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Reinaldo Polito

Discutindo com extremistas

Donald Trump e Joe Biden - Brendan McDermid/Reuters;  Kevin Lamarque/Reuters
Donald Trump e Joe Biden Imagem: Brendan McDermid/Reuters; Kevin Lamarque/Reuters
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

08/12/2020 04h00

Reservo-me com firmeza o direito de contradizer-me.
Paul Claudel

O General Otávio Rêgo Barros, depois que deixou suas funções como porta-voz da presidência, tem se dedicado a escrever artigos para os mais diferentes meios de comunicação. E para agradável surpresa, demonstrou ser um escritor de primeiríssima qualidade. Seus textos são muito bem elaborados, sempre abordando temas elevados, com estilo elegante e refinado.

Vários de seus artigos serviram de base para que outros jornalistas renomados comentassem os assuntos ali tratados, como ocorreu recentemente com Josias de Souza, que discutiu na sua coluna da Folha o texto em que o general discorreu sobre "Memento Mori'. Nesse artigo, o ex-porta-voz fala do risco de o poder inebriar, corromper e destruir.

Lembra-te que és mortal!

Ele recordou nesse texto que quando um general vencedor entrava em Roma sob os aplausos entusiasmados do povo, para que não se deixasse embriagar pelo sucesso, ao seu lado um escravo sussurrava em seus ouvidos: "Memento Mori" - lembra-te que és mortal!". É evidente que o articulista fazia referências veladas aos que hoje são detentores do poder.

Na última semana, ele produziu mais um texto primoroso para o Jornal do Commercio, de Recife. Com o título de "Santo algoritmo", o autor discute a dificuldade que as pessoas têm encontrado para debater sem paixões exacerbadas suas posições. Ele começa dizendo que se surpreendeu com uma opinião: "Os isentões estão fadados a desaparecer na sociedade. Apenas os extremistas sobreviverão e serão cada vez mais extremados".

E o bom-senso?

Eu também fiquei intrigado com essa informação. Afinal, onde fica o bom-senso? Será que já não é mais possível ouvir uma opinião contrária sem ao menos refletir se a nossa forma de pensar está ou não equivocada? Aprendi desde cedo que é por meio do diálogo e do debate das ideias que confirmamos nossas convicções ou mudamos nosso ponto de vista.

Se cada um ficar em sua trincheira sem se dar a oportunidade de ouvir as ponderações feitas pelos opositores, estará condenado a ficar preso em suas ideias, sem a chance de crescer intelectualmente. E quem não se abre para o novo, para o contraditório, corre o risco de caminhar pela escuridão que turva os olhos e obstrui a mente.

O risco maior é o de a pessoa imaginar que pelo fato de alguém possuir posicionamento ideológico distinto, não coincidente com sua maneira de pensar, nada do que passa pela mente dele poderá ser levado em consideração. Ora, ainda que tenha posições políticas diferentes, o que será que ele pensa das artes, da filosofia, das transformações sociais e econômicas?

Ninguém precisa concordar, mas pode discutir

Quanto poderíamos perder, e, com boa dose de certeza, estaríamos mesmo perdendo, por não nos abrirmos a esse mundo. Ninguém precisa concordar com ninguém. Até para ratificar determinado posicionamento é importante ouvir pensamentos divergentes.

Se, no final, julgarmos que vale a pena ponderarmos sobre o que nos foi passado e mudarmos nossa maneira de pensar, nada nos deveria impedir de agir assim. Se, ao contrário, concluirmos que estávamos com a razão, de maneira mais convicta continuaremos com a nossa posição. Só temos a ganhar.

Casos curiosos

Houve casos extremos na história em que o conhecimento das partes contrárias era total. Demóstenes, por exemplo, era logógrafo, isto é, escrevia discursos. E era tão competente nessa atividade que as partes contrárias, defesa e acusação, o contratavam para que escrevesse suas teses. Tinha tanta competência para escrever contra como a favor.

Outro exemplo, esse brasileiro, foi o de Alcindo Guanabara, quando José Carlos Rodrigues solicitou que ele escrevesse um artigo sobre Jesus Cristo na época da Semana Santa para o Jornal do Comércio. O articulista perguntou: devo escrever contra ou a favor?

Por isso, vamos ouvir sem reservas nem preconceitos. Da mesma forma, vamos expor nossos pontos de vista sem paixões desmedidas. Se nada acontecer nessa conversa, e cada um continuar no seu bunker, pelo menos teremos nos comportado de forma a preservar nossos relacionamentos. Esse já é um ganho extraordinário.

Superdicas da semana

  • Posições extremas dificultam o diálogo
  • Discutir ajuda a mudar de ideia ou a ratificar posições
  • É possível ouvir, ponderar e continuar pensando da mesma maneira
  • Nem sempre temos razão. Por que não ouvir o outro?

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM", "Como falar de improviso e outras técnicas de apresentação", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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