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Conheça os fundos ESG, também chamados de investimentos sustentáveis

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César Esperandio

César Esperandio

César Esperandio é economista com ênfase em planejamento financeiro, com larga experiência no mercado financeiro. Já atuou em setores macroeconômicos de bancos e consultorias, além de ter passado por empresa de pesquisas de mercado. Hoje se dedica exclusivamente ao Econoweek, com foco em investimentos.

29/10/2021 04h00

Você sabia que a crise ambiental pode afetar diretamente os seus investimentos?

Nem todos sabem, mas a falta de políticas ambientais causa prejuízos não só para a natureza e para a saúde, mas também para a economia de forma geral. Hoje em dia, países que não seguem protocolos de redução de emissão de carbono e que não priorizam fontes de energia limpa atraem menos investimentos estrangeiros.

O tema de hoje é justamente esse: a importância dos investimentos socialmente responsáveis, também conhecidos como ESG. Mas antes a gente vai falar um pouco sobre a crise ambiental e como o Brasil está nesse contexto.

A crise ambiental é um problema?

A gente sabe que a crise ambiental não é nenhuma novidade. Mesmo assim, é sempre importante estarmos atualizados sobre a dimensão dos estragos que isso causa mundo afora e o que os países estão fazendo a respeito.

Eu podia até ficar falando de como a crise ambiental afeta o mundo inteiro: muitos incêndios e queimadas ao redor do mundo, enchentes devastadoras, mas vou concentrar o assunto no Brasil e depois falar de investimentos que podem ser feitos se você também já concluiu que isso precisa mudar.

Há meses, os produtores do centro-sul do Brasil vêm penando com a falta de chuvas. Segundo um levantamento da rede de pesquisadores MapBiomas, em 35 anos o Brasil perdeu 15% da sua superfície coberta com água.

Para você ter uma ideia, é como se um lago maior do que o estado de Alagoas tivesse secado e desaparecido por aqui!

O pior é que isso não é aleatório. Ao contrário, o Brasil tem grande responsabilidade sobre essa degradação ambiental. Outra pesquisa mostrou que, por aqui, cerca de 20% do território foi queimado nos últimos 30 anos.

Para quem não sabe, as queimadas deixam o chão limpo, e isso aumenta o calor e diminui a capacidade da terra de absorver a água. Dessa forma, acaba se criando um ciclo destrutivo, pois a seca alimenta o fogo, que por sua vez alimenta a seca, e o problema acaba ficando cada vez mais grave.

E isso não atinge só o Brasil! Todo esse desmatamento e as queimadas por aqui estão fazendo a Amazônia jogar muito mais CO2 na atmosfera, o que acelera as mudanças climáticas em todo o mundo. Basicamente, o papel de uma floresta como a Amazônia é absorver o gás carbônico. Só que hoje, por causa do desmatamento, ela acaba emitindo mais CO2 do que consegue absorver.

Não é só a parte desmatada e queimada que fica prejudicada. Os cientistas também chamam atenção para algo que poucos se dão conta, que é a emissão indireta de CO2 que ocorre na floresta.

Quando um pedaço da floresta é desmatado, as partes que sobram também são afetadas. Isso porque o bioma todo vai sendo degradado (sobrecarregado), o que lentamente faz com que solte mais CO2, metano e outros gases de efeito estufa.

O que os países têm feito para lidar com esse problema?

Em julho deste ano, a China lançou um gigantesco mercado de carbono, que obriga as empresas do setor de energia a reduzir gases de efeito estufa até um limite determinado. A empresa que ultrapassar esse limite vai ter que pagar uma multa ou comprar "licenças" de empresas que não excederam as suas cotas.

Com isso, a China pretende atingir o carbono neutro até 2060, ou seja, zerar a emissão de poluentes até esse ano.

Na Europa, esse modelo já existe há mais de 15 anos, assim como em outras partes do mundo também. Inclusive América Latina, México e Colômbia também estão avançados nesses projetos, o que infelizmente não acontece no Brasil.

O pior é que, segundo especialistas, não seria difícil para o Brasil adotar o modelo. No livro Brasil: Paraíso Restaurável, José Caldeira analisa os impactos da covid sobre a transição para o carbono neutro. Desde o início da pandemia, houve uma grande aceleração nesse sentido. Cerca de 90% de toda a energia elétrica nova do planeta foi renovável em 2020. No Brasil, ocorreu o mesmo. Por aqui, a energia eólica e solar cresceram muito.

"Para se ter uma ideia, o gigawatt eólico custa um quinto do que custa o giga de Belo Monte. Ou seja, as formas antigas de energia não são competitivas hoje. E o Brasil tem vantagens, pois por aqui basta plantarmos árvores para ingressarmos no carbono neutro", afirma Caldeira.

Investimentos ESG

Você sabia que, de junho de 2020 até hoje, praticamente dobrou o volume de investimentos sustentáveis? Atualmente, cerca de 2/3 do dinheiro disponível para investimentos no mundo estão sob cláusulas ESG.

