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Reinaldo Polito

Quando Lula diz 'sabe?' é porque ele não sabe o que vai dizer

Lula discursando - Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo
Lula discursando Imagem: Marcelo D. Sants/Framephoto/Estadão Conteúdo
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Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

Colunista do UOL

07/09/2021 04h00

O que frequentemente nos impede de nos abandonarmos a um vício é termos vários.
La Rochefoucauld

Você já deve ter percebido que Lula tem o vício de dizer "sabe?" quando está discursando ou concedendo entrevistas. Ele se vale desse expediente, como se estivesse fazendo uma pergunta, quando, na verdade, ainda não sabe o que irá dizer a seguir. Esse vício faz parte de outros da mesma família como, por exemplo, "né?", "tá?", "ok?", "certo?".

Outras pessoas famosas também têm o seu vício de estimação. Pelé usa "entende?". Bolsonaro usa "talkey?". E, se procurarmos, vamos encontrar uma infinidade de indivíduos que não conseguem proferir duas ou três frases sem recorrer a uma dessas muletas linguísticas. Alguns chegam a usar dezenas de "nés" em pouco mais de dois minutos de apresentação.

O linguista russo Roman Jakobson estabelece seis funções da linguagem: referencial, emotiva, conativa, fática, poética e metalinguística. A que nos interessa na presente reflexão é a função fática, que dá ênfase ao canal de comunicação. São sons emitidos sem objetivo determinado, exceto para estimular, continuar ou interromper a comunicação com a finalidade de medir o funcionamento do canal, como "você está compreendendo?", "está claro?".

Uma função da linguagem

Jakobson afirma que esta "é a primeira função verbal que as crianças adquirem; elas têm a tendência a comunicar-se antes de serem capazes de enviar ou receber comunicação informativa". Portanto o uso do "né?" ou de outros que poderiam ser incluídos na função fática não constitui necessariamente uma falha de linguagem, pois, como vimos, é um recurso que pode ser muito útil no processo de comunicação.

Passa a ser problema quando se transforma em hábito viciado, criando ruído na comunicação, A pessoa, sem consciência, usa esse recurso repetidamente em suas falas sem nenhuma finalidade específica. Vamos analisar os motivos de alguém falar com esses vícios, e como proceder para eliminá-los.

Causas do vício

Falta de consciência. Essa é uma causa relevante. Observo o comportamento de muitos de meus alunos. A maioria só se dá conta do vício quando assiste à gravação de suas apresentações. Ficam surpresos e se sentem desconfortáveis. A partir dessa constatação passam a reduzir a quantidade de "nés".

Insegurança. A pessoa quando está insegura encerra as frases como se estivesse fazendo uma pergunta, e não como se afirmasse. Se você tem alguns desses vícios, passe a encerrar com afirmação, quando desejar afirmar, evidentemente, e não como se estivesse fazendo perguntas. Essa atitude costuma eliminar em pouco tempo mais de 80% dos problemas.

Pontuação inadequada. Muitos encerram as frases com a inflexão de voz de quem vai continuar falando, quando na realidade não têm mais nada a dizer. Por isso usam, por exemplo, o "né?" como se fosse ponto final. Essa também é uma correção que pode ser feita rapidamente - terminar as frases com entonação de quem está encerrando, e não como se fosse continuar falando.

O caso de Lula

Apoio de pensamento. Foi o comentário que fiz no início do texto sobre a comunicação do Lula, Bolsonaro e Pelé. Usam "sabe?", "talkey?", "entende?" como se estivessem fazendo uma pergunta aos interlocutores, quando só estão se valendo de uma muleta de apoio enquanto identificam a sequência do pensamento.

O vício pode ser eliminado quando:

A pessoa tem consciência do vício. Adquire segurança para falar. Usa a entonação de quem vai encerrar, e não de quem vai continuar. E aprende a ficar em silêncio enquanto procura a sequência do pensamento. Com esse comportamento, pode se valer de menos de meia dúzia de "nés" durante a apresentação, o que até chega a fazer parte de uma atitude natural.

Vale a pena analisar se você não foi atacado por um desses vícios. Eles prejudicam a qualidade da comunicação e podem até comprometer o resultado das apresentações. Em alguns casos a correção irá exigir muita disciplina e até obstinação, pois os vícios se instalam de forma tão intensa que dá trabalho para removê-los. A boa notícia é que, com força de vontade, todos conseguem eliminar esses ruídos da sua comunicação.

Superdicas da semana

  • Tome consciência do vício na comunicação
  • Encerre as frases afirmando, e não perguntando
  • Ponha ponto final, e não vírgula, ao concluir a frase
  • Aprenda a ficar em silêncio enquanto procura descobrir o que dizer

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "Como Falar Corretamente e sem Inibições", "Comunicação a distância", "Os segredos da boa comunicação no mundo corporativo", "Saiba dizer não sem magoar os outros" e "Oratória para advogados", publicados pela Editora Saraiva. "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante. "Oratória para líderes religiosos", publicado pela editora Planeta.

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