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Carlos Juliano Barros

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Será que nossos jovens estão condenados a uma "nova informalidade"?

A baixa produtividade não tende a ser problema apenas de toda uma geração de jovens que luta para cavar um espaço no mercado de trabalho - Bruno Kelly/Reuters
A baixa produtividade não tende a ser problema apenas de toda uma geração de jovens que luta para cavar um espaço no mercado de trabalho Imagem: Bruno Kelly/Reuters
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Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

24/08/2021 04h00

Num passado não muito distante, era comum que jovens à procura de uma primeira oportunidade no mercado de trabalho buscassem vagas no telemarketing para pagar a faculdade e disputar um emprego mais qualificado no futuro.

Hoje, montados em bicicletas alugadas, muitos recorrem aos aplicativos de delivery como porta de entrada para a vida profissional. Mas agora a perspectiva é contrair uma dívida no banco para comprar uma moto - e ganhar um pouco mais, agilizando o ritmo das entregas.

As cenas descritas acima por Ruy Braga, professor de sociologia do trabalho da Universidade de São Paulo (USP), resumem de forma bastante sugestiva uma realidade que cresce a passos largos no país e que ele denomina de "nova informalidade".

Ao longo de sua carreira acadêmica, Braga tem estudado os operadores de telemarketing e, mais recentemente, os entregadores de aplicativos. Comparando os depoimentos colhidos para suas pesquisas, ele propõe uma análise bastante factível e pouco animadora.

A típica trajetória do brasileiro - que no curso de sua vida nutria o sonho de se capacitar para fugir da informalidade e ascender socialmente - talvez já não faça mais tanto sentido assim para uma parte das pessoas que estão desbravando o mercado de trabalho.

Basicamente, aquilo que Braga chama de "nova informalidade" tem dois componentes. "O primeiro deles é a desconexão com o setor formal da economia", afirma. "Isso quer dizer que quem entra no setor informal não sai mais. A pessoa vai ter toda uma trajetória sem acesso a direitos sociais ou direitos trabalhistas", complementa o professor.

"O segundo é a monopolização do mercado por grandes empresas de tecnologia", define. É o que no Brasil se convencionou chamar de uberização - e que já está bastante consolidado nos setores de entrega e de transporte, por exemplo.

"Aquela informalidade tipicamente brasileira e de países de terceiro mundo, que era uma coisa do pequeno negócio, tende a declinar em benefício de uma outra informalidade, que é dominada por essas empresas de tecnologia e de inteligência artificial", afirma o professor.

Tendências globais

Braga faz questão de ressaltar que sua análise é uma hipótese - e não um destino inescapável. Mas ele leva em consideração duas importantes tendências globais mais ou menos recentes para lastrear sua previsão: o afrouxamento de legislações protetivas e o avanço das plataformas digitais de serviço.

No primeiro caso, ele cita um estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) que identificou 643 reformas realizadas em 111 países desde o início da grande recessão de 2008. Por aqui, essa onda quebrou um pouco mais tarde, mas trilhou o mesmo caminho: flexibilizar a regulação do trabalho na tentativa de conter o desemprego e a derrocada da economia.

Já a segunda tendência - a explosão dos aplicativos - também deve parte de sua origem à crise financeira de 2008. A leitura de Braga é parecida com a que Trebor Scholz, professor da The New School de Nova York e um dos papas sobre plataformas digitais de serviço, faz no documentário "GIG - A Uberização do Trabalho", dirigido por este colunista.

Na esteira da quebra do banco Lehman Brothers, o mercado financeiro se reconfigurou e os fundos de capital de risco passaram a investir pesadamente em startups. Alimentadas por dinheiro a perder de vista, as plataformas digitais puderam se dar ao luxo de operar no vermelho por anos a fio, atraindo trabalhadores e clientes por meio de incentivos e promoções, até se estabelecerem no mercado.

"Elas baixam os preços dos serviços, têm prejuízos durante muitos anos e, quando decidem efetivamente aumentar os preços, não têm competidores - ou pelo menos a competição está limitada a poucas empresas", resume Braga.

Do trabalho terceirizado ao plataformizado

No caso brasileiro, o alargamento da "nova informalidade" também se deve ao fato de que emprego com carteira assinada nem de longe é sinônimo de trabalho decente ou bem remunerado. Isso é bastante evidente entre os terceirizados, comumente contratados para serviços de faxina ou vigilância.

Para escrever um artigo prestes a ser publicado no exterior, Braga ouviu dezenas de jovens entregadores da capital paulista e percebeu uma conexão entre essas duas realidades.

"A crise de 2015 e 2016 colocou um grande número de terceirizados na rua. E esse pessoal entrou na economia dos aplicativos", explica Braga. "Foi unânime que eles ganham mais como entregador de aplicativo do que ganhavam quando eram terceirizados", acrescenta.

Rechear o bolso com um pouco mais de dinheiro é, certamente, o principal motivo que explica por que os jovens entrevistados preferem o trabalho plataformizado ao terceirizado.

Mas essa satisfação relativa também é alimentada por aquilo que o professor chama de "ilusão de liberdade" - a ideia de não ter patrão e de fazer o próprio horário pode parecer mais sedutora do que estar à disposição de um emprego precário.

"Mas qual é o outro lado dessa história? É fazer jornadas muito longas, estar exposto a risco de acidentes, não ter nenhum tipo de proteção e nem garantia de aposentadoria - o que, para muitos jovens, está muito distante", comenta. Não custa lembrar que há entregadores que até dormem na rua para não perder tempo voltando para casa.

Braga ainda ressalta uma última preocupação sobre a categoria que é símbolo por excelência da "nova informalidade": o impacto sobre a produtividade do trabalho. Quando o horizonte é ralar o maior tempo possível fazendo entregas para ganhar um pouco mais, sequer sobra tempo para continuar os estudos ou aprimorar a qualificação.

Só que as más notícias não param por aí: a baixa produtividade não tende a ser problema apenas de toda uma geração de jovens que luta para cavar um espaço no mercado de trabalho - taí uma conta que todos nós vamos pagar.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL