PUBLICIDADE
IPCA
+0,83 Mai.2021
Topo

Carlos Juliano Barros

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

"Mistura de deep web com feira livre": o trabalho nas fazendas de cliques

Fazendas de cliques remuneram curtidas nas redes sociais a menos de um centavo de real - Getty Images/iStockphoto
Fazendas de cliques remuneram curtidas nas redes sociais a menos de um centavo de real Imagem: Getty Images/iStockphoto
Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

08/06/2021 04h00

"Ganhe dinheiro sem sair de casa, usando apenas as suas redes sociais."

É com esse canto de sereia que plataformas digitais obscuras, sugestivamente apelidadas de "fazendas de cliques", vêm recrutando um exército de pessoas que só precisam de um singelo instrumento para trabalhar remotamente: um perfil de rede social.

Quem busca aplicativos como Ganhar no Insta, Siga Social e Dizu - com o objetivo de levantar algum dinheiro apertando botões de "curtir" no Instagram, Youtube ou TikTok - não enfrenta grandes dificuldades para se cadastrar. Mas a mesma facilidade não se aplica a quem procura os responsáveis para tirar dúvidas sobre a operação dessas empresas.

Este colunista até tentou, sem sucesso, fazer contato com as três fazendas de cliques mencionadas acima. Basicamente, elas vendem serviços de curtidas e comentários para empresas e pessoas físicas interessadas em turbinar sua influência na internet.

Porém, essas plataformas de impulsionamento de likes atuam numa zona para lá de nebulosa da economia digital. Até porque elas foram concebidas com a finalidade de arregimentar mão de obra humana barata para driblar os termos de uso das redes sociais, que proíbem a utilização de robôs para automatizar e alavancar o alcance das postagens.

Não chega a ser surpresa, portanto, que nenhuma delas tenha dado qualquer satisfação sobre as perguntas enviadas para e-mails genéricos ou contas do Facebook - únicos canais de comunicação disponíveis.

Muitos cliques, alguns centavos

O conceito de "click farms" (fazendas de clique, em inglês) já é conhecido há algum tempo no sudeste asiático. Uma rápida pesquisa no Google gera uma série de imagens de pessoas manejando ao mesmo tempo incontáveis smartphones dispostos em prateleiras. Mas essa mecânica criada do outro lado do mundo remete a uma atmosfera de pré-história quando comparada aos sistemas digitais desenvolvidos por aqui.

Como toda empresa de tecnologia que se preze, as fazendas de cliques made in Brazil afirmam apenas fazer o meio-campo entre clientes interessados em bombar sua popularidade nas redes sociais e uma multidão de pessoas dispostas a trabalhar como verdadeiros robôs humanos.

Para cada post curtido, perfil seguido ou publicação comentada, a plataforma estipula um pagamento que não supera cinco centavos de real. É bastante comum, inclusive, que a remuneração mínima não atinja um centavo sequer. "O valor pago por cada ação depende do quanto o nosso parceiro pagou por ela", avisa o site do Ganhar no Insta. "Parceiro", no caso, é o cliente que contrata os serviços.

Planilha com os valores pagos para cada ação na plataforma Ganhar no Insta 2 - Reprodução do site - Reprodução do site
Planilha com os valores pagos para cada ação na plataforma Ganhar no Insta
Imagem: Reprodução do site

Rafael Grohmann, professor da pós-graduação do curso de comunicação social da Unisinos (RS), explica a dinâmica dessas plataformas para quem busca trabalho.

"A pessoa se cadastra na plataforma e, quando aparece uma ação, ela é avisada. Daí, ela tem alguns segundos para dar um like em uma determinada postagem, por exemplo. Depois, a plataforma checa se a pessoa de fato deu o like. E é proibido desfazer a ação", detalha Grohmann. Ele também coordena o DigiLabour, laboratório de pesquisa sobre trabalho e tecnologias digitais que vem tocando um estudo sobre as fazendas de cliques.

Como os valores pagos para cada ação são muito baixos, as pessoas acabam criando diversos perfis - em nomes de parentes, amigos ou celebridades - para incrementar a escala de produção e, assim, faturar mais.

Um curioso mercado paralelo vem se firmando para alimentar as fazendas de cliques. De acordo com Grohmann, em grupos de Whatsapp e fóruns de Facebook que reúnem trabalhadores desses aplicativos, ocorrem até mesmo leilões de contas virgens de Instagram, vendidas por menos de um real.

Também é possível comprar, por centavos, um "pacotão" com dezenas de fotos aleatórias para ilustrar perfis falsos. "É uma mistura da deep web com a 25 de março", define o professor da Unisinos, referindo-se ao submundo da internet e ao famoso pólo de comércio popular da capital paulista.

Tutoriais e robôs

As fazendas de cliques fazem questão de deixar claro que lavam as mãos caso um usuário seja punido pelas redes sociais por usar contas falsas, por exemplo.

Como de costume no capitalismo de plataforma, o risco é integralmente transferido a quem se dispõe a trabalhar. Além disso, as pessoas só conseguem sacar o dinheiro que ganharam apertando botões quando atingem um valor mínimo, entre R$ 20 e R$ 30.

Todos esses obstáculos explicam a existência de uma ampla rede - com direito a youtubers especializados no tema - de compartilhamento de dicas sobre como usar essas ferramentas com mais eficiência e, de quebra, ampliar os rendimentos.

Algumas artimanhas são quase intuitivas, como "crie um e-mail específico para cada perfil cadastrado no aplicativo" ou "consiga ao menos 60 seguidores antes de usar uma conta para dar likes nas redes sociais". Vale tudo para escapar dos bloqueios.

Mas há também orientações tecnologicamente mais "arrojadas", por assim dizer. É bem fácil encontrar vídeos recentes no Youtube com tutoriais sobre como instalar robôs para fazer o trabalho duro nas fazendas de cliques. O que, diga-se de passagem, contradiz a própria razão de ser desses aplicativos.

"Os clientes pagam pelos serviços dessas plataformas justamente com a promessa de serem pessoas reais - e não bots [robôs]. E aí os trabalhadores vão e, como estratégia de sobrevivência, terceirizam o trabalho para um bot", analisa Grohmann. Seu grupo de pesquisa já levantou exemplos de pessoas gerindo até 200 contas com a ajuda de ferramentas digitais que automatizam a tarefa das curtidas.

Resta ainda uma importante hipótese a ser investigada, diz o professor da Unisinos: a participação dessas fazendas de cliques em campanhas de desinformação que circulam pela internet, principalmente para fins políticos. "Em vez de termos um gabinete do ódio, pode ser que tenhamos um chão de fábrica do ódio", finaliza Grohmann.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL