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Reinaldo Polito

Saia da mesmice para conquistar plateia, como fez Cármen Lúcia, do STF

Cármen Lúcia faz discurso com foco principal no cidadão comum

UOL Notícias
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

13/09/2016 16h34

A ministra Cármen Lúcia quebrou o protocolo no discurso de posse como presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e do CNJ (Conselho Nacional de Justiça), na tarde desta segunda-feira (12). Saiu da mesmice e conquistou a atenção dos ouvintes assim que mencionou as primeiras palavras. E de uma forma criativa e muito habilidosa.

É mais ou menos lógico que, se nós iniciarmos um discurso dizendo o que os ouvintes imaginavam que iríamos dizer, não haverá nenhuma novidade, e o risco de perdermos a concentração da plateia já na introdução é considerável. Pelo que já ouviram em situações semelhantes, os ouvintes já sabem mais ou menos a mensagem que terão pela frente.

Por isso, temos de pensar sempre em uma forma de sairmos da mesmice, abandonarmos o lugar-comum e encontrarmos uma informação inusitada, muito diferente, para que os ouvintes sejam fisgados nos primeiros instantes da apresentação. O mais interessante é que a ministra se valeu desse recurso em situação pouco recomendável para sua utilização. Foi genial.

O protocolo exige que, em eventos oficiais, o vocativo siga as orientações do Decreto-Lei 70.274, isto é, os cumprimentos se iniciem pelas pessoas mais importantes, até chegar às de menor importância.  Em sua posse na presidência do STF, a ministra deveria cumprimentar em primeiro lugar o presidente da República, a pessoa mais importante presente na solenidade.

Em vez de iniciar cumprimentando o presidente Michel Temer, Cármen Lúcia provocou grande impacto no público ao afirmar que quebraria esse protocolo. Um calafrio deve ter percorrido o corpo daqueles que a ouviam. Se quebrasse o protocolo, passaria o presidente da República para trás, privilegiando alguém menos importante naquela solenidade.

Aí é que entrou sua habilidade verbal. De certa maneira, pegou a plateia desprevenida e criou enorme expectativa com a mensagem que iria transmitir. Iniciou pedindo desculpas pela quebra do protocolo, pois tinha consciência de que deveria cumprimentar antes a pessoa mais importante ali presente.

Em seguida, complementou:

Começo por cumprimentar o cidadão brasileiro, muito insatisfeito hoje — como estou convicta e todos nós estamos — por não termos o Brasil que queremos, o mundo que achamos que merecemos, mas que é nossa responsabilidade direta colaborar em nossos deveres para construir.

A beleza desse ineditismo está no fato de que, além de conquistar a atenção de todos já nas primeiras palavras, não deixou ninguém melindrado com essa alteração. Quem poderia se incomodar com um orador que inicia dizendo que começa cumprimentando o povo brasileiro por estar muito insatisfeito hoje?

A sequência do seu discurso foi dura e com promessas de luta pelos direitos da população. Disse que os juízes do Tribunal que passou a presidir são, em última instância, os guardiões do povo, que quer saúde, educação, trabalho, sossego para andar em paz pelas ruas, estradas do país e trilhas livres, para poder sonhar. 

Cármen Lúcia é oradora ponderada, de discurso direto e objetivo. Assume a Presidência aos 62 anos, depois de longa e bem-sucedida carreira. Nascida em Minas Gerais, foi indicada para ocupar a vaga no STF pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. É a segunda mulher a ocupar a presidência do Tribunal --Ellen Gracie foi a pioneira no cargo (2006-2008).

A ministra deixa uma boa lição para nossa atuação na vida corporativa. Temos de usar as primeiras palavras para tentar surpreender os ouvintes. Para isso, reflita sempre: o que pode ser feito para que a mensagem se mostre diferente, inusitada, instigante? Dessa forma, aqueles que nos ouvem ficarão mais interessados em ouvir a sequência da apresentação.

Superdicas da semana:

  • Sempre haverá uma forma diferente para transmitir a mesma mensagem
  • Os ouvintes ficam mais interessados quando são surpreendidos por uma novidade
  • Pergunte sempre a você mesmo como poderia dizer o mesmo de forma diferente
  • Procure conquistar os ouvintes logo no início da apresentação

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante, e "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva.

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