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Carlos Juliano Barros

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Tangping: o movimento de jovens chineses que só querem sossego

Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

13/07/2021 04h00

"Ora bolas / Não me amole / Com esse papo de emprego / Não está vendo? / Não estou nessa / O que eu quero / É sossego."

É bastante provável que o ex-estudante chinês de ciências da computação Luo Huazhong jamais tenha escutado a canção imortalizada pela voz potente de Tim Maia. Mas os versos de "Sossego" cairiam como uma luva se o jovem de 22 anos, uma celebridade em ascensão nas redes sociais, estivesse à procura de um hino para um movimento que vem abalando um dos alicerces de seu país: o culto ao trabalho duro.

Huazhong é o rosto mais conhecido do "tangping", uma expressão em mandarim que ao pé da letra quer dizer "ficar deitado". Apesar da censura imposta pelas autoridades chinesas, ainda é possível encontrar na internet imagens de pessoas descontraidamente jogadas no chão ou esparramadas no sofá, sem fazer absolutamente nada - a não ser um despretensioso manifesto.

O tangping é daquelas posturas aparentemente inofensivas, mas capazes de colocar uma geração inteira no divã. É cada vez mais comum que jovens como Luo Huazhong coloquem em perspectiva a adesão incondicional ao espírito tipicamente chinês do 9-9-6, a abreviação numérica do regime de trabalho que se estende das nove da manhã às nove da noite, seis dias por semana.

Como já mencionamos nesta coluna, autoridades e empresários de sucesso da potência asiática - caso de Jack Ma, fundador da plataforma de e-commerce Alibaba - são entusiastas convictos do 9-9-6. O objetivo é não só alavancar a economia local, mas principalmente formar o caráter dos cidadãos.

Deus trabalho

O ensaísta alemão Robert Kurz define o trabalho como uma espécie de deus venerado da direita à esquerda, sem ressalvas. Basta lembrar que na entrada do campo de concentração de Auschwitz os nazistas cravaram a famigerada inscrição "O trabalho liberta".

No canto oposto do ringue, uma das figuras mais emblemáticas no panteão de heróis soviéticos é a de Alexei Stakhanov. Ralando em uma mina na Ucrânia na década de 1930, ele chegou a retirar em só turno mais de 100 toneladas de carvão - produtividade 14 vezes superior à média de seus colegas. Condecorado por Stálin, Stakhanov foi alçado à condição de operário-modelo, ícone da nova sociedade criada pelo regime soviético.

Era de se esperar, portanto, que o tangping deixasse de cabelo em pé as autoridades do Partido Comunista Chinês, que neste ano completa um século de existência. A imprensa estatal se apressou em classificar o movimento como "vergonhoso" e órgãos de controle passaram a restringir postagens sobre o assunto na internet.

A cruzada contra o tangping vem mobilizando também a iniciativa privada. Um conhecido bilionário chinês - Yu Minhong - conclamou os jovens a não se deitarem: "com quem vamos contar para o futuro de nosso país?"

Como autêntica expressão de contracultura, o tangping desafia uma receita bastante popular - trabalhar duro, casar e construir uma família - que, bem ou mal, elevou o padrão de vida de centenas de milhões de cidadãos e transformou o país na locomotiva do crescimento econômico mundial nas últimas décadas.

Promessa não cumprida

A questão é que, como na maior parte do mundo, a sensível evolução material da sociedade chinesa não foi suficiente para entregar uma das mais sedutoras promessas da modernidade: trabalhar menos para, no fim das contas, ter uma vida mais prazerosa.

Os seres humanos sempre trabalharam, claro. Só que a importância absolutamente central que o trabalho tem hoje em dia, como motor das relações sociais, é bastante recente. E, ressalte-se, nem sempre foi assim: isso é coisa de três ou quatro séculos para cá.

De acordo com o antropólogo norteamericano James Suzman, autor do best-seller "Trabalho: uma história de como utilizamos o nosso tempo", ao longo de 95% da história do Homo Sapiens as pessoas gozavam de mais tempo para lazer do que nós dispomos hoje em dia. E mesmo nestes tempos de capitalismo avançado ainda subsistem sociedades mundo afora que trabalham muito menos do que nós, afirma Suzman em seu livro. Por sinal, em breve voltaremos à carga sobre esse título nesta coluna.

Aos apressadinhos, um esclarecimento: não se trata aqui de defender o retorno a um passado idílico em que todos éramos felizes e saltitantes levando a vida como caçadores-coletores. O ponto é que muitas vezes assumimos como verdade absoluta ou lei da natureza um pensamento que, na realidade, não passa de ideologia martelada ao longo de gerações. O culto ao trabalho duro é, sem dúvida, um dos melhores exemplos.

Assim como Tim Maia, Luo Huazhong também sabe disso. Por essa razão, vem desencadeando uma pequena revolução cultural em uma das sociedades mais apegadas à labuta pesada. "Eu tenho o direito de escolher um estilo de vida lento. Não fiz nada destrutivo para a sociedade. Temos de trabalhar 12 horas por dia em uma oficina quente, e isso é justiça?", provoca o líder do tangping em um de suas reflexões postadas na internet.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL