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Reinaldo Polito

Presidente da CPI da Covid tenta desqualificar médica Nise por tom de voz

Médica Nise Yamaguchi durante depoimento na CPI da Covid, no Senado, em Brasília - FREDERICO BRASIL/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Médica Nise Yamaguchi durante depoimento na CPI da Covid, no Senado, em Brasília Imagem: FREDERICO BRASIL/FUTURA PRESS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

01/06/2021 21h13

Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma/tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: / trouxeste a chave?
Drummond de Andrade

Já vi de quase tudo nesta vida. Os argumentos mais estapafúrdios que se possa imaginar. Eu me lembro, por exemplo, que os promotores públicos tentavam diminuir a capacidade argumentativa do Dr. Valdir Troncoso Peres, um dos mais brilhantes advogados criminalistas da nossa história, alegando que ele só convencia os jurados por causa da sua excepcional eloquência. E lá ficava o Dr. Troncoso consumindo um bom tempo da sua defesa tentando provar que davam à sua capacidade oratória mais importância do que efetivamente possuía.

Há situações em que a expressão corporal também participa desse folclore. Conta Josué Montello, no seu "Anedotário geral da Academia Brasileira", que José Maria Paranhos, futuro Visconde de Rio Branco, possuía na tribuna um cacoete: erguia o braço, dedo indicador em riste, nos momentos em que parecia mais arrebatado. E diz que o próprio orador deu esta explicação: 'Quando a ideia não vale por si para ir bastante alto, trato de suspendê-la na ponta do dedo'.

A voz da Dra. Nise

No depoimento da Dra. Nise Yamaguchi aos membros da CPI, vimos um fenômeno bastante semelhante. Como o presidente e o relator tiveram dificuldade para enfrentar os argumentos científicos apresentados por ela, o senador Omar Aziz partiu para uma objeção singular. Foram suas palavras:

"A Dra. Nise, com essa voz calma, tranquila, é convincente. Porque quem grita não convence ninguém. Quem fala baixo, de uma forma bastante calma, parece que passa mais credibilidade. Na realidade, quem está nos vendo neste momento, eu peço que desconsidere as questões que ela disse aqui com relação às vacinas. Ela não está certa".

Ironicamente, o presidente da CPI, Omar Aziz, o relator, Renan Calheiros, e o vice-presidente, Randolfe Rodrigues são aqueles que mais falam alto ao longo das sessões. Em vários momentos tentaram intimidar os depoentes na base da gritaria.

Tanto assim que, para se protegerem, o ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello, e a secretária da Saúde Mayra Pinheiro, prestaram depoimento protegidos por um habeas corpus, para evitar a agressividade que estavam presenciando com relação aos outros depoentes. Portanto, essa afirmação do senador Aziz não passou de uma estratégia para tentar desqualificar a Dra. Nise num terreno onde, segundo ele mesmo, não tem domínio.

Estudos comprovam

Há vários estudos comprovando que o tom da voz tem importância fundamental no sucesso das pessoas. Um deles foi realizado pela Escola de Negócios da Duke University. Em uma pesquisa com 800 líderes empresariais, concluíram que aqueles que se expressavam com voz mais grave conseguiram salários mais altos em suas carreiras. Da mesma forma, as mulheres com voz menos agudizada se impunham mais nos ambientes profissionais.

Não significa, entretanto, que uma pessoa que não tenha voz grave não consiga ser convincente, mas terá um pouco mais de dificuldade para impor as suas ideias. Nesse caso, com voz mais aguda, a solução é se expressar com volume mais baixo para que a fala não seja tão estridente. É o caso da Dra. Nise. Como sua voz não é grave, ela usa a suavidade e o equilíbrio, característicos da sua personalidade, para defender as suas causas.

Analise a sua voz

Observe a sua voz e considere que tipo de ressonância e timbre ela possui. Não se preocupe se, por acaso, não gostar muito de ouvir a própria voz gravada. Esse fenômeno ocorre com quase todas as pessoas, pois, quando falamos, ouvimos a voz pela ressonância óssea. Por outro lado, quando ouvimos a voz gravada, ela nos chega por uma vibração do ar. Por isso, geralmente, estranhamos, e, consequentemente, não gostamos dela.

Tenha em mente que a nossa voz, muitas vezes, tem mais qualidade do que imaginamos. Nós é que somos muito rigorosos, e fazemos avaliações equivocadas. Com o tempo, vamos ouvindo e nos acostumando com ela, e descobrimos que é melhor do que supomos num primeiro momento.

Na dúvida, recomendo que procure a ajuda de um fonoaudiólogo. Ele é o profissional competente para fazer uma correta avaliação.

Aqui vai um conselho ao senador Omar Aziz: senador, sua boa vontade em encontrar os culpados pelas mortes ocorridas por causa da pandemia é louvável, mas em casos como esse da Dra. Nise, seria melhor arrumar argumentos mais consistentes, pois esse da voz tranquila e sedutora não o ajudará a chegar a nenhuma conclusão plausível.

Superdicas da semana

  • A voz mais grave ajuda a dar mais credibilidade
  • Não importa a qualidade da voz, mas sim a personalidade que ela transmite
  • Faça leitura em voz alta, mastigando bem os sons, para melhorar a ressonância da voz
  • Procure alternar o volume da voz e a velocidade da fala para imprimir um ritmo agradável à sua comunicação

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante.

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