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Carlos Juliano Barros

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Twitch: produtores articulam "sindicato" para contestar app da Amazon

Matheus Tavares, o Picoca: "Estou querendo que a plataforma valorize o meu trabalho e o dos meus amigos". - Divulgação
Matheus Tavares, o Picoca: "Estou querendo que a plataforma valorize o meu trabalho e o dos meus amigos". Imagem: Divulgação
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Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

10/08/2021 04h00

Um inusitado movimento vem chamando atenção nas redes sociais: um sindicato de streamers da Twitch - a plataforma da Amazon para transmissão de vídeos ao vivo.

Na verdade, a iniciativa passa longe de uma associação tradicional de trabalhadores. A ideia de sindicato está mais para meme do que para qualquer outra coisa. Mas não deixa de ser curioso ver jovens produtores de conteúdo na internet encampando uma mobilização coletiva para questionar a nova política de preços anunciada no fim de julho pela gigante digital.

"Estou querendo que a plataforma valorize o meu trabalho e o dos meus amigos", afirma Matheus Tavares, o Picoca, que faz lives variadas - de videogame a bate-papo.

Com mais de meio milhão de seguidores e uma média de seis horas ininterruptas dedicadas diariamente à Twitch, Picoca é um dos mais conhecidos porta-vozes do movimento.

Redução de preços

Até o início da pandemia no Brasil, quem não pertencia ao universo dos games pouco ou nada sabia sobre a plataforma de streaming da big tech norte-americana.

Criada dez anos atrás, a Twitch só passou a olhar para valer para o mercado brasileiro a partir de 2018, com a abertura de um escritório focado no país. Mas foi no ano passado que explodiu o número de brasileiros "criadores", nome dado pela empresa aos produtores de conteúdo.

Jogadores de videogame ainda puxam o bonde da audiência. No entanto, já é possível encontrar de tudo um pouco: músicos fazendo apresentações, analistas comentando política, modelos sensualizando para a câmera. Sempre em tempo real - quer dizer, na maioria das vezes.

Os streamers da Twitch são remunerados de três maneiras. Os maiores faturam com anúncios veiculados pela plataforma. Mas também é possível receber apoio direto dos fãs por meio de assinaturas pagas (as chamadas "subs") e de "gorjetas" pingadas pelos espectadores durante as performances.

No último caso, o público precisa comprar uma moeda virtual da própria plataforma - o bit - para interagir com o criador e gratificá-lo pela live. De acordo com Picoca, são raros os streamers que ganham dinheiro dessa maneira. Por sinal, não é difícil encontrar criadores que publicam dados pessoais do PIX ou do PayPal para angariar doações e driblar a mediação da plataforma.

Mas foi uma medida tomada pela Twitch no mês passado que detonou o descontentamento dos produtores de conteúdo. A plataforma reduziu em 66% os preços das subs com o objetivo de popularizar o acesso e aumentar a escala.

O pacote básico, que permite ao fã ter acesso a uma série de ferramentas virtuais para dialogar mais intimamente com o streamer, caiu de R$ 22,99 para R$ 7,90.

No entanto, o valor da assinatura não é repassado integralmente aos streamers - eles embolsam menos de um terço do total. O restante diz respeito à cota de 50% da plataforma e a impostos cobrados pelo governo dos Estados Unidos, sede da empresa. Além disso, os criadores só têm direito a fazer saques quando acumulam um mínimo de US$ 100.

"Vamos precisar de três vezes mais subs para manter a mesma renda", calcula Picoca.

Por meio de sua assessoria de imprensa, a Twitch afirmou que fez diversos testes antes de decidir pela mudança e que "os preços mais baixos de subs mais do que dobraram a receita do criador e a contagem total de assinantes."

Para compensar possíveis quedas de remuneração, a empresa informou que "desenvolveu um programa de 12 meses, o True-Up, projetado para garantir que os criadores afetados pela alteração de preço continuem a receber 100% de sua receita de linha de base nos primeiros meses após as alterações de preço em seu país".

Trabalho por afeto

"Muitos streamers acreditam que é apenas um hobby, uma diversão. Ou seja, não seria um trabalho propriamente dito", analisa a advogada Jackeline Gameleira, que estuda a Twitch em um mestrado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Porém, na página com seus conceitos básicos, a própria Twitch se define como um lugar onde é possível "criar um canto acolhedor na internet" para "desenvolver uma comunidade e ganhar a vida fazendo o que gosta".

Como a dinâmica se baseia na interação ao vivo dos criadores com sua comunidade, o streamer que sonha em pagar as contas com transmissões em tempo real precisa, acima de tudo, estar disponível.

"Para manter a comunidade, as pessoas têm a expectativa de que você esteja lá. Se você não está lá, a comunidade também não vai estar. Então, é como se você tivesse que estar sempre alimentando", analisa Jackeline.

"Estar sempre alimentando", no caso, significa passar o maior tempo possível online - e com um sorriso no rosto. Até porque a Twitch talvez seja a plataforma que melhor explora um combustível bastante demandado na internet: o afeto.

O conceito é de Jamie Woodcock e Mark Johnson, dois pesquisadores da The Open University, da Inglaterra, responsáveis por um artigo pioneiro sobre o tema. O estudo traz depoimentos de diversos streamers. "Jornadas de 15 horas não são incomuns", afirma um deles. Picoca, por exemplo, já fez uma live de 24 horas - sem parar.

Além disso, há um componente subjetivo nada trivial para quem tem como trabalho cativar a audiência por tanto tempo, sem soar interesseiro. Em plataformas em que predominam vídeos editados, como é o caso do Youtube, o influenciador veste a fantasia do personagem por ele criado apenas durante a gravação.

Já na Twitch, "os streamers precisam estar continuamente ativos, simpáticos ou espirituosos, e são instados a permanecer nesse personagem não apenas por um dia, mas potencialmente por diversos meses, e até mesmo anos", afirmam Woodcock e Johnson.

"Luta para todo mundo"

Justamente por lidar com o sentimento das pessoas, streamers engajados nas discussões sobre o "sindicato" vêm sendo criticados por parte da comunidade da Twitch.

Os questionamentos à nova política de remuneração fizeram com que Picoca, por exemplo, fosse xingado até de "mercenário" nas redes sociais, como se estivesse atrás apenas de dinheiro, desprezando o afeto dos fãs.

Mas ele frisa que a redução dos preços para o público da plataforma é uma pauta antiga dos próprios streamers, com o intuito de democratizar o acesso.

"É uma luta para todo mundo. A gente sempre quis uma sub mais barata para o público, mas também gostaria de receber uma parcela maior dela", finaliza.

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