PUBLICIDADE
IPCA
1,35% Dez.2020
Topo

José Paulo Kupfer

Desorganização faz Brasil aumentar importação dos produtos que mais exporta

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

16/12/2020 04h00

O Brasil é um dos maiores exportadores mundiais de commodities agrícolas, produtos vendidos por tonelada, e com preços fixados em bolsas internacionais. O país é o maior exportador mundial de soja em grão, ficando em segundo lugar nas vendas ao exterior de farelo e óleo de soja. Também é grande exportador de milho, chegando com o produto a quase cem países.

Mas agora, em 2020, o Brasil avançou entre os importadores desses mesmos produtos. Análise de pesquisadores do Ibre-FGV (Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas), chama a atenção para o aumento das compras externas de soja, óleo de soja, algodão e arroz. Os mesmos produtos que aparecem com destaque na pauta exportadora brasileira puxam agora as importações.

Só em novembro, o volume importado de óleo de soja subiu 1.250%, na comparação com novembro do ano passado. No conjunto de janeiro a novembro, esse aumento bateu em 400%, na mesma base de comparação.

O arroz, cujo preço que andou assustando consumidores, a partir do segundo semestre, também não fez feio entre os itens importados em 2020. Em novembro, por exemplo, as compras de arroz no exterior aumentaram quase três vezes, em relação a novembro de 2019. Junto com esses, outros campeões brasileiros de vendas externas, caso do milho, da carne bovina, do fumo em folha e do couro, também estão contribuindo para engordar as importações.

Trata-se de uma reação ao desvio da produção para o exterior, na onda de uma cotação do dólar mais atraente. A prova é que, de janeiro a novembro, as exportações brasileiras de arroz subiram quase 50% sobre o volume vendido ao exterior, no mesmo período do ano passado.

O fenômeno que tornou o Brasil grande importador das mesmas coisas que tradicionalmente exporta em quantidade expõe desequilíbrios na atividade econômica. Revela também um governo com dificuldade de planejar e prever eventos de mercado, sem aptidão para pelo menos suavizar instabilidades.

Quando a demanda por produtos da cesta básica ganhou tração com o auxílio emergencial, um programa que injetou mais de R$ 300 bilhões de reais na economia, alcançando mais de 65 milhões de pessoas, cerca de um terço da população total, o país não dispunha de mecanismos, como estoques reguladores, para evitar desajustes anormais entre oferta e procura.

Em nome da necessidade de cortar gastos, na prática, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) opera cada vez mais parcelas menores dos estoques públicos em seus armazéns. Estes vivem um já longo processo de desativação e deterioração, com vistas à privatização. A verdade é que, diferentemente de outros países exportadores de grãos que, na pandemia, reforçaram seus estoques reguladores, o Brasil deixou o abastecimento interno sem cobertura.

Disso resultaram desequilíbrios de grande porte em diversos mercados. Os desarranjos produzem pressões sobre os preços que chegam ao consumidor, disseminando a inflação. Mas os prejuízos vão muito além. As altas de preços estreitam o acesso dos mais pobres aos produtos, ampliando os riscos de que maiores parcelas da população se vejam diante do espectro da insegurança alimentar e da fome.

O número de brasileiros em situação de fome chegou a seu nível mínimo histórico em 2013, último ano antes da grande recessão de 2014 a 2016, da qual até agora, quatro anos depois, acumulando baixo crescimento, a economia ainda não se recuperou. Eram, então, 7 milhões de brasileiros em situação de insegurança alimentar grave - ou seja, a incerteza sobre se haveria um prato de comida amanhã vinha acompanhada da certeza de que esse prato não teria a quantidade suficiente de nutrientes.

Nos cinco anos seguintes, três milhões de pessoas voltaram ao espectro da fome, somando, em 2018, mais de 10 milhões de cidadãos. Metade deles se encontravam no Nordeste, metade fazia parte de famílias chefiadas por mulheres. Das crianças brasileiras até cinco anos, também metade compõe o grupo de risco da fome. Falar em melhoria da qualidade da educação, aumento da produtividade e em crescimento econômico quando metade das crianças de um país corre o risco de passar fome não passa de uma perversa ironia.

O auxílio emergencial de R$ 600 mensais interrompeu, temporariamente, a escalada da pobreza e da fome, mesmo com a alta dos preços dos alimentos que, no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), chegará perto de 20% este ano. Mas a redução do auxílio pela metade, no último trimestre do ano, já começou a reverter o quadro de redução da pobreza extrema, e a falta de uma renda básica em 2021, em combinação com os desequilíbrios na oferta de alimentos e a alta dos preços dos alimentos, tenderá a agravar esse quadro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.