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Por que o mercado de dólar não abriu no horário e a Bolsa foi suspensa?

Mariana Bomfim

Do UOL, em São Paulo

O escândalo envolvendo o presidente Michel Temer na operação Lava Jato atingiu com força os mercados de dólar e de ações nesta quinta-feira (18). 

O dólar comercial é usado pelas empresas que exportam ou importam, e nas transações do governo com o exterior, e serve de referência para o dólar turismo, usado pelas pessoas em viagens.

Normalmente, as operações de compra e venda de dólar comercial costumam começar às 9h diariamente. Porém, hoje não foi registrada nenhuma negociação até por volta das 10h40.

Para entender por que isso aconteceu, é preciso esclarecer que existe o chamado mercado futuro e que ele é usado como referência para o mercado à vista.

No mercado futuro, empresas e investidores negociam contratos de compra e venda do dólar para uma data de vencimento no futuro, por um preço estabelecido agora. O objetivo é obter lucro ou evitar perdas, levando em conta as expectativas que têm para o futuro (se o dólar vai cair ou subir). Os contratos de dólar futuro são negociados na Bolsa de Valores. Já o dólar comercial é negociado por diversos bancos e instituições financeiras. 

Com a divulgação da delação da JBS, na véspera, a expectativa do mercado passou a ser de forte alta do dólar no futuro. Nesta manhã, o dólar futuro disparou e rapidamente atingiu 6%. Esse é o limite máximo estabelecido pela Bolsa; quando ele é atingido, o valor do dólar futuro é travado e não pode subir mais.

Quando essa trava foi acionada hoje, por exemplo, o dólar futuro estava no nível de R$ 3,325. Com o valor travado, não dava para saber se essa cotação refletia realmente a expectativa do mercado para o futuro, segundo o economista Alexandre Cabral. Era possível que a procura pela moeda estivesse muito mais alta e, portanto, o dólar na realidade valeria ainda mais.

Como o dólar futuro é referência para o dólar comercial à vista, e não era possível saber se a cotação no mercado futuro refletia a realidade, investidores preferiram não negociar no mercado à vista. Se o vendedor pedia um determinado valor pela moeda, o comprador não tinha como saber se o preço era justo. Na dúvida, acabava não comprando.

Voltando a operar

Às 10h30, a Bolsa de Valores anunciou que o limite máximo para o dólar futuro subiria de 6% para 9%.

Após essa mudança, os contratos de dólar futuro voltaram a ser negociados, com alta perto do limite. Com isso, o dólar comercial à vista também começou a ser negociado, com alta de mais de 8%.

'Circuit breaker'

A turbulência também atingiu a Bolsa brasileira. Os negócios foram interrompidos pouco depois da abertura, às 10h21, quando o Ibovespa, principal índice da Bolsa, caía 10,47%, a 60.470 pontos. Os negócios ficaram parados por 30 minutos e, quando voltaram, registravam queda de mais de 10%.

A suspensão dos negócios é um mecanismo chamado "circuit breaker". O mecanismo também é usado em outros mercados no mundo e serve para garantir proteção quando há grande instabilidade em momentos atípicos do mercado.

Aqui no Brasil, quando a queda da Bolsa atinge 10%, ela é paralisada por 30 minutos. Passado esse intervalo, os negócios são reabertos e o limite de queda passa a ser de 15%. Se a baixa chegar a 15%, a Bolsa para novamente, agora por uma hora. Após esse período, as operações são retomadas e o limite de baixa aumenta para 20%. Se o Ibovespa cai 20%, os mercados podem ser interrompidos por qualquer prazo definido pela Bolsa de Valores.

Bolsas internacionais

Algumas empresas brasileiras também têm ações listadas em Bolsas no exterior. Na Bolsa dos Estados Unidos, as ações dessas companhias despencavam antes mesmo da abertura das negociações, no chamado pré-mercado. 

O pré-mercado é o período que antecede a abertura da Bolsa, quando as negociações de compra e venda de ações são registradas, mas a venda e a compra em si ainda não são efetivamente realizadas.

Quando o mercado abriu, os papéis da Petrobras e da Vale registravam fortes quedas. 

A crise no país também afetou empresas europeias que têm negócios no Brasil. Também operavam em queda companhias como o grupo varejista francês Casino, dono do Pão de Açúcar, a Telefónica, dona da Vivo, a Telecom Italia, dona da Tim, a Volkswagen e a fabricante de bebidas ABInBev, dona da Ambev.

Áudio da JBS

Na noite de ontem, o jornal "O Globo" divulgou que Joesley Batista, um dos sócios da JBS, gravou uma conversa em que o presidente Michel Temer autoriza pagamentos para silenciar o ex-deputado Eduardo Cunha, preso desde outubro. Temer admite o encontro, mas nega a conversa.

A revelação agita o mercado porque, segundo especialistas, o governo foi fortemente abalado e a aprovação das reformas trabalhista e da Previdência no Congresso Nacional está em xeque. 

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