado, nessa mesma obra, para defender o "não" cito a preocupação da Associação dos Magistrados Brasileiros, que em uma cartilha intitulada "O judiciário ao alcance de todos", critica o exagero do juridiquês. Seus autores pregam que a atuação da justiça deve ser compreendida por todos, especialmente por aqueles a quem se destina.

Diz a AMB: "É desafiadora a iniciativa da AMB de alterar a cultura linguística dominante na área do Direito e acabar com textos em intrincado juridiquês. A Justiça deve ser compreendida em sua atuação por todos e especialmente por seus destinatários. Compreendida, torna-se ainda mais imprescindível à consolidação do Estado Democrático de Direito".

Esse é o desafio que enfrentamos no desenvolvimento das nossas atividades. Afinal, devemos ou não nos valer de termos técnicos, específicos da profissão que abraçamos, ou tentar traduzir essa linguagem para que, sem esforço, pudesse ser entendida por todos os ouvintes, independentemente do seu campo de atuação?

Assim como no caso dos ministros do STF a resposta é sim e não. Se você estiver diante de profissionais que militam em sua área, o vocabulário técnico, específico da sua atividade, além de facilitar o entendimento dos interlocutores, projetará sua imagem profissional de forma positiva. Esse vocabulário já não seria conveniente se os ouvintes pertencessem a áreas distintas, e não estivessem familiarizados com esses termos.

Leve em consideração o ambiente em que está

É preciso levar em consideração ainda a circunstância e o ambiente onde nos apresentamos. Se você defende um trabalho acadêmico, além do conteúdo e da qualidade da pesquisa que realizou, sua atuação também será avaliada pelo vocabulário que utiliza. Nesse caso a linguagem deveria ser adequada à vida acadêmica.

Se em outro momento você apresenta um projeto em uma reunião na empresa, a linguagem também deveria ser apropriada àquela circunstância. Uma linguagem do mundo dos negócios, adequada à vida corporativa. Se após o horário do expediente participar com os mesmos colegas de trabalho de um happy hour, a linguagem deverá ser leve, solta, justa àquele ambiente.

Fique atento sempre à circunstância e ao tipo de ouvinte que terá pela frente, e adapte a linguagem a cada ambiente e característica de público. Essa competência para ajustar a linguagem aos diferentes momentos poderá ser útil para que a sua comunicação atinja os objetivos pretendidos e até contribua para o desenvolvimento da sua carreira.

O ideal seria utilizar um vocabulário que transitasse de um ambiente a outro, de um público a outro com pequenas alterações, de modo a permitir que todas as pessoas pudessem entender nossa mensagem com facilidade, estando ou não familiarizadas com a nossa área de atuação.

Quanto aos ministros do STF, embora na maioria das vezes precisem lançar mão de termos incompreensíveis para a maioria da população, não raro observamos que alguns deles conseguem transmitir a mesma mensagem comunicada por um de seus colegas em linguagem de mais fácil compreensão. Ora, se um pode, por que outro não?

Superdicas da semana

  • Reserve o vocabulário técnico àqueles que atuam na sua atividade
  • Encontre um vocabulário que com poucas alterações transite por todos os ambientes
  • Use o vocabulário adequado a cada circunstância
  • Aprimore o vocabulário para que possa fazer a escolha certa para cada tipo de ouvinte

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante, e "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva.

Para outras dicas de comunicação, entre no meu site (link encurtado: http://zip.net/bcrS07)

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Reinaldo Polito

Autor de 25 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

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