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Reinaldo Polito

Tem jornalista levando rasteira de entrevistado

Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

19/05/2020 04h00

A morte será um grande alívio. Não haverá mais entrevistas.
Katharine Hepburn

Enfrentar jornalistas não é tarefa para amadores. Alguns não apalpam, deixam os sentimentos e "escrúpulos" de lado e vão direto na jugular do entrevistado. Quase sempre apanhada de surpresa, a "vítima", sem ter como escapar, acaba por responder mesmo contrariada.

Muitos se lembram do histórico momento em que Marcelo Tas deixou sem fala o então deputado federal e dirigente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol) Nabi Abi Chedid. O entrevistado estava muito incomodado com as perguntas de cunho político, e concordou em continuar se fosse para responder a uma questão relacionada ao esporte. Tas, rápido de raciocínio e bastante sarcástico disparou: "Qual a sua próxima jogada"? Não precisou de resposta.

A caça, entretanto, de vez em quando se transforma em caçador. Essa história me foi contada. Por isso, não posso afirmar que seja ou não parte do folclore fantasioso sobre Paulo Maluf. Reza a lenda que ao responder determinada pergunta de uma jornalista, Maluf falou de outro tema que nada tinha a ver com a questão levantada. Perguntaram a ele o motivo do disparate de ter tratado de uma matéria diversa daquela formulada pela repórter. Maluf, então, explicou que discorrera sobre o assunto combinado com ela antes da entrevista. E que, portanto, não havia nenhum contrassenso na contestação.

Combinam uma coisa e perguntam sobre outra

Mais recentemente, certos entrevistados começaram a se vingar de jornalistas "espertinhos". Como quase sempre acontece, a pauta é combinada para ver se há ou não interesse em tratar daquele tema. Ocorre que alguns repórteres acertam os pontos que serão abordados na entrevista, e na hora mudam totalmente o que haviam ajustado.

Quando esses fatos se davam no passado, de maneira geral, o entrevistado não reagia. Provavelmente com receio de passar imagem negativa, pois não queriam dar a impressão de que estavam fugindo do tema, e encontravam um jeito de responder de alguma forma o que lhes fora questionado. O jornalista conseguia o que desejava para a sua matéria, enquanto que o entrevistado ficava na expectativa de não ter dado nenhuma bola fora.

Só respondem sobre o que foi combinado

Nos últimos tempos, ao perceber que o tema foge do combinado, alguns entrevistados têm se recusado a responder. Aconteceu há poucos dias com o ministro Luís Roberto Barroso. Ele estava preparado para falar sobre questões concernentes às próximas eleições, se poderiam ou não ser adiadas por causa da pandemia, já que acabara de ser eleito presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Assim que a repórter o cumprimentou, foi logo pedindo sua opinião a respeito da participação do presidente Bolsonaro nas manifestações em Brasília. Com ar de surpresa, mas sem se exaltar, ele disse à jornalista: "quando eu aceitei o convite para participar, nós iríamos falar sobre coronavírus, impacto nas eleições, risco de adiamento, prorrogação. Essa era a nossa agenda. (...) Eu não teria vindo ao programa para falar sobre esses fatos".

Diante de um comentário tão direto e assertivo, desta vez foi a jornalista quem ficou surpresa. Sentindo que ficaria numa situação de constrangimento, tentou interromper o ministro e voltar à questão da pauta, mas ele não recuou e foi até o fim, enfatizando seu descontentamento. Assim que ele concluiu a advertência, ela deu um leve sorriso e perguntou sobre as eleições.

Pouco tempo depois, em outra emissora de televisão, ocorreu um fato bem semelhante. O ministro da Educação Abraham Weintraub, não sei se inspirado no comportamento do ministro Barroso, foi no mesmo caminho. A jornalista iniciou perguntando a ele o que achava da demissão do ministro da Saúde Nelson Teich. Sem pensar duas vezes, Weintraub se rebelou.

Disse que haviam combinado que a entrevista seria para tratar das questões relacionadas ao ENEM, e não sobre a saída do ministro. A jornalista, tentando manter sua posição, retrucou dizendo que se ele não quisesse continuar com a entrevista poderiam encerrar ali.

O ministro foi firme e respondeu que falaria apenas sobre o tema acertado que era o ENEM. Se ele concordasse em encerrar a entrevista, poderia dar a impressão de que estava fugindo do confronto. Ao continuar, deixou claro que não estava se esquivando e firmou a sua autoridade sobre o que deveria ser discutido.

Quem está certo?

Afinal, os jornalistas estão certos ou errados? Os entrevistados podem contestar as perguntas da maneira como estão fazendo? Não tem certo nem errado nessa história. O jornalista está no papel dele. Se o entrevistado, mesmo tendo aceitado sua participação para falar de determinado tema, responder sobre a matéria inesperada, tento para quem perguntou.

O jornalista deve estar ciente, todavia, de que corre o risco de levar invertidas como essas que foram exemplificadas. Poderá ter sua imagem abalada por ser apanhado tentando armar uma armadilha. Talvez a sua atitude possa ser considerada não muito ética. Se, por outro lado, não se incomodar, tendo a consciência de que a negativa do entrevistado faz parte do jogo, que vá em frente. São os ossos da profissão.

Por parte do entrevistado, na maior parte das vezes, essa reação tem sido vista com bons olhos. Ele não está se furtando a falar sobre o que foi combinado, apenas não concordou em tratar daquele novo assunto. Se for firme e deixar claro o que efetivamente ocorreu, sua imagem não sofrerá nenhum arranhão. Porém, se vacilar, e der a impressão de que está tentando se desvencilhar do incômodo, aí poderá se comprometer.

Uma recomendação a considerar

A minha recomendação aos alunos que me procuram para treinar a participação em entrevistas nas emissoras de rádio e televisão tem sido esta: faça de tudo para não recusar entrevistas, especialmente em momentos difíceis, quando estiver no olho do furacão. É preferível que dê sua versão do fato, ainda que corra o risco de ser colocado no "paredão", a ficar sujeito às interpretações equivocadas de terceiros.

Em todas as situações, é importante que esteja muito bem preparado para falar sobre as questões que poderão ser discutidas. Se precisar de tempo para se inteirar, peça para que a entrevista seja adiada até que se sinta confortável para responder as perguntas.

Uma boa estratégia é a de sempre procurar conhecer o máximo possível sobre os acontecimentos envolvidos direta ou indiretamente na questão. Esta deve ser a reflexão: se eu fosse entrevistado hoje para falar sobre esse tema, estaria preparado? Se não estiver, vá em busca das informações.

Superdicas da semana

- Ninguém é obrigado a responder sobre o que não deseja falar

- Se falar, tem de estar seguro da veracidade da informação

- Mesmo sendo arriscado, é preferível dar entrevista a fugir delas

- Se você não falar, outros poderão dar versões equivocadas dos fatos

- Ninguém deveria ir para uma entrevista sem que estivesse bem preparado

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL