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Apesar do dólar, brasileiros retomam viagens internacionais; gasto sobe 57%

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Imagem: Getty Images

Fabrício de Castro

Do UOL, em Brasília

07/11/2021 04h00

Mesmo com a alta do dólar, os brasileiros estão retomando as viagens ao exterior nos últimos meses. Desde abril, os gastos em outros países estão em aceleração, na esteira do avanço da vacinação contra covid-19 em todo o mundo.

Dados do Banco Central mostram que, em setembro, as despesas no exterior somaram US$ 473,6 milhões, uma alta de 57,08% em relação ao registrado no mesmo mês do ano passado.

O valor é bem menor que o US$ 1,33 bilhão de setembro de 2019, quando ainda não havia a pandemia, mas já sugere uma recuperação após o período mais crítico de isolamento.

A retomada das viagens é justificada em grande parte pelo avanço da vacinação, que faz com que as famílias se sintam mais seguras na hora de viajar.

Ao mesmo tempo, conforme a economista Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), muitas famílias formaram uma reserva no último ano, já que deixaram de viajar. Agora, com a reabertura dos países, é natural que elas retomem os roteiros.

Fizemos um levantamento com mais de 800 brasileiros sobre sua situação financeira. Famílias com renda mensal alta, de mais de dez salários mínimos, reduziram suas despesas na pandemia. Elas mantiveram seus empregos e economizaram, porque viajaram menos. Agora é possível que estejam com vontade de viajar, para desestressar
Claudia Yoshinaga, professora da FGV

Turismo de lazer

Os números do BC mostram que, desde abril, as despesas em outros países com viagens pessoais, que incluem turismo, viagens de saúde e de educação, têm superado o verificado um ano antes, na fase inicial da pandemia.

Gastos de brasileiros com viagens pessoais ao exterior:

  • Março 2020: US$ 447 milhões; Março de 2021: US$ 231,2 milhões
  • Abril 2020: US$ 150 milhões; Abril de 2021: US$ 222,5 milhões
  • Maio 2020: US$ 149,6 milhões; Maio de 2021: US$ 246,1 milhões
  • Junho 2020: US$ 177,7 milhões; Junho de 2021: US$ 330,4 milhões
  • Julho 2020: US$ 198,4 milhões; Julho de 2021: US$ 333,2 milhões
  • Agosto 2020: US$ 200,3 milhões; Agosto de 2021: US$ 329,6 milhões
  • Setembro 2020: US$ 224 milhões; Setembro de 2021: US$ 348,7 milhões

Dólar não ajuda

As viagens internacionais estão sendo retomadas a despeito de o valor do dólar estar elevado. Em setembro, o dólar turismo chegou a ser negociado a R$ 5,61 - pico registrado no dia 30 daquele mês. Antes da pandemia, em 28 de fevereiro de 2020, a moeda americana era vendida aos turistas por R$ 4,637.

Na prática, isso significa que gastar no exterior está cerca de 20% mais caro agora, na comparação com a fase anterior à pandemia.

O professor David Kallás, do Insper, lembra que a decisão de viajar para fora do país depende do câmbio, mas também do nível de renda da família. Em muitos casos, as viagens estão acontecendo agora porque já estavam contratadas.

As pessoas tinham passagens aéreas que, em função da pandemia, foram canceladas. Agora, elas estão sendo remarcadas. Quem conseguiu manter o emprego também acabou economizando e pode gastar neste momento, apesar do dólar
David Kallás, professor do Insper

De volta aos Estados Unidos

Leonardo Souza, Manuela Gusmão e o filho, Mateus: retorno aos EUA - Divulgação - Divulgação
Leonardo Souza, Manuela Gusmão e o filho, Mateus: retorno aos EUA
Imagem: Divulgação

O bancário Leonardo Prazeres de Souza, de Juiz de Fora (MG), aproveitou créditos de passagens aéreas e hotéis cancelados em 2020, durante a fase mais crítica da pandemia, para viajar ao exterior em maio deste ano.

Ele, a esposa e o filho passaram 15 dias de férias em Cancún, no México, e outros 15 dias nos Estados Unidos, dividindo-se entre Nova York e Orlando. Segundo Souza, foi preciso viajar até para que os créditos não fossem perdidos. O problema foi enfrentar o câmbio.

O dólar estava muito caro. Imagina tomar um café de dois dólares? São R$ 11 em um café. Quando a moeda americana estava mais barata, eu fazia mais coisas. Ia a shows, museus. Desta vez, dei preferência a atrações gratuitas e passeios abertos
Leonardo Prazeres de Souza, bancário

Executivos retornam ao exterior

A retomada das viagens ocorre não apenas entre as famílias de férias, mas também no meio corporativo. Os números do BC mostram que o movimento também se acelerou a partir de abril:

Gastos de brasileiros com viagens de negócios ao exterior:

  • Março 2020: US$ 165 milhões; Março de 2021: US$ 81,7 milhões
  • Abril 2020: US$ 53,2 milhões; Abril de 2021: US$ 78,4 milhões
  • Maio 2020: US$ 50,1 milhões; Maio de 2021: US$ 87,5 milhões
  • Junho 2020: US$ 61,5 milhões; Junho de 2021: US$ 118,4 milhões
  • Julho 2020: US$ 68,6 milhões; Julho de 2021: US$ 118,8 milhões
  • Agosto 2020: US$ 69,3 milhões; Agosto de 2021: US$ 117,5 milhões
  • Setembro 2020: US$ 77,5 milhões; Setembro de 2021: US$ 124,9 milhões

O desempenho ainda está longe do verificado antes da pandemia, em 2019. Em setembro daquele ano, por exemplo, os gastos dos brasileiros em viagens de negócios somaram US$ 364,4 milhões.

Mas para o professor David Kallás os números indicam que no pós-pandemia nem todas as transações comerciais continuarão sendo feitas por videoconferência.

"O paradigma anterior foi quebrado: o de que a tecnologia não iria funcionar para o mundo dos negócios. Percebemos que ela deu conta. Muitas viagens que eram feitas não serão mais", afirma o professor. "Mas parte das viagens vai voltar, em função da importância do 'olho no olho'. Há momentos em que a presença física é fundamental".

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