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Bolsonaro perde a paciência e ataca Maia e Alcolumbre

Imagem da entrevista concedida por Bolsonaro à CNN Brasil no dia 15 de março de 2020 - Reprodução/CNN Brasil
Imagem da entrevista concedida por Bolsonaro à CNN Brasil no dia 15 de março de 2020 Imagem: Reprodução/CNN Brasil
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

17/03/2020 04h00

Não há lugar para sabedoria onde não há paciência.
Santo Agostinho

Vou tocar num tema que, aparentemente, tem conotações políticas, mas que, na verdade, tem tudo a ver com comunicação. Bolsonaro não aguentou as insistentes críticas de Rodrigo Maia e revidou. Por que o chefe do executivo aguentou os ataques até agora e, de uma hora para outra, resolve contra-atacar? Essa é uma história antiga que merece algumas observações.

Embora atue há 20 anos como professor nos cursos de pós-graduação em Marketing Político, na ECA-USP, nas minhas considerações aqui no UOL eu me atenho somente à atividade que desenvolvo há 44 anos —analiso a comunicação dos políticos. Escrevo sobre a maneira como se expressam, argumentam, atacam seus adversários, defendem seus pontos de vista, refutam as objeções, fazem pronunciamentos, concedem entrevistas.

Aprendemos com a comunicação dos políticos

Os exemplos dos políticos são excelentes, pois poderão ser aplicados, com pequenas adaptações, na vida corporativa e no relacionamento social. Nesses 13 anos, já tive a oportunidade de analisar nesta coluna a comunicação de quase todos os políticos que se destacaram nos últimos governos. De Fernando Henrique para cá, todos os presidentes foram contemplados: FHC, Lula, Dilma, Michel Temer e Bolsonaro.

Falei também a respeito da oratória de seus ministros. Só como exemplo, analisei a comunicação de Paulo Guedes, Sérgio Moro, general Augusto Heleno, Damares Alves, Abraham Weintraub, Regina Duarte (quase ministra). Escarafunchei, ainda, a qualidade da comunicação do vice-presidente Hamilton Mourão, do porta voz Rego Barros, do ex-governador Geraldo Alckmin e de João Doria.

As primeiras-damas Ruth Cardoso, Marcela Temer e Michelle Bolsonaro também renderam ótimas análises.

Senadores e deputados foram bons alvos para discutir a forma como se comunicam. Não ficaram de fora, ainda, os presidentes americanos Barack Obama e Donald Trump. Se tiver interesse, basta rolar para baixo que vai encontrá-los.

A contenda entre Maia, Alcolumbre e Bolsonaro

Desta vez, quero falar da estratégia de comunicação adotada pelos presidentes Jair Bolsonaro, David Alcolumbre e Rodrigo Maia. Os três se valem da comunicação para atingir seus objetivos. Há nesse relacionamento uma disputa política que não consegue ser disfarçada.

O presidente do Senado, embora seja mais comedido nas críticas e nas atitudes, vira e mexe dá uma alfinetada no presidente da República. Rodrigo Maia age de maneira mais contundente —aproveita todas as oportunidades para criticar Bolsonaro. Desde o princípio deste seu mandato, elegeu o chefe do executivo como alvo preferido.

Mas não é só o presidente da República a vítima de seus ataques. Ele também vai na jugular de seus ministros. Chegou até a pedir o afastamento do ministro da Educação. Chamou Sérgio Moro, pejorativamente, de "funcionário do Bolsonaro". Não mediu palavras também para criticar o ministro Paulo Guedes. Recentemente, por exemplo, disse que Guedes não apresentou soluções de curto prazo: "se olhar os projetos, tem pouca coisa que impacte a agenda de curto prazo ou quase nada".

É só fazer uma rápida pesquisa na internet que não será difícil constatar que Maia tem se dedicado a atacar o governo de Bolsonaro. Ele é um político habilidoso. Sabe que, para atingir seus objetivos, precisa minar a imagem do presidente da República. Com seus comentários pouco amigáveis, tenta desgastar a reputação dele. Ficaria tarde se deixasse essas investidas para as vésperas das próximas eleições.

Para deixar claro quais são as suas intenções, basta observar que muitas de suas críticas foram desnecessárias, e outras poderiam ter sido feitas diretamente ao chefe do governo ou aos seus ministros. Quanto mais microfones e câmeras à sua frente, mais ácidos são os seus comentários.

A estratégia de Bolsonaro

Bolsonaro, embora tenha atacado o Congresso em determinadas circunstâncias, tem se comportado com paciência de Jó com relação a Maia. Jamais revida às agressões que recebe. Sabe que, se abrir contenda ostensiva com o Legislativo, os projetos que envia para essas casas encontrarão resistências. Mesmo sem litígio, algumas de suas propostas nem entram em pauta. Maia tem a faca e o queijo na mão. Depende dele, e só dele, o encaminhamento dos projetos.

Todas as vezes que um jornalista informa a Bolsonaro que o presidente da Câmara ou do Senado fez determinada crítica, ele engole em seco, respira, dá um sorriso para disfarçar sua contrariedade e diz mais ou menos o seguinte: nós somos amigos. Essa convivência é como um casamento, de vez em quando é preciso sentar e conversar. Não tenho nada a reclamar do Parlamento. Essas conversas fazem parte da democracia.

Em outras oportunidades diz: já falei com o Maia, o Alcolumbre e o Toffoli que somos quatro homens que temos a oportunidade de mudar este país. Depende de nós traçarmos os rumos para que o Brasil possa atingir o patamar merecido. E nós temos chegado a bons termos.

Bolsonaro perde a paciência

Desta vez Bolsonaro perdeu a paciência. Aquela sua tática de colocar panos quentes, respondendo aos ataques com elogios ou palavras de compreensão, caiu por terra. Depois das manifestações do último domingo, dia 15, quando concedeu entrevista para a CNN, ao ser confrontado com a notícia de que tanto Alcolumbre quanto Maia haviam criticado seu comportamento junto à população, ele mudou o jeito de responder e cutucou: eles que saiam às ruas. Por que eles não enfrentam a população?

Depois, de forma mais amena, mas sem abandonar o ar contrariado, complementou: se eles quiserem conversar, poderão vir aqui. Ou eu posso ir lá falar, mas falar com os dois. Quem prestou atenção deve ter notado que a guerra foi declarada. Talvez animado pelo resultado da presença do povo nas ruas, mesmo com o risco do coronavírus, e imaginando que agora poderá contar com o apoio efetivo da população, ele tenha se encorajado a revidar.

É uma atitude arriscada. Parece que era tudo o que Maia e Alcolumbre desejavam. Pautas-bombas, projetos engavetados, combinações de bastidores poderão prejudicar suas pretensões de fazer um bom governo. Não existe regra definitiva para essas situações. São as contendas políticas que só poderão ser encaradas por aqueles que possuem couro duro. E, nessa briga, todos sabem, ou pensam saber, qual é o terreno onde pisam.

Os próximos rounds virão. Na política, como já foi dito, você olha e as nuvens estão de um lado. Quando você volta a olhar, já mudaram de direção. Por isso, a análise da comunicação dos políticos vai até certo ponto. A partir daí, entra em jogo uma experiência, uma perspicácia que, às vezes, nem mesmo quem está no ringue tem consciência. A ver.

Superdicas da semana

  • Às vezes, responder a um ataque com elogio pode ser mais eficiente
  • Antes de revidar, saiba quais cartas o oponente tem na manga
  • Há momentos em que é melhor revidar ataques com a mesma força
  • Ao revidar um ataque, saiba se será possível suportar as consequências

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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Reinaldo Polito