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Economia já estava fria, mas pandemia levou ao colapso da atividade

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

29/05/2020 11h19Atualizada em 29/05/2020 15h02

Os números oficiais da atividade econômica no primeiro trimestre, divulgados nesta sexta-feira (29), preenchem os primeiros pontos da trajetória de mergulho que o PIB (Produto Interno Bruto) deve apresentar em 2020. Uma violenta retração já está contratada para o segundo trimestre, reforçando as projeções de inédita contração na economia.

Se fosse repetida nos três trimestres seguintes, a queda de 1,5%, registrada no período janeiro-março, significaria um recuo de 6% do PIB em um ano. Com esse resultado, um recuo da economia de 7%, em 2020, o maior desde o início do século 20, passa a ser a menos pessimista das projeções. No encerramento deste ano, o PIB, em valor nominal, deverá ser o mesmo de 2017.

Teria sido esse tombo consequência do coronavírus ou a economia já vinha rateando? A resposta é: os dois. A economia já vinha fria, mas o resultado no primeiro trimestre, na magnitude da captada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), é culpa dos impactos da disseminação do coronavírus na economia. Sem o contágio da Covid-19, que tirou pessoas do trabalho e restringiu quase completamente a demanda, a queda não seria tão forte, e talvez até apontasse um crescimento medíocre, mas crescimento. A parada brusca da economia derrubou os números de março, afetando o resultado de todo o trimestre.

O ápice da derrubada da economia se dará no segundo trimestre, com abril na dianteira dos números negativos mais chocantes. Abril foi o mês em que a pandemia se alastrou pelo país, com o choque simultâneo de oferta e demanda atingindo em cheio a economia. Quando o PIB do período entre abril e junho for divulgado, na entrada de setembro, a queda sobre o trimestre anterior promete apontar para nunca vistos 10%. O consumo das famílias, principal componente do PIB, sob a ótica da demanda, recuou 2% no primeiro trimestre, o mais forte desde o apagão de energia em 2001, e promete registrar queda ainda acentuada, no segundo trimestre.

Dados já conhecidos do mês passado confirmam as projeções desse desastre. Em abril, a produção de veículos, por exemplo, importante índice do movimento da indústria, ficou, praticamente, em zero, enquanto as vendas no segmento, indicador de peso na evolução do varejo, encolheram 60%. No varejo em geral, as compras com cartão de crédito caíram quase 20%.

Não se deve descartar a hipótese de que o PIB de 2020 sofra contração nas vizinhanças dos dois dígitos. Ainda que alguma recuperação possa ocorrer no segundo semestre, reflexo de uma baixíssima base de comparação, o prolongamento da crise sanitária e a deterioração do ambiente político, esta última causada pela escalada beligerante do presidente Jair Bolsonaro em relação ao Judiciário e ao Legislativo, são fatores capazes de impactar muito negativamente a atividade econômica.

A paralisação abrupta da atividade na segunda quinzena de março afetou os números do primeiro trimestre. Os números trimestrais, por isso, não mostram bem como se encontrava o ritmo de atividades no primeiro quarto de 2020.

Não se pode esquecer que esse ritmo já vinha frio desde o último trimestre de 2019. A economia parecia ter adquirido mais impulso, entre setembro e outubro do ano passado, mas voltou a arrefecer no fim do ano e o PIB, com avanço de 0,5%, no quarto trimestre, frustrou as expectativas de uma recuperação mais vigorosa.

Resumindo, a atividade econômica voltou a andar no passo de um crescimento de 1% em 2020 até ser abalroada pelo coronavírus. O IBC-Br (Índice de Atividade Econômica), mensalmente calculado pelo Banco Central, já mostrava, em março, o efeito da parada repentina das cadeias de produção e vendas.

Com recuo de 5,9% em março sobre fevereiro, o IBC-Br refletia retração de 9,1% na indústria, de 13,7% no varejo ampliado (que inclui venda de automóveis e materiais de construção) e 6,9% nos serviços. Era um prenúncio com cores fortes do inaudito choque simultâneo de oferta e demanda causado pela pandemia.

José Paulo Kupfer