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Operação Carne Fraca

Mundo não tem opção e vai seguir comprando carne brasileira, diz entidade

Aiuri Rebello

Do UOL, em São Paulo

  • Leonardo Benassatto/Framephoto/Estadão Conteúdo

    Funcionário seleciona peça de boi em açougue na zona norte de São Paulo (SP). (20.mar.2017)

    Funcionário seleciona peça de boi em açougue na zona norte de São Paulo (SP). (20.mar.2017)

O mercado mundial simplesmente não tem opção e vai continuar comprando a carne brasileira assim que "passar o susto" causado pela Operação Carne Fraca. Com 40% do mercado mundial de frangos, cerca de 20% do de carne bovina e 13% do mercado de suínos, a participação do Brasil nas exportações de carnes mundo afora é simplesmente grande demais para ser substituída de maneira ágil.

Essa é a opinião de José Augusto de Castro, presidente da AEB (Associação de Comércio Exterior do Brasil), que congrega grandes exportadores brasileiros, incluindo frigoríficos. Apesar disso, a entidade estima que o impacto nas exportações brasileiras será de cerca de US$ 1 bilhão de prejuízo em 2017, até que a confiança seja retomada e a situação, normalizada.

A queda das exportações brasileiras de carne registradas pelo Ministério do Desenvolvimento foi abrupta: de uma média de US$ 63 milhões por dia para cerca de US$ 74 mil por dia, segundo números apresentados ao Palácio do Planalto. De acordo com a ABPA (Associação Brasileira de Proteína Animal), o prejuízo foi de US$ 130 milhões só na primeira semana da crise.

"Fora o Brasil, o mundo tem apenas mais dois grande produtores de carne bovina no mundo: Estados Unidos e Austrália", afirma Castro. "Os Estados Unidos têm um mercado interno muito forte e não têm como suprir a fatia brasileira. Já a Austrália teria que multiplicar muitas vezes a própria produção. Como criar um rebanho leva tempo, e as pessoas não vão deixar de comer carne, não há alternativa imediata ao produto brasileiro no curto e médio prazo", diz ele.

De acordo com o governo brasileiro, Chile e Egito retomaram as exportações de carne brasileira normalmente após alguns dias de restrições. No sábado (25), o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, anunciou que a China também iria retomar as exportações normalmente.

A JBS (Friboi e Seara), gigante do ramo que teve o nome envolvido no escândalo, disse nesta segunda-feira (27) que não pretende demitir nenhum dos 125 mil funcionários no Brasil, e que espera a normalização da produção em breve. Na quinta (23), a empresa anunciou que havia suspendido a produção de carne bovina em 33 de suas 36 unidades no país por três dias.

95% dos embutidos são para consumo interno

De acordo com a Associação de Comércio Exterior do Brasil, mesmo a criação de frangos --que crescem mais rápido que bois ou porcos, por exemplo -- não tem como ser suprida por outro exportador de uma hora para a outra.

"O maior problema na Operação Carne Fraca foi constatado na produção e fiscalização de embutidos, miúdos. Hora, pelo menos 95% de tudo que é produzido nessa área fica no mercado interno brasileiro, não é exportado. No final, assim que as coisas ficarem mais claras, os países vão suspender os embargos e voltar a comprar normalmente", acredita o presidente da entidade.

Em 2016, o Brasil exportou US$ 11,6 bilhões em carne suína, bovina e de frango. Para 2017, a expectativa da associação era que esse valor chegasse a mais de US$ 12,7 bilhões, mas a meta foi revista, em US$ 1 bilhão a menos, após a Operação Carne Fraca. "A forma como a operação foi anunciada foi um desastre, não tinha a menor necessidade disso", afirma Castro.

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O que foi dito sobre a operação

Na quinta-feira (23), o UOL revelou que a CGU apontava que fiscais do ministério da Agricultura no Paraná faziam vista grossa para irregularidades nos frigoríficos e deixaram de aplicar quase meio milhão de reais em multas no ano de 2014. 

A Polícia Federal produziu apenas um laudo técnico em uma das 21 empresas investigadas para embasar a Operação Carne Fraca, e usou informações de outro laudo de 2015, que faz parte de um processo administrativo do Ministério da Agricultura. O governo tinha conhecimento das suspeitas de fraude pelo menos desde outubro de 2015.

A APCF (Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais) divulgou nota afirmando que as conclusões da operação sobre os danos à saúde pública não têm embasamento científico. Segundo a entidade, os peritos federais foram acionados pela PF apenas uma vez durante as investigações e o laudo resultante desse trabalho não comprovou tais danos.

A equipe da PF que atua no caso defendeu a operação e disse que ainda há muito material sob sigilo. Apesar das críticas sobre a falta de laudos técnicos, o delegado defendeu a operação com base em outras provas da investigação, como escutas, depoimentos e quebras de sigilo bancário.

A Fenapef (Federação Nacional dos Policiais Federais) defendeu a atuação dos agentes federais, mas criticou a forma como as investigações foram divulgadas.

As empresas envolvidas, dentre elas algumas das maiores do ramo no país, como a BRF (dona das marcas Perdigão e Sadia) e a JBS (dona das marca Friboi e Seara), negam envolvimento nas irregularidades.

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