Vamos agora entender o que significa ESG.

A sigla vem de Environmental, Social and Governance (traduzido do inglês, significa ambiental, social e governança).

Esses investimentos adotam critérios ambientais, sociais e de governança para selecionar os ativos. O objetivo é justamente incentivar investidores a procurar empresas socialmente responsáveis e comprometidas a promover mudanças positivas na sociedade.

Vamos ver agora alguns exemplos que os três critérios do ESG abordam:

Critérios ambientais

Esses critérios consideram como a empresa lida com os recursos naturais. Por exemplo, como é feita a utilização de água e energia? Existe algum sistema de tratamento de poluentes? Como é feito o descarte de lixo? A empresa tem uma política de emissão de CO2? E por aí vai...

Critérios sociais

Esses critérios estão ligados ao relacionamento da empresa com funcionários, fornecedores, clientes e todos os que possam ser impactados por suas ações.

Aqui, são analisados aspectos como preocupação com o bem-estar profissional, adequada remuneração, segurança no trabalho e comprometimento com a sociedade de forma geral.

Critérios de governança

Por fim, os critérios de governança se referem à ética, à transparência da empresa frente aos investidores, como ela lida com a diversidade e assim por diante.

Você pode estar se perguntando: o propósito é bacana, mas será que esses investimentos são lucrativos?

Os investimentos ESG não são atrativos só por causa dos valores sociais. Se você parar para pensar, as empresas que adotam essas práticas conseguem ser mais sustentáveis no longo prazo.

Um dos aspectos é o da produção. Quando uma empresa utiliza matérias-primas recicláveis ou não poluentes e utiliza fontes de energia limpa, isso tudo contribui para um resultado consistente com o passar do tempo.

Outro aspecto diz respeito à boa imagem no mercado. Se a empresa é engajada com questões ambientais e sociais, e tem bons critérios de governança, tende a atrair mais consumidores e investidores. Isso também valoriza sua marca e suas ações.

Por fim, pense em uma empresa que respeita leis ambientais e tenha um bom controle de poluentes. Para o investidor, é muito mais seguro investir em uma empresa assim do que em outra que não tenha essas preocupações, certo?

Da mesma forma, você pode pensar em relação às que não tenham critérios de governança corporativa. Nesse caso, como saber se essa empresa não faz algo ilícito ou se está envolvida em esquemas de corrupção?

Viu só a importância dos critérios ESG para os investimentos?

Se você ainda não estiver convencido sobre a importância das práticas sustentáveis, é só acompanhar as manifestações de governos ao redor do mundo em relação à forma como o Brasil vem tratando o assunto.

Recentemente, um editorial do Financial Times sugeriu que o Brasil seja punido por não parar a destruição ambiental.

Já o parlamento europeu aprovou um relatório que diz que o acordo de livre comércio entre a UE e o Mercosul não pode ser ratificado em sua forma atual. O texto enviado para votação dizia que o parlamento estava extremamente preocupado com a política ambiental brasileira, que vai contra compromissos do Acordo de Paris.

Ou seja, o cerco ao redor de quem ainda não acordou para essa nova realidade está se fechando cada vez mais!

Como investir em ESG?

Você pode investir tanto em ações de empresas que sigam critérios de sustentabilidade quanto em fundos que acompanhem esses índices.

Se você ainda não tem muita experiência com ações, pode ser mais interessante investir em um fundo ligado a algum índice de sustentabilidade, pois nesses fundos sempre há um gestor responsável pela escolha das ações.

É importante conhecer alguns índices que investem nessas empresas. O mais conhecido no Brasil é o ISE (Índice de Sustentabilidade Empresarial).

O ISE é formado por cerca de 40 empresas listadas na bolsa de valores. Para participar do ISE, a empresa precisa ter as suas ações entre as 200 de maior liquidez, além de seguir os critérios ESG.

A composição do ISE muda todo o final de ano e vale de janeiro a dezembro.

Desde a sua criação, em 2005, até o final do primeiro semestre de 2021, o ISE acumulou alta de 276%. Nesse mesmo período, o Ibovespa (principal índice da bolsa brasileira) apresentou valorização de 255%.

Outro índice de sustentabilidade é o ICO2 (Índice de Carbono Eficiente), formado por ações das empresas que participam do índice IBrX50, as quais adotam práticas transparentes em relação às emissões de gases efeito estufa.

O ETF ECOO11 segue o desempenho desse índice. Esse fundo é negociado na B3.

Outro exemplo é o S&P/B3 Brasil ESG, que também utiliza critérios ambientais, sociais e de governança para selecionar as empresas para a sua carteira. Esse índice é o mais recente dos três, criado em setembro de 2020 por meio de uma parceria entre a B3 e a S&P Dow Jones, maior provedor de índices do mundo.

Vale a pena investir nisso?

As ETFs são fundos negociados na Bolsa. Se você ainda está dando os primeiros passos, um investimento interessante poderia ser os fundos de renda fixa, principalmente os de gestão passiva, como explicamos no vídeo a seguir.

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