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Reinaldo Polito

O debate de hoje é decisivo

Montagem UOL/R7/Estadão Conteúdo
Imagem: Montagem UOL/R7/Estadão Conteúdo
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

24/10/2014 06h00

Hoje às 22h a Globo fará o último e mais importante debate entre os candidatos Aécio Neves e Dilma Rousseff. Depois de meses participando de verdadeira gangorra nas pesquisas eleitorais, esta será a derradeira chance para que conquistem os votos que os levarão à vitória.

A última vez em que uma campanha presidencial chegou às vésperas da votação em situação tão apertada foi em 1989 na disputa entre Lula e Collor. Um dia antes de os brasileiros irem às urnas para decidir quem seria o presidente do país o Ibope revelou que Collor tinha 47% das intenções de votos contra 46% de Lula. Cabeça a cabeça.

Outra semelhança das duas eleições foi a forma agressiva como os candidatos se enfrentaram. Se nos debates atuais chegou a haver acusações de que o adversário estava mentindo e até sendo leviano, nos confrontos de Lula e Collor os adversários não ficaram atrás. Não faltaram ofensas de corrupção, despreparo e cambalachos.

Se naquela época Lula surfava na preferência dos eleitores da região Sudeste e Collor reinava no Nordeste, agora o mapa se inverteu para o PT que saboreia os impressionantes 70% dos nordestinos, enquanto o PSDB goza de larga vantagem com 56% no Sudeste.

O último debate entre Collor e Lula foi, portanto, decisivo para que Lula saísse derrotado naquelas eleições. Um fato curioso é que Collor foi para o debate anterior mais contido, sem o ímpeto que o caracterizou durante toda a campanha. Não deu certo. Lula se saiu melhor.

Ao perceber que aquele comportamento mais sereno não dera resultado, Collor foi para o último embate ainda mais aguerrido. Acuou Lula e não deu trégua ao adversário desde o início até o final da contenda. Assistindo novamente ao último debate pude constatar que o comportamento mais agressivo de Collor foi fundamental para sua vitória.

Imagino que hoje teremos a oportunidade de ver uma reprise do que ocorreu em 1989. Aécio estava mais à vontade no debate do SBT e com sua atuação mais contundente e agressiva levou vantagem sobre sua adversária. Já no debate da Record quem se sentiu mais confortável foi Dilma, que, mesmo não tendo argumentação tão consistente, aproveitou a falta de atitude de Aécio e não se deixou abater.

Não espere nenhum fato muito inusitado no debate de hoje à noite. Depois de tantos encontros, pouco haveria para se acrescentar aos temas já debatidos. Embora em política sempre possa aparecer um coelho retirado na última hora da cartola, pelo andar da carruagem suponho que quase tudo já foi discutido.

Ora, se a possibilidade de que surjam surpresas é tão remota, por que o desempenho dos candidatos poderá determinar a vitória ou a derrota nas urnas? Ainda que as questões sejam mais ou menos esperadas, a estratégia, a agressividade na medida certa e a segurança dos candidatos poderá fazer toda a diferença.

A maneira de fazer a pergunta, o momento de partir para o ataque mais contundente, o tom da voz ao arriscar uma observação jocosa ou se valer da ironia poderá ser a diferença. Embora possa ter havido uma leve vantagem de um lado ou de outro nos últimos debates, até com argumentação mais consistente os candidatos não podem se vangloriar de ter chegado ao final vitoriosos.

O debate será um verdadeiro jogo de xadrez, onde a pergunta de um candidato não estará visando necessariamente apenas a resposta em si do oponente, mas sim uma forma de aproveitá-la para um novo ataque. Portanto, cada momento poderá se transformar em armadilhas tanto para quem pergunta ou acusa, quanto para quem responde ou defende.

Por esse motivo, ao responder, o candidato não poderá pensar apenas em neutralizar a questão levantada, mas sim preparar terreno para colocar o adversário na defensiva e evitar que a réplica ou a tréplica do oponente possa apanhá-lo em algum flanco mais vulnerável. Se um dos contendores vacilar e não perceber a tática contrária, talvez não consiga se recuperar do revés.

Tenho quase certeza de que Aécio irá para este debate com a mesma disposição com que se apresentou no debate do SBT. Se as pesquisas estiverem certas e ele se encontra com leve desvantagem numérica nas intenções de votos, precisará usar o debate para virar o jogo.

Muita gente tem falado que os candidatos não devem ser agressivos no debate, mas a história mostra que aquele que parte para a ofensiva tem mais chances de se sair vitorioso. São milhões de telespectadores atentos ao desempenho de cada um. Vencer o debate pode significar vencer as eleições.

Se Dilma estiver mesmo na dianteira, é só tomar cuidado para não tomar gol. Um empate nesse confronto de hoje poderá ser suficiente para que ela se reeleja. Já que falei em gol, aqui vai uma máxima do futebol e que pode servir de alerta para a candidata –quem joga para não perder acaba sendo derrotado.