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Carlos Juliano Barros

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

A Grande Renúncia: por que pedidos de demissão vêm batendo recordes nos EUA

Em comparação com o pico registrado antes da pandemia, há 5 milhões de pessoas a menos trabalhando nos Estados Unidos. - JESSICA MCGOWAN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP
Em comparação com o pico registrado antes da pandemia, há 5 milhões de pessoas a menos trabalhando nos Estados Unidos. Imagem: JESSICA MCGOWAN / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / GETTY IMAGES VIA AFP
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Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

26/10/2021 04h00

Como todo acontecimento digno de nota nos Estados Unidos, um fenômeno histórico no mercado de trabalho vem sendo chamado por um nome praticamente hollywoodiano: A Grande Renúncia.

Estamos falando dos números sem precedentes de pedidos de demissão registrados nos últimos tempos na maior economia do mundo. De acordo com os dados mais recentes, cerca de 4,3 milhões de norteamericanos decidiram largar o emprego no mês de agosto - quase 3% do total de pessoas aptas a procurar uma vaga.

Como não poderia deixar de ser, um leque variado de cartas foi aberto sobre a mesa para explicar o que anda ocorrendo por lá.

Os conservadores se apressaram em colocar a culpa nos benefícios sociais concedidos aos cidadãos para conter os danos da pandemia. Uma leitura automática do inconsciente coletivo de uma parte da direita - aquela em que se insere nosso presidente, Jair Bolsonaro.

Não custa lembrar que, antes de subir a rampa do Planalto e de impor uma repaginada no Bolsa Família para salvar sua candidatura nas eleições do ano que vem, Bolsonaro costumava encher a boca para dizer que dar dinheiro a gente pobre não passava de estímulo à vagabundagem. Opinião desmentida por qualquer análise minimamente séria.

Mas voltemos aos Estados Unidos. Ainda que possam ter alguma influência no quadro geral, os programas sociais não constituem a principal explicação para A Grande Renúncia. Até porque há evidências científicas mostrando que, mesmo nos estados que já reduziram os auxílios à população, o emprego não decolou.

Na realidade, uma combinação de fatores está reconfigurando o mercado de trabalho e levando as pessoas ao divã: vale a pena topar qualquer coisa por dinheiro? Ou melhor, por menos dinheiro do que deveria e poderia ser pago?

Não à toa, o colunista do New York Times e Prêmio Nobel de Economia, Paul Krugman, intitulou um artigo recente sobre o assunto de "A revolta do trabalhador americano".

Em outras palavras, a economia baseada na estagnação salarial da base da pirâmide social, que marcou a história recente dos Estados Unidos e provocou uma concentração de renda abissal, está em xeque.

Este é um debate que remonta ao início da década de 1980. Como explica o especialista em desigualdade social Lucas Chancel, em depoimento à série de documentários da Folha de S. Paulo sobre o tema, a renda da metade mais pobre da sociedade americana cresceu apenas 3% nos últimos 40 anos.

Estagnação cabalmente ilustrada pela história de outro personagem do mesmo documentário - Lou Berry, morador do decadente polo industrial de Braddock, na Pensilvânia. Em 1979, ele tirava US$ 8 por hora na Westinghouse Electric, uma companhia de geração de energia. Depois de 35 anos, foi obrigado a caçar emprego em uma empresa da área da saúde. Remuneração: US$ 8,50 por hora.

Eis que irrompeu a covid-19. Com as medidas restritivas de circulação para impedir que o coronavírus se espalhasse, houve uma drástica queda no consumo de serviços - setor que emprega a maior parte da população. Em comparação com o pico registrado antes da pandemia, as estatísticas apontam que há 5 milhões de pessoas a menos trabalhando nos Estados Unidos.

Entretanto, agora que a economia ensaia uma retomada do ritmo normal, o mercado está se aquecendo. E, com tantas vagas se abrindo, os trabalhadores têm se permitido algo que até pouco tempo atrás soaria como um luxo: barganhar.

Além disso, desistir do emprego para tentar a sorte em outro nunca pareceu tão factível. Não só em busca de aumento de salário, mas também em nome da qualidade de vida.

Nas manchetes de jornais, pululam exemplos de profissionais que desistiram de seus antigos postos por não entrarem em acordo com as empresas sobre a continuidade do home office, por exemplo.

Os analistas estão ouriçados e a bolsa de apostas está a pleno vapor: quanto tempo deve durar A Grande Renúncia? Com salários sendo pressionados para cima, a inflação vai sair do controle? Essas são perguntas de difícil resposta, por ora.

Uma coisa é certa: a pandemia estremeceu o pacto social da principal economia do planeta. A metade estagnada nos últimos quarenta anos pode, enfim, cobrar a fatura atrasada.

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