PUBLICIDADE
IPCA
1,35% Dez.2020
Topo

José Paulo Kupfer

Caos nos programas de vacinação é culpa direta do governo Bolsonaro

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

04/01/2021 14h44

A corrida pela vacinação em massa contra a Covid-19 pegou o Brasil desprevenido. Mesmo que já tivesse uma definição clara sobre as vacinas à disposição, bem como sobre o início do processo de vacinação da população, não há conjuntos de seringas e agulhas em quantidade suficiente para a imunização da população.

Pegar o Brasil desprevenido é modo de dizer. Como não faltaram alertas e consultas às autoridades para a necessidade de providenciar equipamentos necessários à aplicação dos imunizantes, o que faltou mesmo ao governo brasileiro foram interesse e organização.

Seria apenas um vexame internacional se a incúria do governo Bolsonaro não potencializasse aumento dramático dos casos de infecção e de mortes por Covid-19. Mas o que se poderia esperar de um governo em que seu comandante, o presidente Jair Bolsonaro, faz campanha contra a vacinação e despreza as terríveis consequências da doença?

A portaria do Ministério da Economia que, no último dia de 2020, restringiu a exportação de seringas e agulhas é a prova do descalabro que domina hoje a administração pública federal. É uma decisão correta, que vem na esteira de uma luz vermelha acesa com a falta de seringas, mas que não terá efeito prático significativo na oferta de equipamentos para vacinação.

No apagar das luzes de 2020, com perto de 200 mil mortos e quase 8 milhões de infectados, o ministério da Saúde havia lançado um pregão público para compras de seringas. Não obteve resposta, contudo, para mais de 2,5% dos 330 milhões de conjuntos de seringas e agulhas previstos no plano de vacinação - um plano sem vacina e sem data de início - enviado ao STF (Supremo Tribunal Federal), por exigência da ministra Cármen Lúcia.

Restringir a venda ao exterior de conjuntos traz contribuição muito modesta ao esforço de vacinação. As exportações de seringas e agulhas não desviam mais do que 10% da produção nacional. A atual capacidade local de produção é insuficiente para atender à demanda, no ritmo exigido pela vacinação em massa. Logo, além de um plano firme de importação, o governo deveria editar uma diretriz clara e objetiva de compras governamentais, para estimular a indústria local a ampliar sua capacidade produtiva.

Não é preciso pedir para que se adivinhe se uma e outra providência foram tomadas. A resposta é um inexplicável não. Pior, o ministério da Economia consultou o da Saúde, ainda em junho, sobre a intenção de importar seringas. Não veio resposta até os últimos dias do ano - incrível!

Não há nada mais dramático do que o descaso oficial com a pandemia, mas a desorganização que hoje impera no governo Bolsonaro também se apresenta em outras áreas. O caso mais notório é o da explosão de preços em alimentos, muitos dos quais o país é grande exportador mundial.

Mesmo sendo o maior exportador de soja em grão e o segundo em derivados, o preço dos produtos, notadamente o óleo, chegou a atingir altas superiores a 50% no ano. Idem no caso do arroz, em que os volumes de exportação aumentaram à medida em que os preços subiam no mercado interno.

No acumulado de 2020, os alimentos registraram alta próxima de 20%. O resultado, que restringiu o acesso dos mais pobres à cesta básica, contribuindo para elevar a insegurança alimentar e os riscos de fome, se deve, em boa medida, à inação do governo. Primeiro, foi incapaz de, a exemplo de outros países, promover estoques reguladores. Depois, além de não barrar exportações, demorou a facilitar importações.

No começo da pandemia, Bolsonaro preocupou-se com as medidas de distanciamento e as restrições ao funcionamento dos negócios. Dizia que a cura não podia ser pior do que a doença. Com o passar do tempo, desprezou a doença e não conseguiu - na verdade não quis - que seu governo providenciasse a cura. No pior dos mundos, manteve a economia afundada, enquanto o país acumulava mortos e doentes.

Não se prevê, infelizmente, nada muito melhor para 2021, um ano depois da instalação da pandemia. Quanto mais a vacinação atrasar e seu ritmo não superar o da transmissão de casos, mais mortos e infectados se somarão às estatísticas. E também menos recuperação econômica, uma vez que, com imunização atrasada e precária, mais as atividades econômicas terão de ser interrompidas. Vide, entre tantos exemplos, a recente situação de caos em Manaus, que acabou determinando um lockdown severo, na capital amazonense.

É inegável que o caos se instalou nos procedimentos para oferta de vacinas e na vacinação. Tanto é inegável que o setor privado vislumbrou uma janela para trazer vacinas, à margem da ação do governo, para oferecer ao público com capacidade de pagar pela imunização. Associações de clínicas de vacinação anunciam a intenção de trazer 5 milhões de doses de uma vacina indiana, cuja eficácia também ainda não está inteiramente validada.

Não será exagero, nem radicalismo, classificar a inação do governo, assim como sua desorganização e incompetência, como criminosa. Antes de tudo, mais vidas, e em grande número, serão perdidas. Além das perdas irreparáveis, cidadãos com sequelas não só pressionarão os sistemas de saúde, como, muito mais grave e lamentável, carregarão, talvez pelo resto da vida, comorbidades adquiridas com a Covid-19. Tudo considerado, é uma conta impagável que recairá sobre o governo Bolsonaro.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.