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José Paulo Kupfer

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

BC decide não estimular mais a economia e pode acelerar alta dos juros

José Paulo Kupfer

Jornalista profissional desde 1967, foi repórter, redator e exerceu cargos de chefia, ao longo de uma carreira de mais de 50 anos, nas principais publicações de São Paulo e Rio de Janeiro. Eleito “Jornalista Econômico de 2015” pelo Conselho Regional de Economia de São Paulo/Ordem dos Economistas do Brasil, é graduado em economia pela FEA-USP e integra o Grupo de Conjuntura da Fipe-USP. É colunista de economia desde 1999, com passagens pelos jornais Gazeta Mercantil, Estado de S. Paulo e O Globo e sites NoMinimo, iG e Poder 360.

16/06/2021 19h01

O Copom (Comitê de Política Monetária), colegiado que reúne os diretores do Banco Central, decidiu, em reunião nesta quarta-feira (16), não só promover uma terceira alta consecutiva de 0,75 ponto percentual na taxa básica de juros (taxa Selic), elevando-a a 4,25% nominais ao ano. Decidiu também acabar com o estímulo para impulsionar a atividade econômica, que vinha garantindo com juros mais baixos.

Como defendido por muitos analistas, o BC abandonou a estratégia de "normalização parcial" da política monetária (política de juros), adotada quando voltou a subir a taxa Selic, em março. Em "coponês", idioma peculiar usado nas comunicações do Copom, a "normalização parcial" significava que, mesmo com altas nos juros básicos, o BC tomaria o cuidado de manter política monetária "estimulativa" da atividade econômica.

"Neste momento, o cenário básico do Copom indica ser apropriada a normalização da taxa de juros para patamar considerado neutro", informa o comunicado publicado logo após o encerramento da reunião. "Esse ajuste é necessário para mitigar a disseminação dos atuais choques temporários sobre a inflação".

Com a "normalização completa" ou "neutra" da política monetária, como está no comunicado, a economia não terá a colaboração de juros básicos mais camaradas, incentivando, com financiamento teoricamente mais atraente, decisões de investimento e consumo. Restará, para tanto, numa visão simplificada, a política fiscal - nos tempos atuais, reforçada por auxílios emergenciais e programas de sustentação de empregos e empresas.

Ao "normalizar" a política de juros, o Copom indica que irá avançar, em cada reunião do Copom, na direção de uma taxa de juros de pelos menos 6,5% anuais - deixou em aberto até a possibilidade de aumentar no ritmo, para 1 ponto percentual, por exemplo, nas próximas decisões. O nível de 6,5% é onde o BC calcula se situar, atualmente, a chamada "taxa neutra", definida como a taxa de juros de equilíbrio, aquela que mantém a inflação estável em torno da meta e é consistente com o " PIB (Produto Interno Bruto) potencial" - ou seja, nível de atividade compatível com a melhor combinação dos fatores de produção existentes.

O movimento dos pregões nos mercados de ativos, ao longo do dia, indicava que a decisão do Copom já era esperada. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, recuou, e, no mercado cambial, a cotação do dólar, que chegou a descer abaixo de R$ 5, acabou fechando em alta, em razão do anúncio de que o Fed (Federal Reserve, banco central americano) deve aumentar as taxas de juros de referência nos Estados Unidos em fins de 2023,

O anúncio do Fed, que também realizou reunião de definição de juros nesta quarta-feira, só reforça a linha de ação adotada pelo BC brasileiro, no sentido de abrir um diferencial entre a taxa básica de juros doméstica e a externa. Mesmo considerando os riscos maiores do mercado brasileiro, quando a diferença de taxas de juros se amplia, o investimento no mercado brasileiro tende a oferecer ao investidor maiores oportunidades de ganhos. O movimento é chamado de "arbitragem de taxas".

Uma combinação de fatores explica a decisão de subir os juros Selic neste momento - e de manter um ritmo relativamente forte de altas nas próximas decisões. Em primeiríssimo lugar, ainda que o desemprego se mantenha em níveis altos, ajudando a moderar o consumo e a demanda, a inflação está em trajetória de elevação, rodando acima do teto do intervalo de tolerância do sistema de metas.

As projeções para a inflação no fim de 2020, medida pela variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), já superam o teto do limite de tolerância (5,25%), avançando para as vizinhanças de 6% - bem acima do fixado como centro da meta para 2021, de 3,75%. No caso da inflação de 2022, alvo de fato para o qual o BC assesta sua mira, as projeções também apontam para o teto da meta (centro em 3,5%; teto em 5%).

Controvérsias, como sempre, vão acompanhar a decisão do Copom. Ainda que não se negue a existência de pressões inflacionárias, muitas delas têm origem no lado dos custos - escassez de matérias-primas, custos de transportes etc. -, contra os quais a política de juros não seria tão eficaz quanto se entende que seja contra pressões de demanda.

No outro lado da moeda, seriam menores os riscos de uma Selic mais alta abortar um processo de recuperação. Se é verdade que segmentos econômicos vêm mostrando capacidade até surpreendente de adaptação às dificuldades criadas pela pandemia de covid-19, o setor de serviços, aquele de maior peso no PIB e na absorção de empregos, ainda está longe de recuperar o nível pré-pandemia. Para animar o setor, nesse caso específico, é mais a aceleração da vacinação do que uma Selic baixa que pode fazer diferença.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL