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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

PIB cai menos, mas "estado de recessão" na economia permanece em 2021

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

03/03/2021 11h49

Os impactos da pandemia da covid-19, em combinação com o auxílio emergencial de valor elevado e amplo alcance, estão na base do comportamento da economia brasileira, em 2020. A queda de 4,1% foi a metade da projetada no fim do primeiro semestre, quando a atividade econômica desabara mais de 10%.

Depois de conhecidos os dados do ano passado, divulgados nesta quarta-feira (3) pelo IBGE, pode-se projetar a permanência, em 2021, de um "estado de recessão" que, a rigor, já se mantém por mais de uma década. Ao fim de 2020, a economia ainda se encontrava mais de 4% abaixo do valor registrado antes da retração de 2014-2016. Tudo indica que, no término de 2021, de acordo com as previsões mais atualizadas, não terá superado aquele pico, somando nove anos de economia em baixa.

Há consenso de que o auxílio emergencial, inicialmente de R$ 600 mensais e depois de R$ 300, que alcançou 65 milhões de pessoas, em combinação com programas de sustentação de emprego e empresas, foi o principal responsável pelo resultado relativamente melhor do que o esperado em meados de 2020. O recuo do PIB acabou sendo menor do que o observado na maior parte dos países, considerando economias maduras e emergentes, muitos das quais apresentaram contrações entre 8% e 10%.

À luz do ritmo de evolução da atividade no fim do ano passado, economistas calculam que o carregamento estatístico do PIB de 2020 para 2021 ficará em torno de 3,5%. Isso significa que, se a economia andasse de lado, estagnada, a cada trimestre deste novo ano, o PIB, no conjunto do ano, avançaria 3,5%. Mas as previsões, em média, estão indicando, neste momento, expansão de 3,2%, abaixo do impulso herdado de 2020, e muitos analistas já trabalham com evolução mais próxima de 2,5%.

Isso quer dizer que se espera retração da atividade, com quase certeza no primeiro trimestre e com crescente suspeita de que ocorra também no trimestre seguinte. Na base dessas previsões está o descontrole da pandemia no começo de 2021, e os atrasos na obtenção de vacinas.

Com a aceleração do contágio, os sistemas de saúde estão entrando em colapso em todo o país, com a consequente paralisação de atividades, por decretação de lockdowns pelos governos estaduais e municipais ou por decisão voluntária de pessoas. Atrasos na vacinação, num processo crucial para liberar a economia, desastrosamente conduzido pelo governo, acentuam as perspectivas de retração econômica. Confirmada a variação do PIB abaixo de 3%, o "estado de recessão", instalado na saída da grande contração do período 2014-2016, ainda não terá sido superado, na entrada de 2022.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL