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Finanças pessoais

Taxa básica de juros no Brasil nunca foi tão baixa. Isso é bom ou ruim?

João José Oliveira

do UOL, em São Paulo

23/07/2020 15h23

Resumo da notícia

  • Taxa básica de juros, a Selic, caiu de 14,25%, em agosto de 2016, para 2,25% até junho de 2020
  • Selic é usada pelo governo para calibrar o custo do dinheiro no país e controlar a inflação
  • Economistas dizem que Selic baixa é de forma geral positivo para economia do país

A taxa básica de juros, chamada Selic, nunca esteve tão baixa no Brasil. Era de 14,25% em agosto de 2016, quando começou a cair, até atingir 2,25% em junho último. Embora em outras economias desenvolvidas como a dos Estados Unidos ou da União Europeia essa taxa seja zero, o patamar atual é inédito para padrões brasileiros. Para comparara média dessa taxa nos últimos dez ano foi de 13%. E já houve momentos, como em 1997, que a Selic ela era de 45%.

Mas afinal, essa taxa básica de juros baixa é algo positivo ou negativo para as pessoas e as empresas? Veja abaixo o que respondem os economistas.

O que é a Selic?

A Selic é a taxa básica de juros da economia brasileira. É o principal instrumento do governo para controlar a inflação. Quem tem o mandato para decidir o valor desse índice é o Banco Central. A cada 45 dias os diretores dessa instituição se reúnem no Comitê de Política Monetária para analisar a economia e, a partir disso, definir a Selic.

O nome da taxa Selic vem da sigla do Sistema Especial de Liquidação e de Custódia. É nesse sistema que o Banco Central compra e vende os títulos públicos federais, aqueles que a pessoa pode adquirir no Tesouro Direto.

A Selic é então a taxa de juros praticada nessas operações entre as instituições financeiras que utilizam títulos públicos federais como garantia dos recursos que emprestam a clientes.

Selic é usada para controlar a inflação

Quando o Banco Central altera a Selic, os preços dos títulos do governo também mudam. Se a Selic cai, os bancos vão pagar menos pelos títulos do governo e, assim, poderão emprestar dinheiro a clientes com juros menores. Os empréstimos ficam mais baratos, o custo do crediário cai e isso estimula o consumo e a economia.

Da mesma forma, quando a Selic sobe, os bancos precisam gastar mais para pegar títulos do governo e isso é repassado, os empréstimos sobem, e as pessoas gastam menos. Com menos consumo, as empresas não conseguem aumentar preços de produtos e serviços e, assim, a inflação perde força.

Veja abaixo a trajetória da Selic quando a taxa começou a cair:

Vantagens da Selic baixa

"Considerando todos os fatores, ter uma Selic baixa tem mais pontos positivos que negativos", afirma o economista Fábio Astrauskas, professor e coordenador do Insper (Instituto de Ensino e Pesquisa) e CEO da consultoria Siegen.

Todos os países com economia e moeda fortes têm taxa de juros baixa.
Fábio Astrauskas, professor e coordenador do Insper

Estimula investimentos das empresas: Com juros baixos, as empresas gastam menos para tomar dinheiro emprestado e fazer investimentos - ampliando produção, contratando empregados.

"Quando a Selic é alta, o empresário vai preferir pegar o dinheiro do lucro e aplicar no banco para ganhar o rendimento dos títulos públicos sem correr risco. Já com juros a 2% ao ano, o empresário vai usar o lucro para ampliar a própria produção porque o negócio dele vai gerar um rendimento maior", afirma economista Rodrigo Marcatti, sócio-fundador da gestora de recursos Veedha Investimentos.

Diminui dívida do governo: A Selic baixa reduz o tamanho da dívida do governo. A dívida pública federal total é de R$ 4,2 trilhões. Desse bolo, R$ 1,7 trilhão, ou 38% do total, é corrigido pela Selic. Se a Selic cai, o governo paga menos juros e gasta menos.

"A Selic baixa reduz os gastos da dívida pública, sendo que quase 40% da dívida pública é corrigida pela Selic", a economista da Coface para América Latina, Patricia Krause.

Veja abaixo a composição da dívida pública por tipo de indexador.

Estimula o consumo: Juros baixos representam prestações do crediário mais suaves para o consumidor. Fica também mais fácil prever o tamanho das despesas. Isso favorece o consumo. Vendendo mais, as empresas produzem mais e, para produzir mais, contratam mais gente, e assim a roda da economia vai girando.

"Para a economia em geral, Selic baixa estimula o consumo via crédito, mesmo que os juros não caiam na ponta da mesma forma que a Selic", diz a economista-chefe do grupo financeiro Azimut, Helena Veronese.

Favorece a Bolsa: A Selic baixa reduz o ganho de aplicações de renda fixa como fundos DI, caderneta de Poupança e Tesouro Selic. Com o rendimento baixo nesses produtos, as pessoas preferem investir em ativos como ações. Com mais dinheiro indo para a Bolsa, as empresas têm uma fonte de recursos para projetos de expansão.

Selic baixa tem desvantagem?

Para os economistas, o ponto negativo da Selic baixa é o rendimento das aplicações de renda fixa, que sempre foram as preferidas dos brasileiros. Os fundos de renda fixa somam R$ 2,06 trilhões e a poupança outros R$ 925 bilhões, representando só essas duas modalidades mais de dois terços do que os brasileiros têm investido atualmente.

Mas os próprios especialistas destacam que o Brasil vivia uma anomalia: uma aplicação sem risco, com liquidez diária e com rendimento muito bom.

Taxa de juros baixa só é ruim para o rentista, que estava acostumado a aplicar o dinheiro sem correr risco de mercado e sem colocar o dinheiro para circular na economia real.
Rodrigo Marcatti, economista e sócio-fundador da Veehda Investimentos
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Mais informações

No site do Banco Central é possível encontrar mais informações sobre a Selic, o histórico da meta da Selic, além de dados diários sobre a taxa.

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