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Carlos Juliano Barros

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Violência no campo explode enquanto questão agrária sai do radar político

Carlos Juliano Barros

Carlos Juliano Barros, 38 anos, é jornalista e mestre em Geografia pela USP. Há anos vem se dedicando à cobertura de temas relacionados ao mundo do trabalho. Nessa área, já dirigiu quatro documentários de longa e média-metragem, selecionados para importantes festivais dentro e fora do país. O mais recente deles, "GIG - A Uberização do Trabalho" (2019), produzido pela Repórter Brasil e exibido pela Globo News e pelo Canal Brasil, foi finalista na categoria imagem do Prêmio Gabriel García Márquez. Também é criador, roteirista e apresentador do podcast "Trabalheira/Rádio Batente", eleito pelo Spotify um dos destaques de 2020. Já colaborou para diversas publicações, como BBC Brasil, Folha de S. Paulo, Rolling Stone e The Guardian. Um dos fundadores da Repórter Brasil, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog de Anistias e Direitos Humanos em duas oportunidades e foi finalista do Prêmio Esso de Jornalismo.

18/04/2022 12h18

Lançado oficialmente nesta segunda-feira (18), o tradicional caderno "Conflitos no Campo" traz uma radiografia nada animadora sobre a violência no meio rural e sobre o destino de milhares de famílias brasileiras no limite da sobrevivência.

Os dados mais impressionantes falam por si só. Em 2021, foram registrados 35 assassinatos decorrentes de disputas fundiárias - uma assustadora média de três homicídios por mês. Já os casos de trabalho escravo tiveram aumento de 76% em relação ao ano anterior.

A publicação é um serviço inestimável prestado há décadas pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), um braço da igreja católica que desde 1985 organiza estatísticas sobre a questão agrária brasileira. Aliás, esse é um tema que já chegou a encabeçar a pauta do debate político, mas que nos últimos anos praticamente saiu do radar.

Isso se deve não só ao fato de o governo Bolsonaro ter paralisado as desapropriações de terra e a criação de novos assentamentos para famílias sem-terra em todo o país. Mas também à constatação de que até mesmo os partidos mais à esquerda guardaram na gaveta a histórica bandeira da reforma agrária.

As justificativas mais comuns são as de que a urbanização se generalizou e a de que a produção agropecuária do mundo globalizado e altamente competitivo precisa ser intensiva em tecnologia - o que demanda muita terra e muito capital, mas pouca mão de obra.

Por essa lógica, insistir na criação de unidades familiares de pequeno porte é andar na contramão da história e da racionalidade econômica. Um tipo de mentalidade que não é exclusividade da direita, ressalte-se. Basta lembrar que no governo de Dilma Rousseff a reforma agrária já havia entrado em franco declínio.

Mas daí é necessário atentar para a vida real e olhar para exemplos concretos, como o de Eldorado dos Carajás, no sul do Pará. Foi ali, por sinal, que aconteceu o mundialmente conhecido massacre de 21 pessoas sem-terra baleadas por soldados da Polícia Militar - episódio que no último domingo completou 26 anos.

Em entrevista a este colunista, gravada para um documentário sobre este mesmo assunto e veiculado pelo UOL no ano passado, a prefeita do modesto município paraense de 35 mil habitantes, Iara Braga, falou sobre os impactos de uma iminente reintegração de posse de uma grande propriedade ocupada há quase 15 anos.

As mais de 200 famílias que moram e produzem na área demandam a desapropriação da fazenda e a criação de um assentamento. De acordo com Iara Braga, despejar as milhares de pessoas que vivem na ocupação não criaria apenas uma enorme tragédia social, já que a prefeitura não tem qualquer condição de prestar assistência às famílias.

O fato é que da ocupação saem o mel, o leite, as galinhas e as hortaliças que abastecem o comércio local. Numa paisagem dominada por grandes fazendas de gado para corte, preservar as pequenas propriedades também é estratégico para o funcionamento da economia do dia a dia em Eldorado dos Carajás.

Não se trata aqui de pintar camponeses como bonzinhos e pichar empresários do agro como malvadões. A importância dos grandes produtores rurais na inovação tecnológica, na geração de empregos e na produção de riqueza para o país é amplamente reconhecida. Assim como deveria acontecer com milhares de famílias Brasil afora que sonham com um pedaço de chão para viver e trabalhar.

Além disso, não dá para negar que há uma banda truculenta e atrasada do ruralismo brasileiro que ou mata, desmata e escraviza - ou mantém negócio com quem faz isso. Assim como também não é possível varrer para baixo do tapete a informação de que essa turma tem se sentido bem mais à vontade sob a gestão de Jair Bolsonaro.

Ou seja, não é mera coincidência que os dados da CPT apontem para um total de 4.078 conflitos nos três primeiros anos do atual governo - recorde da série histórica iniciada quatro décadas atrás.

Há uma ampla literatura sobre como a modernização brasileira tem se dado em bases retrógradas. Em outras palavras, devastação ambiental, superexploração do trabalho e violência ostensiva não seriam pontos fora da curva - mas, sim, traços estruturais desse processo. O governo Bolsonaro é a prova cabal dessa dinâmica. Mas isso é tema para outra coluna.