Topo

Coluna

Reinaldo Polito


O que mudou na fala nos últimos 20 anos? Temos de ser breves e objetivos

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

26/03/2019 04h00

Não, tempo, não zombarás de minhas mudanças!
As pirâmides que novamente construíste
Não me parecem novas, nem estranhas;
Apenas as mesmas com novas vestimentas.

(William Shakespeare)

Perguntas que são recorrentes na minha atividade profissional: o que mudou na comunicação nos últimos anos na vida corporativa? Como os gestores se comunicavam no passado e como se comunicam nos dias de hoje? Os diretores, gerentes e supervisores que aprenderam e se desenvolveram na arte de falar há 20 ou 30 anos tiveram de reaprender a maneira de se expressar?

Não basta aos gestores apenas aprenderem a falar bem, é preciso que esse aprendizado seja atualizado constantemente. O público sofre modificações a todo instante. Suas aspirações se modificam a cada momento. A maneira como se informam, como se valem das redes sociais é um desafio permanente. E todos esses fatores estão ligados à comunicação.

Se esses fatos se sucedem e deixam de ser os mesmos de um dia para outro, dá para imaginar as modificações que ocorrem ao longo de algumas décadas. As pessoas que se interessam pelo aprendizado da arte de falar em público também não são mais as mesmas de duas ou três décadas atrás.

Quando comecei a dar aula, nossa escola recebia no máximo 5% de mulheres. Hoje são maioria. A idade média dos alunos era de 35 anos. Hoje não chega a 30. Como os celulares ainda não haviam sido inventados, esse objeto não estava presente na plateia e não tirava a concentração dos ouvintes.

Há uns 50 anos as pessoas falavam em "oratória" com a maior naturalidade. Apenas algumas atividades se dedicavam ao uso da palavra em público, principalmente os políticos, os advogados e os pregadores. Era difícil encontrar um executivo que precisasse fazer um discurso. Somente com o final do período militar é que as empresas abriram as portas para o mercado. E tiveram de se comunicar.

O jornalista e publicitário Walter Nori, na sua obra "Portas abertas" conta como a falta de hábito de se comunicar levava alguns executivos a cometerem equívocos primários. Achavam, por exemplo, que, para garantir uma boa matéria na imprensa, bastava pagar ao jornalista. Levou tempo para que os gestores se conscientizassem da importância de aprimorar a capacidade de se comunicar.

A partir dos anos 1980, com a redemocratização, o estudo da oratória toma novo impulso, mas a resistência ao termo "oratória" era ainda mais forte. Tanto que os cursos que ensinavam a falar em público usavam outras denominações. O de Oswaldo Melantonio era chamado de "Comunicação Verbal", o de Admir Ramos "Comunicação Oral" e o meu "Expressão Verbal".

Se puséssemos a palavra "oratória", enfrentaríamos forte resistência. Afinal, pensavam, "oratória" é só para quem faz discursos como os políticos. Esse preconceito parece estar enfraquecido nos dias atuais. Quando falo em "oratória" quase ninguém mais se espanta. Sabem que todo bom profissional precisa aprender a falar bem em público. É uma competência necessária.

Quais os aspectos da comunicação que sofreram modificações nas últimas décadas?

A objetividade talvez seja um dos mais destacados. Era comum nas décadas passadas um orador falar durante duas, três horas. As pessoas tinham tempo, paciência. Um discurso longo chegava a ser momento de entretenimento. Antão de Moraes, ao fazer defesa aos longos discursos de Rui Barbosa, disse: "Rui era como o oceano, não era prolixo, era grandioso".

Hoje, embora boas palestras sejam feitas em uma hora e meia, em algumas empresas o tempo é tão importante que as reuniões são realizadas em pé, para que ninguém se anime a falar demais. Tenho amigos que se dedicaram a treinar objetividade até para escrever. Digitam suas mensagens usando duas linhas no máximo. Exagerando três. E conseguem nesse curto espaço dizer o que querem com começo, meio e fim.

A naturalidade foi outro aspecto que sofreu alterações. Era natural, espontâneo quem se apresentava em público com fala adornada, repleta de figuras de linguagem, com "musicalidade" que caracterizava o orador daquela época. Se alguém se apresentar assim hoje, poderá ser confundido com um ser extraterrestre. A linguagem mais solta, direta e descontraída é que aproxima agora o orador dos ouvintes. Especialmente na vida corporativa.

Vale a pena observar como I. B. Cordeiro na sua obra "Arte de fallar e de escrever, ou tractado de rhetorica geral", publicada em 1848 conceitua a naturalidade: "O natural consiste em expor os pensamentos e os sentimentos com facilidade, sem esforço, sem afetação". Nada muito diferente do que poderíamos hoje dizer sobre naturalidade, passados 171 anos.

A roupa do orador também já não é a mesma. Era impossível imaginar alguém falar em público sem terno, se fosse homem, ou sem tailleur ou vestido mais formal, se fosse mulher. Hoje, os homens praticamente aboliram o terno, e é difícil encontrar mulheres vestidas com essa formalidade. Instituições tradicionais como Banco do Brasil, Bradesco, Itaú recomendaram que os funcionários não usem mais terno.

A importância da comunicação ganha relevos diferentes numa verdadeira gangorra, com altos e baixos. Talvez nem todos saibam, mas no século 19 a retórica fazia parte dos currículos escolares brasileiros. Os livros com lições de eloquência escritos por Manuel da Costa Honorato, Francisco Freire de Carvalho, Antonio Marciano da Silva Pontes, A. Cardoso Borges de Figueiredo, entre outros, foram adotados pelas escolas no Brasil durante os anos 1800 até o princípio dos anos 1900.

Se compararmos os pontos da oratória estudados nos antigos manuais adotados nas escolas nos séculos passados, vamos constatar que não diferem muito do que é estudado hoje. A sua aplicação, entretanto, é totalmente distinta. Eu estudei e estudo oratória nesses livros. Tenho no meu acervo quase todos os autores adotados nos cursos de retórica em Portugal e Brasil desde o princípio dos anos 1700.

Essa comparação entre as gerações de hoje e dos séculos passados me ajuda a ter uma dimensão de como a comunicação pode e deve ser adaptada a cada época. Ter a consciência de que os recursos que são importantes para o sucesso de um orador hoje, com certeza não serão para quem precisar falar em público daqui a cinco ou dez anos.

A conclusão que podemos tirar dessa reflexão é a de que tão importante quanto aprender a falar bem é a capacidade de se adaptar às constantes mudanças no perfil dos ouvintes, que exigem do executivo a cada dia uma forma adequada e inovadora para transmitir a mensagem.

Superdicas da semana:

  • As características dos ouvintes se modificam com frequência
  • O orador precisa verificar se a sua forma de falar não está desatualizada
  • A naturalidade, a objetividade e a roupa sofreram muitas modificações nos últimos anos
  • As mídias sociais serão as causas das grandes mudanças na maneira de falar

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

Siga no Instagram - @reinaldo_polito
Siga pelo Facebook - facebook.com/reinaldopolito
Pergunte para saber mais - contatos@polito.com.br

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL