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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Reconhecimento facial no trabalho: será que isso é realmente necessário?

Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

15/06/2021 04h00

Foi em tom de discurso motivacional que Ehara Taisei, vice-presidente da Canon na China, justificou a instalação de um novo sistema de segurança nos ambientes de trabalho da famosa fabricante de lentes e câmeras fotográficas.

Antes de entrar nas dependências da empresa, os funcionários precisavam passar por um equipamento de reconhecimento facial desenvolvido pela própria companhia. Mas havia um detalhe curiosamente autoritário: todos eram obrigados a sorrir. Sem estampar uma cara aparentemente feliz para o sensor, ninguém tinha a entrada autorizada pelo sistema.

"Esperamos que o ambiente entediante gerado pela epidemia seja relaxado por sorrisos nos rostos", explicou o executivo à Week in China, uma publicação baseada em Hong Kong, no final do ano passado.

Na verdade, essa espécie de "catraca do sorriso" era uma ação de marketing da Canon para divulgar seus produtos de leitura de rostos. Nas redes sociais chinesas, a campanha não caiu muito bem. Mas, se em termos publicitários o tiro da Canon saiu pela culatra, o mesmo não se pode afirmar sobre os negócios.

O mercado do reconhecimento facial cresce a uma velocidade espantosa no mundo inteiro. Ao mesmo tempo, levanta uma série de questionamentos éticos sobre ameaças à privacidade das pessoas.

Alimentado por um misto de paranoia com segurança e fetiche por tecnologia, o escaneamento de faces humanas é um item cada vez mais comum em edifícios corporativos. Em ambientes virtuais, então, o uso já está mais do que disseminado - estão aí aplicativos diversos de smartphone que não nos deixam mentir.

Mas a pergunta que não quer calar é: o reconhecimento facial é realmente necessário?

"Esse tipo de coleta de dados é ruim porque gera mais riscos do que benefícios", responde Diogo Moysés, coordenador do Programa de Telecomunicações e Direitos Digitais do Instituto de Defesa do Consumidor (Idec). Em conjunto com 180 organizações da sociedade civil do mundo todo, o Idec participa de uma ampla campanha global para banir - ou ao menos restringir - o uso do reconhecimento facial.

Dados sensíveis

No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD) classifica os chamados dados biométricos - traços da face e digitais dos dedos, por exemplo - como "sensíveis". A razão é um tanto quanto óbvia. "Eles são mais importantes do que os outros porque têm a ver com o corpo das pessoas", explica Moysés.

Por sinal, a LGPD diz que esse tipo de dado só pode ser coletado mediante consentimento. Mas a lei abre exceções, como nos casos em que a biometria for indispensável para prevenir fraudes ou garantir a segurança na autenticação de sistemas eletrônicos.

Fica difícil acreditar que todo funcionário cuja cara foi capturada nos mínimos detalhes por um software tenha sido devidamente consultado sobre essa questão. E, na avaliação do coordenador do Idec, o salto de segurança proporcionado por esse tipo de tecnologia não compensa os potenciais problemas.

A pulga mais graúda plantada atrás da orelha pelo reconhecimento facial é o perigo do controle arbitrário que um empregador pode exercer sobre seus empregados. E a discussão não se limita à substituição dos supostamente ultrapassados cartões de ponto e crachás funcionais por uma tecnologia mais moderna.

Com o avanço e a popularização dos softwares de monitoramento de trabalho, tema já abordado nesta coluna, o escaneamento de rostos abre caminhos inimagináveis para aferir o desempenho de um funcionário.

Faça uma rápida busca sobre um programa chinês chamado Third Eye (Terceiro Olho, em português). Além de acessar e-mails e produzir relatórios sobre produtividade, ele é capaz inclusive de rastrear os olhos de um trabalhador passeando pela tela de um computador.

Se esse discurso sobre controle parece abstrato e exagerado demais para o seu gosto, pense, então, com o bolso. Reportagens sobre vazamentos de bancos de dados de gigantes digitais, como Facebook e Google, já viraram carne de vaca no noticiário. Se até as big techs têm dificuldades para manter informações vitais em sigilo, é possível confiar no uso que empresas de porte infinitamente mais acanhado vão fazer do seu rosto?

É tão absurdo assim imaginar que quadrilhas especializadas já estão trabalhando ativamente para surrupiar dados biométricos coletados sem qualquer necessidade para aplicar um amplo leque de golpes, por ora, imprevisíveis?

Vigilantismo

Para além do controle desmedido sobre o trabalho, o uso reconhecimento facial pode descambar para algo ainda mais temerário: o vigilantismo. Indo direto ao ponto, é a ideia de usar tecnologia digital de ponta para encontrar um criminoso no meio da multidão.

"Poderíamos falar muita coisa sobre isso: que a tecnologia erra muito, que os algoritmos são feitos pelos brancos, que eles erram contra os negros - e erram visivelmente mais", analisa Diogo Moysés. "A aplicação dessa tecnologia levará ao seu uso discriminatório, que é o que já aconteceu - ela errou em vários lugares", complementa o coordenador do Idec.

E esta não é uma bandeira só de ativistas. Em junho do ano passado, na esteira da comoção mundial gerada pelo assassinato de George Floyd por um policial nos Estados Unidos, a direção da IBM enviou uma carta ao Congresso norteamericano comunicando o encerramento de seus softwares de reconhecimento facial para fins de vigilância em massa.

Uma das principais desenvolvedoras de Inteligência Artifical do mundo, a IBM propunha ainda no documento que deputados e senadores puxassem um amplo debate sobre a regulamentação do reconhecimento facial no país. Taí um bom exemplo a ser seguido pelos parlamentares brasileiros.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL