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Expectativa do BC de recuperação mais rápida da economia não é realista

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

23/06/2020 18h01

A ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária), publicada nesta terça-feira (23), não traz novidades em relação ao comunicado, mais enxuto, divulgado no encerramento do encontro, na quarta-feira da semana passada. Mas, no detalhamento dos pontos discutidos pelos diretores do Banco Central, para definir a nova taxa básica de juros, que vigorará até começo de agosto, apareceu a expectativa de que a recuperação da economia possa ser mais rápida do que o esperado.

Essa expectativa decorre dos imaginados impactos positivos de programas de estímulo ao crédito e de recomposição de renda de trabalhadores e empresas afetados pela paralisação das atividades com a pandemia. Tais programas, segundo esse raciocínio, teriam capacidade de compensar perdas de renda que poderiam contrair o consumo.

A verdade, porém, é que se trata de hipótese pouco realista. Já perto do fim do segundo trimestre, as perspectivas para o desempenho da economia continuam pouco animadoras. Nesta mesma terça-feira, a divulgação da arrecadação federal de tributos, referente ao mês de maio, mostrou queda, em termos reais, de 32,9%, na comparação com os números de maio de 2019.

Entre postergações de recebimento, inadimplências e simples efeito da retração dos negócios, o volume de receitas foi o mais baixo em uma década e meia. No acumulado do ano, o total da arrecadação federal, descontada a inflação, está quase 12% abaixo do recolhido nos primeiros cinco meses de 2019. A tendência é de piora nessa base de comparação.

São pelo menos dois os argumentos que sustentam a suposição de que a recuperação será lenta e frágil. O primeiro deles foi levantado na própria ata do Copom e chama a atenção tanto para a expectativa de queda acentuada na atividade econômica, aumentando a ociosidade na economia, quanto para o fato de que os altos índices de incerteza vigentes promoveram um aumento da chamada "poupança precaucional" - que reflete situações em que as pessoas preferem guardar dinheiro a consumir, com medo do futuro.

Quanto à possibilidade de recuperação mais rápida, com base nos programas de estímulo a crédito e sustentação de renda, essa expectativa depende, preliminarmente, da chegada dos recursos aos destinatários. Levantamentos da IFI (Instituição Fiscal Independente), órgão vinculado ao Senado Federal, mostram, no entanto, que a execução pelo governo dos recursos destinados está sendo, para dizer o mínimo, precária.

Do total de dinheiro mobilizado, pouco mais de R$ 400 bilhões, passados três meses do início da pandemia, apenas um terço já chegou aos beneficiários. Tanto o auxílio a vulneráveis quanto o financiamento das folhas de pagamento, por exemplo, a liberação de recursos chegou, até agora, à metade do montante destinado.

Se as primeiras projeções para a queda da atividade econômica, no segundo trimestre, dão mostras agora de algum exagero, as previsões mais recentes não trazem muito alívio. Conhecidos os principais números da economia em abril, e os primeiros resultados de maio, será difícil escapar da constatação de que o desempenho econômico, no período abril-junho, expressará o maior mergulho trimestral em pelo menos mais de 100 anos. Não chegará ao recuo de 15% antes previsto, mas não restam dúvidas de que rondará os dois dígitos.

Com a ampliação do relaxamento das medidas de isolamento pessoal, para conter o contágio da Covid-19, ainda em meio ao crescimento do número de infectados e mortos, crescem as evidências de que a atividade econômica passará por períodos mais longos e intermitentes de "soluços", com novas tentativas de fechamento, antes de ser conseguir um controle efetivo da propagação do novo coronavírus. O resultado tenderá a produzir baixa taxa de recuperação econômica por um período mais prolongado.

Projeções atualizadas convergem para queda do PIB (Produto Interno Bruto), no conjunto de 2020, em torno de 8%, com recuperação não superior a 3%, em 2021. Se essas previsões se confirmarem, a economia terá, no fim do ano que vem, o tamanho que tinha em 2018.

José Paulo Kupfer