PUBLICIDADE
IPCA
0,26 Jun.2020
Topo

Recuperação prevista por Guedes em "V", para analistas será em "U"

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

26/06/2020 18h15

O ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a lançar mensagens otimistas fora da realidade sobre a economia brasileira nesta quinta-feira (25). Desta vez foi no programa semanal ao vivo do presidente Jair Bolsonaro, nas redes sociais. Guedes, que costuma se entusiasmar com a própria voz, previu uma recuperação em "V" da economia e declarou que "o Brasil vai surpreender o mundo".

Exceto o próprio Guedes, não é possível encontrar ninguém, com um mínimo de capacidade de analisar tendências econômicas, mantendo expectativas de recuperação em "V" para a economia brasileira. Recuperação em "V" significa que, depois de uma queda forte, a atividade econômica retorna, ou mesmo supera, rapidamente o nível imediatamente pré-queda. É mais provável que a atividade econômica brasileira apresente uma recuperação em "U", demorando pelo menos dois anos para voltar ao nível existente antes da pandemia.

Quanto às surpresas que o Brasil pode oferecer ao mundo, em relação à evolução de sua economia, elas, até o momento, aparecem sim, mas pelo lado negativo. Tanto o mergulho da atividade quanto a demora na volta aos níveis pré-pandemia estão entre os maiores no conjunto dos países, nas projeções da maioria dos analistas.

Essa perspectiva nada animadora está em linha com a alta incidência de infectados e demora em conter as curvas do contágio de Covid-19 no Brasil, estimadas por especialistas brasileiros e do exterior também entre as maiores no mundo. A piora mais recente nas previsões para a economia se apoia justamente nessa perspectiva de ausência de controle do contágio, ocasionando períodos mais longos de abertura intermitente dos negócios.

Das diferentes projeções para a evolução da economia em 2020 e 2021, as mais otimistas são as do Ministério da Economia. Os técnicos do governo, no momento, estão prevendo uma contração de 4,7% no PIB (Produto Interno Bruto) deste ano, enquanto até mesmo o Banco Central prevê um recuo de 6,4% em 2020.

Economistas do mercado financeiro, de acordo com a mediana do Boletim Focus, estimam recuo de 6,5% em 2020 e expansão de 3,5%, em 2021. Departamentos econômicos de bancos e consultorias estão prevendo retração entre 5% e 7,5%, neste ano. Organismos multilaterais, como o FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial, com revisões mais recentes, estão projetando quedas de 9,1% e 8%, respectivamente, para 2020, e crescimento de 3,5%, em 2021.

A ampla variação em relação ao ritmo da marcha da economia em 2020 é um ponto em favor dos argumentos de Guedes, segundos quais "a economia, assim como o vírus, é um organismo vivo, e ninguém tem a resposta de como vai evoluir". A comparação com o vírus faz sentido, na medida em que o choque simultâneo de oferta e demanda, causado pela Covid-19, é inédito, e, por isso, traz incertezas sobre os movimentos econômicos.

Há, porém, convergência quanto ao crescimento previsto para 2021 e a duração de tempo até que a economia volte aos níveis pré-pandemia. Com queda nas vizinhanças de 7% este ano e crescimento de 3,5%, em 2021, o PIB ainda estaria 3,8% abaixo do volume de 2019. E precisaria crescer pelo menos 4% para voltar ao ponto anterior à pandemia, em 2022. A recuperação prevista para a economia brasileira pela maioria dos analistas teria a forma de "U".

Guedes diz não acreditar em previsões econômicas, mas não cansa de espalhá-las. No mesmo programa de Bolsonaro, para refutar as projeções mais pessimistas, em relação o desempenho da economia, o ministro mencionou informações do seu ministério sobre o consumo de energia. De acordo com Guedes, esse consumo estaria "apenas" 4% menor, comparação dos primeiros 20 dias de junho deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Para Guedes, isso significaria uma redução de atividade menor do que a alardeada. Aqui, no entanto, o ministro incorre no mesmo erro que ele próprio atribui aos que projetam queda forte do PIB em 2020. Está chutando.

Para começar, o "organismo vivo" da economia pode ter registrado um suspiro de menor retração nesse período específico. Além disso, é incorreto não filtrar, por exemplo, efeitos sazonais ou mudanças no comportamento do consumidor, na análise de um indicador antecedente, como o citado por Guedes.

Análises parciais, em tom fanfarrão, típicas do ministro, não escaparam dessa aparição de Guedes com Bolsonaro. Numa delas, Guedes anunciou futuras reduções do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), com o que o preço de eletrodomésticos e outros produtos "vão desabar".

Tal profecia, na verdade, ficará à espera da comprovação na vida real, caso a medida seja adotada. Vários governos já recorreram a cortes de impostos, em especial do IPI, para incentivar produção e vendas de manufaturados. Mas não basta cortar impostos para que a desejada redução de preços ocorra. A última que recorreu ao artifício, e em grande intensidade, foi a ex-presidente Dilma Rousseff, com resultados decepcionantes.

É que, no Brasil, os impostos são cobrados "por dentro", ou seja, vão embutidos nos preços finais dos produtos. Assim, não é possível saber o que teria sido feito ao longo da cadeia de produção até a venda no comércio com a redução do tributo e qual o impacto sobre o preço final do produto.

O corte pode ter sido usado para aumentar a margem de fabricantes e vendedores ou para reduzir perdas, dependendo da situação do mercado e da demanda pelos produtos. Com demanda em alta, os fabricantes e vendedores podem, simplesmente, manter os preços (ou até aumentá-los) e se apropriar do ganho permitido pela redução do imposto.

Já quando a demanda está em baixa, o corte do tributo assegura, antes de mais nada, menores perdas de margem no recuo dos preços finais. No fim do processo, em relação aos preços no varejo, o determinante será mesmo o nível de procura pelos produtos.

José Paulo Kupfer