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O que é o spread bancário e o que ele tem a ver com os juros que você paga?

Juliana Elias

Do UOL, em São Paulo

2019-02-03T04:00:00

03/02/2019 04h00

Sempre que se fala em juros altos altos no Brasil, o spread bancário é mencionado. Mas afinal qual o significado de spread?

O spread é a diferença entre os juros que os bancos pagam quando você investe seu dinheiro e os juros que cobram quando você faz um empréstimo. "Eles captam dinheiro vendendo investimentos, pagando um determinado nível de juros, e depois emprestam esse dinheiro cobrando juros bem mais altos", disse Luiz Rabi, economista-chefe da Serasa Experian.

É como em qualquer outro negócio. Um supermercado, por exemplo, paga um preço quando compra seus produtos dos fornecedores e cobra outro quando os vende para os clientes. É dessa diferença que ele tira o dinheiro para cobrir seus custos, como frete e salários, e conseguir lucro.

Nos bancos é igual. A diferença é que o produto deles é o dinheiro, e o preço do dinheiro são os juros. O problema é que há pouca concorrência no setor bancário, faltam opções aos clientes e os juros cobrados ficam altos, dizem especialistas.

Capítulo 1 - O que dizem os bancos -e suas ideias polêmicas
- Bancos fazem livro para baixar juros, mas especialistas criticam
- O que é o spread bancário e o que ele tem a ver com os juros?
- Opinião: De quem é a responsabilidade pelos juros altos?

Capítulo 2 - O que se deve fazer para reduzir juros mesmo
- Para juros caírem de verdade, seria preciso haver concorrência e educação
- Vilão número 1 da inadimplência no Brasil são os juros

Capítulo 3 - A concentração bancária
- Sem concorrência, de cada R$ 10 depositados, R$ 8,50 ficam em só 5 bancos
- Entenda o que é verticalização e como ela afeta juros e preços
- A desverticalização está vindo aí

Capítulo 4 - Governo Bolsonaro e os bancos
- Guedes ataca concentração bancária, mas tema fica fora da meta de 100 dias
- Senado pede apuração de juros no Cade; Congresso tem projetos engavetados

Capítulo 5 - O efeito no bolso do consumidor
- O que os consumidores podem fazer para escapar dos juros altos?

Taxas de mais de 300%

Poupança e CDBs são alguns exemplos de fontes de recursos para os bancos: em novembro de 2018, segundo dados mais recentes do BC (Banco Central), a média dos juros pagos por eles em produtos como esses estava em 6,4% ao ano.

Na outra ponta, empréstimos para empresas e pessoas, financiamentos imobiliários e cartão de crédito são alguns dos vários tipos de crédito que os bancos fornecem. No mesmo período, os juros médios cobrados nessas operações estavam em 24,6% ao ano.

O spread é a diferença entre um (6,4%) e outro (24,6%). Então, o spread médio em novembro do ano passado foi de 18,2 pontos percentuais.

Mas essa diferença é só uma média e varia muito de acordo com o tipo de empréstimo e o tomador. Empréstimos para empresas, por exemplo, e em setores controlados, como o de financiamentos imobiliários, tendem a ter juros e spreads mais baixos.

Os recursos livres emprestados para pessoa física, na outra ponta, pagam mais: o spread médio deles foi de 43,2 pontos em novembro do ano passado, segundo o BC.

Em alguns casos, os juros praticados chegam a passar de 300% ao ano --caso do cheque especial para pessoa física (305,7% em novembro de 2018).

Para bancos, culpa é da inadimplência

Além do preço que o banco paga para "comprar" o dinheiro que vai emprestar --os juros de captação--, os juros finais que o cliente paga embutem outros quatro grandes custos. São eles que compõem o spread:

  • Despesas administrativas: Os gastos de operação, como segurança, agências, caixas eletrônicos, salários e outros serviços.
  • Tributos: Os impostos pagos pelos bancos.
  • Inadimplência: Créditos concedidos e não pagos pelos devedores.
  • Lucros: A remuneração do dono e acionistas do banco.

Segundo os bancos, a principal razão que puxa os juros e os spreads para cima é a inadimplência. "É um dinheiro que eles perdem", disse o economista Michael Viriato, coordenador do Laboratório de Finanças do Insper. "É como em uma distribuidora de energia ou uma faculdade: se alguns não pagam, a empresa sobe o preço de todos para cobrir o prejuízo."

Para especialistas, falta concorrência

Especialistas, porém, questionam outro ponto: a falta de concorrência. "Ela piorou muito", disse Rabi, da Serasa Experian. "Em 2005, os cinco maiores bancos detinham cerca de 60% das operações de crédito do país e hoje eles concentram 80%; isso aumenta o poder de oligopólio deles."

Pressão por menores margens de lucro, despesas administrativas mais racionais e, por fim, preços --juros, no caso-- mais baixos são algumas consequências que tendem a vir com uma concorrência mais ampla.

"Com mais competição, as empresas se veem obrigadas a oferecer serviços mais baratos, o que as estimula a gastar com mais eficiência e dá melhor produtividade para o setor como um todo", disse Viriato, do Insper.

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