PUBLICIDADE
IPCA
+0,83 Mai.2021
Topo

José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Guedes anuncia novas ideias que não param de pé e tira o corpo de erros

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

24/05/2021 16h49

Abrir microfones para o ministro da Economia, Paulo Guedes, é se preparar para declarações contraditórias, divulgação de ideias tecnicamente frágeis, e fanfarronices. Não foi diferente na entrevista aos jornalistas Alexa Salomão e Bernardo Caram, da Folha, publicada nesta segunda-feira (24).

Guedes lamenta, por exemplo, que a campanha eleitoral de 2022 já tenha começado. Mas, apesar de lamentar a campanha precoce, anuncia que, agora que a eleição está aí, "vamos para o ataque".

Esse "ataque" virá com programas de inclusão e qualificação profissional já anunciados, mas que ainda não saíram do papel. E também com uma nova política social, sustentada por um fundo que seria formado com recursos de privatizações e de dividendos de estatais. Pela falta de base técnica ou desenho vago dos projetos anunciados, eles parecem candidatos a se juntar à vasta coleção de medidas que serão implantadas "na semana que vem".

Os programas de inclusão e qualificação são, por enquanto, siglas sonoras como BIP (Bônus de Inclusão Produtiva) e BIQ (Bônus de Incentivo à Qualificação). O BIP seria um auxílio, de R$ 300 mensais, com foco em jovens que nem estudam, nem trabalham, para incentivá-lo a procurar treinamento em empresas. No BIQ, a empresa que recebe o jovem do BIP, entraria com igual valor, mas ainda nem se sabe que incentiva ela teria para tanto.

Já a nova política social, talvez uma repaginação da também muito anunciada, mas jamais retirada da gaveta "Renda Brasil", começa com uma premissa básica furada. Segundo disse Guedes, na entrevista, os recursos para melhorar e ampliar o Bolsa Família, permitindo trocar o nome que, vinculado aos governos petistas, incomoda o presidente Jair Bolsonaro, viriam de privatizações e do lucro de estatais.

É o que economistas chamam, em "economês", de confundir estoque com fluxo. O dinheiro de privatizações destinado ao tal fundo é recurso que entra uma vez, formando um "estoque". Já seu uso será regular e permanente, um "fluxo".

Ainda que o que for aplicado no fundo social possa render em aplicações financeiras, sem novos aportes, ou bem a destinação a programas sociais será mínimo e, portanto, insuficiente, ou bem terá de haver outros e frequentes aportes, se não regulares. Resumindo, do que jeito como foi anunciado na entrevista, o "fundo de distribuição de riqueza", base do "capitalismo popular" trombeteado por Guedes, não para de pé.

Quanto aos programas de inclusão e qualificação profissionais, as incongruências continuam as de sempre. Guedes parece acreditar que o problema do desemprego é o custo da mão de obra - não a existência de capacidade de consumo para os bens e serviços oferecidos. Custos, obviamente, impactam os negócios, e cortá-los ou diluí-los permite ampliar as perspectivas de venda, pela redução de preços possível. Mas, sem o impulso de uma economia ativa e em expansão, nem de graça empresários contratarão trabalhadores. Para que mantê-los, ainda que a baixo custo, mas ociosos, assim como as máquinas?

Nisso e em outros trechos da entrevista, Guedes não deixou de ser o Guedes de sempre - aquele que alardeia conquistas inexistentes ou apenas promessas difíceis de concretizar. Segundo ele, o Brasil já surpreendeu o mundo no primeiro e no segundo anos do mandato de Bolsonaro e vai continuar surpreendendo no terceiro, este agora de 2021, com crescimento. Coerência aqui, mais uma vez, é zero.

De acordo com o ministro, o Brasil surpreendeu em 2020 porque a economia brasileira cedeu menos (4,1%) do que países maduros, como o Reino Unido (menos 9%) e França (menos 7%). Mas, ao propagandear que o Brasil crescerá em 2021, não se lembrou de que essa expansão deverá ser em ritmo menor do que a projetada para os países selecionados na comparação anterior.

Também fez confusão com números do emprego formal, coletados pelo Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), e da taxa geral de desemprego, medida pela Pnad (Pesquisa Nacional de Amostra de Domicílios) Contínua. Se o novo Caged aponta criação de 840 mil novas vagas de emprego com carteira assinada, no primeiro trimestre de 2021, a taxa de desemprego, no trimestre encerrado em fevereiro é recorde, com 14,5 milhões de desempregados.

Guedes não ressalvou também que o crescimento previsto para este ano, provavelmente, não será muito superior ao transbordamento estatístico para 2021 do resultado da aceleração de 2020. Essa aceleração foi sustentada por gastos com o auxílio emergencial e suporte a empresas que ele e o governo Bolsonaro relutaram em conceder nos valores que foram fixados pelo Congresso.

O ministro distribuiu culpas pelos erros graves no enfrentamento da pandemia de covid-19, que afetaram a economia, emulando o estilo de Bolsonaro de tirar o corpo fora das próprias responsabilidades. A negação em relação à segunda onda de covid-19, que desembocou na demora em retomar os auxílios emergenciais em 2021, por exemplo, foi culpa do ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que "nunca falou em segunda onda".

Mandetta deixou o cargo ainda em abril de 2020 e, é claro, não tem nada com o diagnóstico equivocado do ministério da Economia, pela palavra do secretário de Política Econômica, Adolfo Sachsida, emitido em meados de novembro, de acordo com o qual a probabilidade de uma segunda onda de covid-19 era "baixíssima".

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL