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Para ter um negócio, fazer o que ama é importante, mas só isso não basta

Alberto Ajzental

  • Getty Images/iStockphot/SteveAllenPhoto

Luiz acompanhava desde cedo sua mãe na cozinha. Quando voltava da escola, cursava o antigo primário pela manhã, sua mãe estava dando os últimos retoques no almoço que iria servir dali a alguns minutos. Ele subia numa cadeira e via sua mãe mexer nas panelas. Continuou os estudos e acabou se formando em Direito.

Alguns anos depois de formado e com carreira promissora em um grande escritório de advocacia, Luiz sentia que, mesmo bem-sucedido, faltava algo em sua vida. Como acabara de perder seu pai, percebeu que a vida era curta.

Seu passatempo favorito era visitar o Mercado Municipal e a seção de gastronomia nas livrarias e cozinhar para a família aos finais de semana. Com espírito independente, resolveu trocar o trabalho no escritório por empreender e se dedicar àquilo que sempre amou: a culinária. Pediu demissão do escritório e abriu um bistrô.

A atividade que adotamos como nosso passatempo, aquela que desfrutamos por prazer, pode, sim, ser a porta de entrada para o mundo dos negócios. Afinal, um dos fatores mais importantes para o sucesso de um empreendedor é fazer aquilo de que gosta - ter amor ajuda muito, até porque é inevitável que muitos obstáculos apareçam pela frente e, somente com muita determinação e persistência, é possível continuar na luta. Também porque é necessário conhecer o negócio em que se deseja atuar e, geralmente, quando gostamos de algo estamos atentos, envolvidos ou até somos grandes conhecedores do assunto. Assim, é um bom começo nos identificar com o futuro negócio.

Luiz, que amava cozinhar, procurou um ponto comercial, contratou arquiteto, engenheiro, fez reforma, comprou móveis, montou cozinha, abriu a empresa, criou uma marca com nome e logotipo, desenvolveu o cardápio, contratou funcionários. Na inauguração, chamou parentes e amigos. Estava realizado, muito feliz. No dia a dia, realizava as compras cedo de manhã, controlava o caixa, as contas a pagar, fazia banco e verificava questões contábeis e de tributos. Ele virou administrador, financeiro, gestor de RH e teve que contratar um chef, com quem no começo chegou até a discutir ingredientes e o cardápio, mas breve deixou de fazê-lo.

Com o tempo, percebeu que já não ia ao Mercado Municipal nem namorava livros de culinária nem tinha tempo para realizar as viagens de que tanto gostava e que havia deixado de cozinhar por prazer. Ele havia montado aquilo que achava ser o negócio da sua vida, mas teve que parar para repensar seu papel.

É importante entender sua posição dentro do negócio

Há inúmeros casos nos quais começamos o negócio levando em consideração nossas paixões, mas, com o tempo, pode ocorrer de nos distanciarmos da atividade específica de que gostamos para virar gestores. É importante saber que isso pode ocorrer, para não gerar frustrações. Não devemos perder de vista que ser o responsável principal pelo negócio pode forçá-lo a se dedicar a atividades outras que não somente àquelas sonhadas.

Há formas de se evitar esses problemas, como ter entendimento claro da equipe necessária, entender a sua posição dentro desta, saber montar a equipe e até recorrer à terceirização para os serviços em que não deseja se envolver. Mas não se deve esquecer que a responsabilidade final será sempre do empreendedor.

Negócios e ambiente de negócios são um assunto complexo e com muitas variáveis. Tenho como meta aqui avançar uma a uma, passo a passo, de forma calma e contínua, tal que eu possa apresentar, explicar, analisar e discutir com vocês cada passo que vamos dar daqui para frente. Hoje vimos aspirações do empreendedor, sua identidade com o negócio e cotidiano. No próximo texto vamos conversar sobre racional econômico.

Alberto Ajzental é engenheiro civil pela Poli-USP e mestre e doutor pela Eaesp-FGV. Foi e é professor de estratégia de negócios, marketing e de economia nas escolas ESPM-SP e Eesp-FGV. Autor dos livros A Construção de Plano de Negócios (Ed. Saraiva), História do Pensamento em Marketing (Ed. Saraiva) e Complexidade Aplicada à Economia (Ed. FGV).

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