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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Na pandemia é hora de dar gorjeta, ainda que você não concorde com ela

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Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

30/03/2021 04h00

Na abertura de "Cães de Aluguel", primeiro sucesso do cultuado cineasta Quentin Tarantino, uma quadrilha de ladrões reunida em uma lanchonete entra em um acalorado debate sobre gorjetas. Tudo porque um deles - o Senhor Pink, personagem do excelente Steve Buscemi - se recusa a pingar alguns dólares para a garçonete.

"Ela não está passando fome", justifica o bandido. "Mas você não se importa com o fato de que ela depende desse dinheiro para viver?", indaga um colega. "Se ela não ganhar o suficiente, ela pode pedir demissão", responde cinicamente o pivô da discussão.

Mr Pink, personagem de Steve Buscemi em Cães de Aluguel - Divulgação - Divulgação
Mr Pink, personagem de Steve Buscemi em Cães de Aluguel
Imagem: Divulgação

Confesso que sempre nutri certa simpatia pela teoria do Senhor Pink, ainda que por motivos bem diferentes. Na verdade, o personagem ranzinza do filme não chega a formular o questionamento que julgo mais pertinente: por que transferir ao consumidor a responsabilidade de pagar um salário decente que deveria ser do empregador?

Antes de prosseguir com a reflexão, é preciso tomar uns tapas na cara da realidade. Ao contrário do que sugere o Senhor Pink, pedir as contas - com o perdão do trocadilho - não é um recurso factível para um garçom ou uma garçonete do Brasil em 2021. Talvez nunca tenha sido, na verdade.

Mas agora a situação é de calamidade total: bares e restaurantes figuram entre os setores mais duramente golpeados pela pandemia que, no ano passado, derrubou o PIB em 4,1%. A maior retração em quase três décadas.

Só no estado de São Paulo, a entidade que representa os donos de estabelecimentos calcula que, com as novas medidas de restrição em vigor nas últimas semanas, 20 mil postos de trabalho estejam com os dias contados.

"O setor está sendo dizimado. Poucos irão manter o quadro de funcionários integralmente. Haverá muita demissão e muita quebra", lamenta Percival Maricato, presidente da divisão paulista da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel). No Rio de Janeiro, a estimativa é de que um quarto dos empreendimentos já tenham fechado as portas.

Para além do fantasma das demissões, os profissionais que ainda permanecem empregados convivem com outra assombração bem mais real: a queda brusca na remuneração. "O nosso melhor piso salarial hoje é de R$ 1.630", afirma Rubens Fernandes da Silva, secretário-geral do Sinthoresp, sindicato da categoria na capital paulista. "Mas os valores das gorjetas e das taxas de serviço equivalem ao valor de outro piso. Ou seja, respondem por 50% do salário total, no mínimo", acrescenta.

Com a flexibilização da quarentena, restaurantes voltam a abrir seus salões para consumo local. Na foto, garçom com máscara e viseira no restaurante MoDi, no Shopping Higienópolis, em julho de 2020 - Mathilde Missioneiro/Folhapress - Mathilde Missioneiro/Folhapress
Garçom com máscara e viseira em restaurante no Shopping Higienópolis, em julho de 2020
Imagem: Mathilde Missioneiro/Folhapress

Mas voltemos à reflexão sobre a "função social" da gorjeta. No mês passado, o New York Times publicou um excelente artigo que recapitula as origens dessa prática surgida na Europa medieval, como forma de a nobreza expressar gratidão a "favores" de seus servos. Já nos Estados Unidos, a gorjeta foi introduzida após a guerra civil que durou de 1861 a 1865 e culminou com a abolição da escravatura.

A autora do artigo - Michelle Alexander, uma advogada negra que trabalhou como garçonete na juventude e sofreu todo tipo de assédio moral e sexual de clientes - explica que depois da guerra a gorjeta assumiu uma nova tarefa: substituir o pagamento de salários aos escravos libertos.

Ainda hoje, 43 estados americanos permitem que o piso salarial dos chamados "tipped workers" (trabalhadores pagos em gorjeta, numa tradução livre) seja até três vezes menor que o valor estipulado pelo salário mínimo federal. Herança inegável dos tempos da escravidão, a gorjeta é a principal fonte de pagamento de um enorme contingente de pessoas nos Estados Unidos - em sua maioria, mulheres negras pobres.

No Brasil, também profundamente marcado pela escravidão, a história tem contornos ligeiramente diferentes. Ainda que a informalidade seja comum, a lei ao menos prescreve que garçons e garçonetes recebam pelo menos um salário mínimo, assim como qualquer trabalhador com carteira assinada. Porém, mesmo os profissionais registrados também são reféns do arbítrio dos clientes, já que na prática dependem do pagamento da taxa de serviço que, por lei, não é obrigatório.

Até existe uma explicação técnica para justificar a existência da gorjeta. Ela é uma remuneração variável, que barateia a contratação por parte dos empregadores e pode inclusive estimular a formalização dos empregados. Afinal, é mais cômodo para um empresário, financeiramente falando, registrar um empregado com um salário fixo baixo e complementar sua remuneração de acordo com o movimento do negócio.

Contudo, é inegável que a gorjeta também respalda uma certa cultura de servidão: só faz jus ao dinheiro quem presta um atendimento satisfatório - o que dá margem a toda sorte de julgamento, em geral feito unilateralmente pelo consumidor. A assimetria de poder na relação salta aos olhos. E, convenhamos, os clientes nem sempre têm razão.

A impossibilidade de sentar à mesa em um restaurante, em função da pandemia, até poderia ter sepultado minha inquietação. Sem a prestação do serviço, não haveria por que se falar em gorjeta, certo?

No mundo real, nunca é tão simples assim. A Abrasel, Associação Brasileira de Bares e Restaurantes, afirma que o delivery dificilmente supera 20% do faturamento habitual dos empreendimentos. Boa parte deles sequer conseguiu pagar o décimo terceiro do ano passado. Os programas governamentais de socorro financeiro claramente não têm sido suficientes para dar fôlego ao setor. Em meio ao colapso, milhares de famílias caminham em direção ao precipício.

Algumas iniciativas vêm tentando compensar a perda de receita dos trabalhadores. Na Vila Mariana, bairro da zona sul da capital paulista, um coletivo de restaurantes criou uma vaquinha virtual batizada de Gorjeta Solidária. "Estamos todos fazendo o possível desde o início da pandemia para proteger nossas equipes, clientes e estabelecimentos, porém não conseguimos mais sozinhos, infelizmente", diz o texto de apresentação do projeto.

Outros restaurantes vêm oferecendo a possibilidade de acrescentar os 10% ao valor da conta na retirada do balcão. No delivery, a taxa de entrega inibe essa possibilidade. Nas vezes em que a proposta me foi apresentada, eu - que sempre tive uma pulga na orelha sobre a convenção social que legitima as gorjetas - aceitei pagar, sem pestanejar. E, confesso, até me comovi com o apelo dos garçons.

Infelizmente, iniciativas como essas não serão capazes de resolver o baque sem precedentes que bares e restaurantes enfrentam por causa da pandemia. Porém, enquanto aguardamos soluções estruturais do poder público, não custa nada - além dos 10% da conta - exercitar a solidariedade de que tanto necessitamos agora. Indo direto ao ponto: para quem ainda pode se dar ao luxo de pagar por uma refeição em um momento de exceção, parece um imperativo ético colaborar com o pagamento desses trabalhadores.

Quando a pandemia passar e o setor se reestruturar, o espírito do Senhor Pink estará livre novamente para problematizar a gorjeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL