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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

O que o algoritmo-artista Botto diz sobre o futuro das profissões criativas

Botto, o algoritmo-artista, é capaz de produzir até 300 obras por dia e já faturou mais de US$ 1 milhão - Reprodução
Botto, o algoritmo-artista, é capaz de produzir até 300 obras por dia e já faturou mais de US$ 1 milhão Imagem: Reprodução
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Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

14/12/2021 04h00

"Um artista autônomo e descentralizado."

É assim que Botto se define em seu site oficial. Ele é capaz de produzir até 300 obras de arte por dia, mas só expõe 50 imagens aos membros de sua comunidade a cada semana. Com menos de um mês de carreira, já despontou no circuito das grandes casas de leilão e rompeu a barreira do US$ 1 milhão em faturamento.

Botto não é propriamente humano. Mas sua atividade é guiada pela opinião e pelo senso estético de milhares de pessoas de carne e osso, responsáveis por inspirar as obras do artista e escolher quais vão ser comercializadas.

"A minha arte não é só minha. Os resultados do meu trabalho dependem da comunidade que me governa", afirma Botto em sua apresentação. Criado pelo alemão Mario Klingmann, Botto é - em uma palavra - um algoritmo. Quer dizer, um sistema informatizado capaz de aprender e produzir por conta própria.

Sem dúvida, o projeto é um movimento de vanguarda artística, antenado à revolução digital. Tanto é assim que ele mexe com todo tipo de inovação, de criptomoedas a NFT - aquele selo de autenticidade que permite que obras compostas não em tela e tinta, mas em bits, sejam vendidas por um dinheirão.

Só que a iniciativa de Klingmann não é apenas um exemplo originalíssimo de como a inteligência artificial se alimenta da inteligência humana para os mais diversos fins, incluindo o mais glamoroso deles - a arte. Ela também fornece pistas interessantes sobre o futuro nebuloso das profissões ditas "criativas", o balaio de gato que reúne produtores de conteúdo em texto, imagem e áudio.

Inteligência humana e inteligência artificial

A imagem de seres humanos treinando máquinas já deixou o terreno da ficção científica há quase duas décadas. Um dos casos mais impressionantes é o das plataformas de "crowd work". Em bom português, a expressão pode ser entendida como trabalho terceirizado para uma multidão.

Basicamente, essas plataformas recrutam gente de verdade para tarefas banais que algoritmos ainda não conseguem fazer. Classificar produtos por cor ou tamanho, em apenas um clique, é o exemplo clássico. Mais do que resolver problemas de que robôs não dão conta, o objetivo é refinar a inteligência artificial com a ajuda da cognição humana.

A mais conhecida delas é a Amazon Mechanical Turk (AMT). Divisão pioneira da gigante do e-commerce presidida por Jeff Bezos, a plataforma paga centavos para cada microtarefa realizada e é um dos símbolos de uma categoria de trabalhadores que não para de crescer: a do precariado digital.

Mais concorrência por aí

Botto bebe da mesma fonte do AMT e aposta na chamada "crowd art". Como (quase) sempre acontece no universo das inovações digitais disruptivas, a proposta do algoritmo-artista está envolta em uma aura de democratização. No manifesto publicado no site, é possível ler frases de efeito como "nós somos a multidão" e "a arte ditada por uma pequena elite em breve será coisa do passado".

O objetivo do projeto Botto é chacoalhar o mercado das artes. Mas é inevitável que ele também transborde para o universo das profissões criativas, que a rigor não se enquadram na categoria de arte com "A" maiúsculo, mas têm uma importante dimensão estética.

Indo direto ao ponto: imagine a evolução que um Botto da vida pode proporcionar, por exemplo, a aplicativos que produzem logomarcas? Por sinal, basta dar um Google para encontrar diversas startups que oferecem esse serviço de graça ou a preços muito módicos.

Por enquanto, os logotipos desenhados por inteligência artificial ainda são bastante limitados e rudimentares, quando comparados aos concebidos por humanos. Mas é só questão de tempo para que os algoritmos-artistas evoluam, assimilando tendências e produzindo opções em uma escala sem precedentes.

Nos últimos anos, profissionais criativos já vinham sendo espremidos por plataformas que transformaram o free-lancer em um serviço uberizado. Mesmo criando um sistema de baixas remunerações e poucas garantias, essas startups seguem atraindo prestadores de serviço que topam uma corrida para o fundo do poço, na esperança de se manterem em evidência no mercado de trabalho.

Botto anuncia uma nova fase. Daqui para frente, a concorrência não será só entre uma multidão de profissionais disputando "jobs" a tapa. Os algoritmos-artistas, alimentados por gostos e preferências de uma comunidade cada vez mais ampla e globalizada, também vão entrar no páreo.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL