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Desafio é lidar com pobreza sem piorar contas públicas, dizem especialistas

Do UOL, em São Paulo

12/05/2021 11h23Atualizada em 12/05/2021 15h59

O Brasil tem pela frente o desafio de lidar com uma multidão de pobres e desempregados, após a pandemia de covid-19, e adotar políticas públicas para resolver o problema sem agravar a questão das contas públicas, que já é delicada. É o que dizem especialistas que participaram do primeiro seminário UOL Líderes, nesta quarta-feira (12), transmitido ao vivo pelo UOL, com a mediação da colunista Carla Araújo.

Ana Paula Vescovi, economista-chefe do Santander, avalia que é "previsível" que, com a pandemia da covid-19, a desigualdade no país vai aumentar. Segundo ela, o país "precisa olhar para os mais pobres", e o governo deve reestruturar os programas sociais que já existem, incluindo o Bolsa Família. Com isso, seria possível aproveitar mais os recursos que já são usados para atender os mais vulneráveis.

O Brasil gasta R$ 150 bilhões só em assistência social, sem políticas extraordinárias da pandemia. É razoável, mas não tão efetivo quanto poderia ser. Caberia reestruturar programas, dando incentivo para qualificação, fazendo integração melhor dos programas, dando acesso prioritário à educação, equalizando o sistema público ao privado. Temos espaço, mas passa por muita gestão e liderança. (...) Seria uma reconstrução do Bolsa Família, ligado ao mercado de trabalho, à assistência básica e a programas que incentivem assistência educacional.
Ana Paula Vescovi

Vacinação e pobreza

A desigualdade também passa por desenvolvimento e aplicação da vacina, diz a economista do Santander.

Se tem algo previsível para acontecer como resultado da pandemia é o aumento da desigualdade. Basta entender que a saída da pandemia passa por desenvolvimento de tecnologia, que é vacina. Só tomando esse aspecto, vemos que o acesso à vacina vai ser desigual. E a gente vai colher frutos, de ter mais e mais pobres.
Ana Paula Vescovi

Segundo ela, a infraestrutura para os programas de assistência social já está montada, o que seria uma grande vantagem. "Se melhorar o desenho dos programas, temos condições de colher melhores resultados. Isso passa por reestruturação dos programas de assistência social. E já existem propostas efetivas para isso", afirmou.

Presidente da CNI defende papel do Estado

Robson Braga de Andrade, presidente da CNI (Confederação Nacional da Indústria), defendeu que o Estado deve ter o papel de induzir o desenvolvimento no Brasil. Para ele, o governo deve ser o "motor" dos investimentos, já que o setor privado não tem recursos ou crédito de longo prazo para cumprir essa função.

A economista-chefe do Santander, por outro lado, disse que esse tipo de política, com expansão dos gastos públicos, "já foi feita, e deu errado". Para Vescovi, a principal função dos governos deve ser desregulamentar o ambiente de negócios, promovendo ajustes e o equilíbrio das contas públicas.

Inspiração no plano Biden?

Em outro painel, o economista e diretor do Center of Macroeconomics and Development, em Washington (EUA), Otaviano Canuto, também apontou a necessidade de revisão dos programas sociais. Ele citou como inspiração o plano do presidente dos EUA, Joe Biden, para recuperar a economia norte-americana da crise da covid-19, no sentido de reforçar as políticas de proteção social.

Biden planeja despejar trilhões de dólares na economia norte-americana, em áreas como infraestrutura, energia limpa e educação.

Mas Canuto diz que o Brasil não pode reproduzir aqui esse tipo de política, baseada em ampliação maciça dos gastos públicos, porque tem condições fiscais muito diferentes. Além disso, a moeda norte-americana, o dólar, é considerada a reserva de valor mundial, enquanto a moeda brasileira não tem tanto peso nem atratividade no mundo.

Gosto da ideia do conteúdo do programa do Biden, no sentido de que no Brasil deveríamos já estar começando a repensar o arcabouço de proteção social, por causa das sequelas que a pandemia vai deixar. Mas achar que podemos fazer programas fiscais ambiciosos e volumosos como os norte-americanos é uma fantasia. O Brasil tem um ponto vulnerável no lado fiscal. A ideia de que você possa reproduzir a experiência norte-americana no Brasil me parece uma aventura extremamente arriscada, porque você pode entrar em uma trajetória explosiva entre prêmio de risco, juros e dívida pública.
Otaviano Canuto

'Auxílio não pode ser infinito'

David Beker, chefe de economia e estrategista do Bank of America no Brasil, também afirmou que o governo precisa pensar em alternativas para atender a população mais vulnerável depois da pandemia. Mas, para ele, não é "sustentável" manter benefícios como o auxílio emergencial por muito mais tempo, por causa dos problemas fiscais enfrentados pelo país.

Auxílios muito grandes e longos acabam gerando uma consequência fiscal. O que está em discussão nesse momento é que o Brasil não consegue absorver de forma permanente o auxílio, mas pode fazer uma modificação dos programas sociais existentes para atingir mais gente. (...) Existe a percepção de que, em termos fiscais, não há como sustentar um auxílio infinito.
David Beker

'Governo errou na saúde'

Segundo a consultora econômica Zeina Latif, "o maior erro" do governo durante a pandemia foi ter descuidado da saúde. Ela afirmou que a eficácia de qualquer política econômica é "muito baixa" quando não há segurança das pessoas na saúde.

Você socorre empresa, mas tem que fazer isolamento, porque não comprou vacina. O erro número um, o pecado original do governo, e não dá para responsabilizar o Ministério da Economia, é não ter cuidado da saúde. Agora estamos correndo atrás do prejuízo e tendo que pagar mais caro por vacinas, tendo que renovar políticas publicas que poderiam não ser necessárias.
Zeina Latif

Vacinação X eleições em 2022

O seminário UOL Líderes teve, ainda, um painel sobre lições e oportunidades para investimentos, com Natalie Victal, da Garde Asset Management, e Betina Roxo, estrategista-chefe da Rico Investimentos. Elas afirmaram que o avanço da vacinação contra a covid-19 deve contribuir para deixar o cenário econômico mais favorável, mas a eleição presidencial do ano que vem deve adicionar incertezas.

O cenário doméstico tende a ficar menos turbulento. Ainda estamos na pandemia, mas quando se olha para a frente, vê-se uma perspectiva positiva para o segundo semestre do ano, com tendência de crescimento robusto. Temos diminuição de risco da pandemia pela vacinação, e experiências internacionais respaldam isso, com imagens animadoras. Ao mesmo tempo, temos incerteza no ano que vem, relacionada à eleição. A arte é saber como operar nesse cenário.
Natalie Victal