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BC avalia que fim do auxílio emergencial terá impacto negativo no consumo

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

24/09/2020 16h47

Tanto ou mais do que a revisão das projeções para grandes agregados econômicos, os RTIs (Relatórios Trimestrais de Inflação), produzidos pelo Banco Central, em cumprimento dos protocolos do sistema de metas de inflação, apresentam interessantes "boxes" com exercícios analíticos sobre o comportamento de variáveis econômicas. No documento de setembro, referente ao terceiro trimestre de 2020, divulgado nesta quinta-feira (24), dois desses estudos se preocuparam em avaliar impactos no consumo do auxílio emergencial e do destino da renda, em meio à pandemia de Covid-19.

No plano mais geral, o documento traz uma reavaliação das projeções do BC para o comportamento da atividade econômica e da variação da inflação em 2020 e 2021. Baseado em expectativas de crescimento mais forte no terceiro trimestre, com algum arrefecimento no último terço do ano, o BC melhorou sua previsão para o crescimento econômico em 2020, de uma contração de 6,4%, estimada no RTI do segundo trimestre, para uma queda de 5%. Com isso, aproximou-se das projeções do ministério da Economia (queda de 4,7%) e dos analistas do Boletim Focus (recuo de 5,05%).

Para 2021, o BC projeta uma expansão da economia de 3,9%, mais forte do que a prevista pelo ministério da Economia, que é de avanço de 3,2%, enquanto, no Focus, a estimativa é de alta de 3,5%. As projeções para o ano que vem refletem as bases de comparação, determinadas pelas estimativas de variação do PIB (Produto Interno Bruto) do ano anterior.

Interessado em capturar os movimentos do consumo, a partir dos efeitos do auxílio emergencial, o BC promoveu duas investigações especiais, relatadas no relatório de inflação. Num deles, mediu os efeitos do auxílio nas compras no varejo com o uso de cartões de débitos, uma base de informação com dados mais detalhados disponíveis. A conclusão é a de que a parcela de poupança remanescente será pequena, o que, caso se confirmem os resultados encontrados, o fim do benefício pode contribuir para desacelerar o consumo.

Em outro "box" do RTI, o BC investiga os efeitos da pandemia e do auxílio emergencial em diferentes estratos de renda, com base na utilização de cartões de crédito e pagamento de boletos. O estudo verifica que houve queda mais acentuada e está ocorrendo recuperação mais lenta nos grupos de maior renda. No quartil de renda mais alta, grupo com renda média mensal pouco inferior a R$ 15 mil, os gastos com cartão, em abril, encolheram 40%, em relação a janeiro, e ainda estão 20% abaixo daquele existente no primeiro mês do ano. Nas faixas inferiores, cuja renda média é perto de R$ 950 mensais, os gastos com cartão de crédito recuaram 20%, na comparação de abril com janeiro, mas não só já voltaram aos níveis do início do ano, como já os superaram.

Uma interessante tabela mostra o total de gastos com cartão de crédito à vista, entre janeiro e julho, assim como o total de pagamentos de boletos, no mesmo período. Em janeiro, os gastos com cartão somaram R$ 96,6 bilhões, recuando para R$ 84,9 bilhões, em julho, correspondendo a uma perda de 13%. No caso dos boletos, os gastos em janeiro alcançaram R$ 47,6 bilhões, avançando em julho para R$ 48,7, um aumento de 2,3%.

O BC nota, porém, que esse grupo responde por apenas 30% dos gastos com cartão, o que acaba impondo limites à recuperação. Observa também que, nos locais onde o contágio de Covid-19 foi mais acentuado e abrangente, o consumo teve queda maior e o retorno está sendo mais lento.

O BC observa que, nos locais onde o contágio de Covid-19 foi mais disseminado e os isolamentos sociais mais fortes, o consumo teve queda maior e o retorno está sendo mais lento. Tudo considerado, o BC desconfia que o eventual fim do auxílio emergencial terá impacto relevante e negativo nos consumo das famílias e no ritmo de recuperação da economia

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.