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Crise do petróleo é estrutural e reflete colapso da economia global

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

22/04/2020 17h05

Mal refeitos da perplexidade das cotações em valores negativos da segunda-feira (20) e depois de uma jornada de acomodação no dia seguinte, os mercados de petróleo passam por uma sessão de altas, nesta quarta-feira (22). Mas isso não significa uma tendência de reversão sólida das quedas iniciadas há cerca de um mês e meio, desde o tombo histórico de 9 de março.

No meio do dia, as cotações do petróleo do tipo Brent, referência para os mercados mundiais, exceto os Estados Unidos, oscilavam acima de US$ 20 por barril, depois de iniciar a sessão em queda, batendo nos níveis mais baixos desde 1999, quando temores em relação ao então próximo "bug do milênio" jogaram as cotações no chão. Também os preços do WTI, base de mercado nos Estados Unidos, subiam mais de 25%, acima de US$ 15 por barril, depois de também recuar ao ponto mais baixo em 21 anos.

Alguns eventos podem ajudar a explicar a recuperação de momento, mas nenhum tem força suficiente para impedir novas ondas de vendas e de recuo nas cotações. Um deles é o anúncio, veiculado no Twitter do presidente americano Donald Trump, de que o governo dos Estados Unidos cogita apoiar a indústria petrolífera, inclusive com a nacionalização de parte do capital das empresas.

Este eventual suporte ainda depende de vários desdobramentos, inclusive a concordância dos deputados e senadores democratas, o que, por enquanto, é tido como improvável. O fato é que, mesmo com o apoio oficial ao setor de petróleo e gás, o excesso de produção e estoques sobre a demanda ainda vai demorar para ser alcançado - se é que será -, e, portanto, a hipótese mais realista, no momento, é de que as cotações continuem deprimidas.

As curvas das cotações de petróleo, nos mercados à vista e nos futuros, nos últimos três dias, podem ser comparadas com um eletrocardiograma em que são registradas grandes arritmias. Elas dão indicações de que o acontecido no início da semana, com a inédita cotação negativa, no mercado futuro para entrega física em maio, não refletiu apenas uma anomalia técnica, produzida pela dificuldade de estocar o petróleo produzido nos Estados Unidos.

Não faltam motivos para esperar que as cotações de petróleo continuem num patamar baixo, acarretando problemas para a cadeia global de óleo e gás. Por um bom período, a oferta de petróleo continuará bem acima da demanda. O esforço para reduzir a oferta, que só agora ganhou mais intensidade, não produz resultados da noite para o dia. É preciso lembrar, além disso, que a produção se encontrava em alta até o advento da pandemia do coronavírus.

A primeira derrubada das cotações, em 9 de março, foi a resposta do mercado à abertura das torneiras dos poços de Arábia Saudita e Rússia, dois dos maiores produtores mundiais, envolvidos numa queda de braço justamente quando já se buscava um acordo para redução da oferta. O agora negociado corte de cerca de 10 mil barris/dia, na produção saudita e russa, a esta altura, terá impacto menor na trajetória de elevação dos estoques de petróleo.

A queda na demanda, ao contrário, é quase imediata e ainda não parece ter encontrado o limite. Neste mês de abril, por exemplo, o consumo está apresentando retração próxima a 30%, em relação ao volume demandado em março, quando as quedas abruptas na procura se refletirão em grandes tombos nas cotações.

Mesmo ocupando uma posição intermediária entre produtores e consumidores de petróleo, o mercado brasileiro é um bom exemplo do que está ocorrendo pelo mundo. Com um novo corte na terça-feira (21), os preços da gasolina, cobrados pela Petrobrás nas refinarias, já caíram pela metade, em relação a dezembro de 2019. Os preços do diesel, até agora, também em 2020, recuaram quase 40%. Esse é um reflexo da queda de 35% na demanda de gasolina e de 25% na procura por diesel.

É verdade que a redução dos preços nas bombas tem sido menor e desigual entre regiões e postos. Houve, até agora, recuo médio de cerca de 10% dos preços do litro da gasolina e do diesel. Enquanto conseguirem manter margens maiores, compensando volumes vendidos menores, os postos resistirão a cortar mais os preços finais aos consumidores.

Apesar da busca por substitutos, o petróleo se mantém como um dos principais combustíveis da atividade econômica global. Quando a atividade econômica global sofre um colapso, é natural que a vasta cadeia de produção do petróleo também entre em colapso. O atual e exacerbado vaivém das suas cotações é, antes de qualquer outra coisa, um indicador seguro da crítica situação da economia em todos os cantos do planeta. Em recente atualização de suas projeções, a OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) passou a projetar queda de 1,5% no PIB mundial em 2020 e contração de 15% nos investimentos diretos pelo mundo.

José Paulo Kupfer