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Afinal, vai haver greve de caminhoneiros na segunda? Veja o que se sabe

Daniele Dutra/UOL
Imagem: Daniele Dutra/UOL

Vinícius de Oliveira

Colaboração para o UOL, em São Paulo

30/10/2021 04h00

Está marcada para a próxima segunda-feira (1º) uma nova paralisação dos caminhoneiros autônomos. Descontentes com os aumentos dos combustíveis e com as propostas do governo para o setor, motoristas profissionais prometem parar e não descartam fechar parcialmente as rodovias na véspera do feriado de Finados.

A perspectiva de greve preocupa porque, em 2018, quando a categoria parou por dez dias, diversas cidades tiveram problemas de abastecimento de produtos essenciais, como combustíveis e alimentos. Na ocasião, o movimento só começou a perder força após um acordo entre o governo e representantes da categoria, para baixar o preço do diesel.

Lideranças dos caminhoneiros autônomos garantem que a adesão à greve do dia 1º será alta, devido à política de preços adotada pela Petrobras no governo de Michel Temer (MB), que reajusta o preço dos combustíveis conforme a variação do dólar e do petróleo no mercado internacional.

Mas não é possível dizer qual será o tamanho da greve pelo Brasil porque os caminhoneiros são uma categoria descentralizada, que não necessariamente responde às convocações de lideranças e entidades. Em estados como Piauí, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, lideranças disseram que seus afiliados não vão parar.

De 2018 para cá, já houve outras tentativas de greve. Segundo o ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, foram 18 convocações de greve por parte dos caminhoneiros autônomos desde então. Nenhuma teve grande adesão ou disseminação pelo país.

Na sexta-feira (29), às vésperas da greve, estados e Distrito Federal congelaram o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) dos combustíveis por 90 dias. Autônomos criticaram a medida, dizendo que ela é "paliativa" e não resolve os problemas apontados por eles.

Quem diz que a greve será grande

Marconi França, líder dos caminhoneiros no Recife, disse ao UOL que a adesão está "animadora".

Há pessoas que na última chamada eram contra, mas que agora estão parando por causa da dor. Eles estão vendo que não dá mais para continuar rodando. Está crescendo bastante o movimento.
Marconi França, líder dos caminhoneiros no Recife

Ninguém está aguentando mais. A categoria resolveu parar e pedir para o presidente da República mudar a política de preços [da Petrobras]. Está forte o movimento. Não tem mais como a gente trabalhar com o frete em real e o combustível sendo reajustado em dólar. É uma reivindicação que todos fechamos, em comum acordo, e não vamos abrir mão.
José Roberto Stringasci, da ANTB (Associação Nacional de Transporte do Brasil)

Na quinta-feira (28), aproximadamente 60 lideranças dos caminhoneiros participaram de uma audiência pública promovida pela Frente Parlamentar Mista do Caminhoneiro Autônomo e Celetista. Dentre elas, estavam a CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transportes e Logística), que tem mais de 40 mil associados, e o Sindicam (Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens da Baixada Santista e Vale do Ribeira). Ambas as entidades vão aderir à paralisação.

A orientação é uma manifestação pacífica, mas não está descartado o bloqueio de rodovias. A greve dos caminhoneiros do litoral de São Paulo pode interferir nas operações do porto de Santos, um dos principais do Brasil e o maior em movimentação volume de cargas e contêineres.

Quem não vai parar e nega grande adesão

Líder dos caminhoneiros do Piauí, o motorista Edvan Ferreira diz acreditar que a greve do dia 1º de novembro vai acontecer, mas que ela "não prosperará". "É difícil dizer, pois tudo é muito imprevisível. Mas o Piauí está fora", afirmou.

"O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) tem perdido apoio até mesmo dos mais fanáticos. Para o governo, uma greve não deixa de ser preocupante", continuou. Apesar de criticar o governo, ele diz não ver chance de a paralisação ter o tamanho que teve em 2018.

Em 2018, os caminhoneiros foram usados pelos grandalhões do transporte de cargas e pelo agronegócio. E o atual presidente da República pegou carona na greve. Sem chances [de ser igual agora].
Edvan Ferreira, líder dos caminhoneiros no Piauí

Na região Sul do país, a adesão à paralisação também deve ser baixa, segundo a Fecam-RS/SC (Federação dos Caminhoneiros Autônomos do Rio Grande do Sul e Santa Catarina).

A maioria dos sindicatos filiados à Fecam decidiu não participar desse movimento por não reconhecer nem as lideranças nem a pauta.
André Costa, presidente da Fecam-RS/SC

Em nota enviada ao UOL, a CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos) diz que "não há adesão para qualquer movimento de greve.

Uma paralisação neste momento impactaria negativamente ainda mais a vida do caminhoneiro autônomo, além de trazer reflexos nefastos para a sociedade e para a economia do país.
CNTA, em nota ao UOL

O que querem os caminhoneiros

Os caminhoneiros autônomos reivindicam que o governo reveja o Preço de Paridade de Importação (PPI) praticado pela Petrobras. Adotada durante o governo de Michel Temer (MDB), essa política faz com que os valores de venda dos combustíveis sigam o mercado internacional e a variação do dólar. Portanto, quando o preço do barril do petróleo sobe lá fora, ele contribui para a alta dos preços dos combustíveis aqui.

Em 2021, o diesel já acumula alta de 65,3% nas refinarias, e a gasolina subiu 73,4% no mesmo período. Um estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV) aponta que a inflação dos últimos 12 meses para motoristas no Brasil chegou a 18,46%, o maior valor para a categoria desde 2000.

O governo federal chegou a cogitar um auxílio-diesel de R$ 400 para 750 mil caminhoneiros autônomos, mas a reação dos motoristas foi negativa. "Foi visto como uma ofensa, e todos sabemos que nem isso o ministro [da Infraestrutura] seria capaz de cumprir. Ninguém está querendo assistencialismo. Ou ele muda o PPI ou cria um fundo de estabilização de preços", disse Edvan Ferreira.

O Fundo de Estabilização dos Preços dos Derivados do Petróleo é uma proposta de lei (PL 750/2021) do deputado Nereu Crispim (PSL-RS), da frente parlamentar. O projeto prevê alíquotas progressivas no imposto de exportação, conforme o valor do barril de petróleo.

Essa arrecadação extra ajudaria o governo a subsidiar eventuais importações de derivados de petróleo, causando redução do preço final para o consumidor.

O que tem falado o governo

Desde o anúncio da greve em 1º de novembro, o governo federal tem tentado algumas medidas para apaziguar os ânimos dos caminhoneiros grevistas. Uma delas foi a proposta do auxílio-diesel.

O ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, disse que a medida pode ser revista, mas criticou os autônomos e disse ao UOL que eles precisam se reinventar e trabalhar em empresas. Segundo o ministro, a categoria também é "responsável por destruir o preço do frete". As falas de Freitas foram vistas como ataque pelos autônomos.

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