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Reinaldo Polito

Não confie em parentes, amigos e, principalmente, em parceiros políticos

Busto do imperador Julio César - Lucas Lima/Folhapress
Busto do imperador Julio César Imagem: Lucas Lima/Folhapress
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

20/07/2021 04h00

A política tem a sua fonte antes na perversidade do que na grandeza do espírito humano.
Voltaire

Talvez uma das maiores traições políticas da história tenha sido o assassinato de Júlio César, no ano 44 a. C. O grande imperador foi morto com 23 facadas nas escadarias do Senado por um grupo de senadores que conspiraram contra ele. William Shakespeare, na peça "Júlio César", com sua genialidade, deu cores ainda mais impactantes à cena. Diz o dramaturgo inglês que ao identificar entre os assassinos o seu filho adotivo, César pronunciou as derradeiras palavras que ficaram eternizadas: até tu, Brutus?

Não será preciso fazer grandes esforços para nos lembrarmos de episódios de traição que se tornaram históricos. Só para dar alguns exemplos, tivemos Judas e Cristo, Hitler e Stalin, Joaquim Silvério dos Reis e Tiradentes. Para não irmos tão longe, aqui na nossa política recente várias criaturas se voltaram contra seus criadores. Ao ver um presidente, um governador, um prefeito apadrinhando certo candidato, pensava: esse está criando cobra. De maneira geral o prognóstico vingava.

Não dá para confiar

Por isso afirmo que para viver nesse mundo da política só tendo couro duro, muito duro. Nesse serpentário é preciso dormir com um olho fechado e outro aberto. Pela experiência, quase sempre o melhor amigo de um político hoje será seu maior inimigo amanhã. Conhecemos muitos casos de políticos que surfaram na onda de Bolsonaro para se eleger, e assim que conquistaram seu objetivo, sem nenhum escrúpulo, se voltaram contra ele.

Cansei de treinar duplas de políticos que chegaram na minha escola quase de mãos dadas. Um insistindo para pagar o curso do outro. Passado um tempo e lá estão os dois se digladiando, a ponto de tentarem se destruir sem dó nem piedade. Falam um do outro como se tivessem nascidos inimigos. Transpiram ódio. E para espanto de ninguém, pouco depois estão novamente trocando afagos.

Casos que me assustam

Já presenciei tantos casos que nada mais deveria me surpreender. Mas não tem jeito. Vejo, ouço e não acredito. Por exemplo, em certa região do país havia uma família de políticos. Todos se candidatavam e a maioria vencia. Até que chegou o momento em que havia mais família que cargos. Por isso houve um racha. Os dissidentes continuaram a procurar os meus cursos. Um deles, bastante jovem, contou que cresceu junto com os primos. Quase todos os dias ia à casa deles para brincar, tomar chá e comer o bolo que a tia fazia.

Durante os exercícios ele começou a contar os segredos que conhecera nessa época em que conviviam. Eu o interrompi alertando que esse tipo de atitude era condenável. Sem se preocupar ele me disse: professor, não tem nada de pessoal, é só política. Tentei argumentar, mas ele estava irredutível. Os pais pensavam da mesma maneira e tinham como lema que adversário bom era adversário morto.

A primeira lição

A primeira lição que dou aos políticos é contundente. Depois de algum tempo de conversa descontraída, quando eles já se sentem bem à vontade, como se estivessem em sua própria casa, faço uma pergunta em tom de afirmação sobre uma questão que poderia comprometê-los.

Como depositam confiança em mim, respondem sem nenhuma reserva. Assim que terminam de falar, eu explico que esse vai ser o primeiro ensinamento do curso: você acaba de me conhecer, não sabe se esta conversa está sendo gravada, e acaba de me passar uma informação que poderia prejudicar sua carreira política. Sempre que tiver algum assunto extremamente sigiloso, guarde para você. E cito Sêneca:

O seu amigo tem um amigo. O amigo do seu amigo também tem um amigo. Por isso, seja discreto.

Não confie em parentes, amigos e, principalmente, em parceiros políticos. E, se julgar que não dá para viver assim, faça como eu, não entre para a política.

Há esperança

Em uma análise mais ampla de todos os prós e contras, e para não desesperançar ninguém, posso garantir que há muito político bem-intencionado. A tribuna chega a ser um confessionário. Quando estão ali treinando as apresentações, por mais que tentem camuflar seus pensamentos mais íntimos acabam por se revelar. E fico animado e otimista quando vejo candidatos tão comprometidos com o bem-estar da população.

Esses recebem de mim um esforço redobrado. Torço para que vençam as eleições, pois são eles que poderão melhorar a qualidade do legislativo e do executivo. E pelo que tenho observado nos últimos tempos, até do judiciário.

O que vou dizer é bastante batido, mas é também uma verdade insofismável: não há liberdade sem democracia, e não há democracia sem políticos. Já que é assim, que nos representem os melhores.

Superdicas da semana

  • Se você não consegue guardar segredo, não espere que os outros guardem o que contar a eles
  • Sempre que for confiar em alguém pense: e se nos desentendermos, ele continuará confiável?
  • Considerando as proporções, na vida corporativa pode ocorrer o mesmo que na política
  • É preciso sentir prazer em guardar segredos. Nossos e dos outros
  • Quando disserem a você: isso fica entre nós, hein! Retruque: o que deveria ficar entre nós?

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar os outros" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela editora Planeta.