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Coluna

Reinaldo Polito

Na ditadura do politicamente correto, é preciso aprender limites ao falar

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Imagem: Stock.XCHNG
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

07/08/2018 04h00

“Eu jamais iria para a fogueira por uma opinião minha, afinal, não tenho certeza nenhuma. Porém, eu iria pelo direito de ter e mudar de opinião, quantas vezes quisesse” (Nietzsche)

Um dos maiores orgulhos do meu professor de oratória, Oswaldo Melantonio, foi o de ter mantido sua escola em plena época da repressão dos anos 1970 e 1980, ousando e permitindo toda liberdade de expressão, sem nunca ter sido admoestado pelos militares. E aquele era um reduto conhecido, pois passaram pelas suas aulas muitos daqueles que pelas suas atividades políticas foram exilados na época da ditadura.

Só para dar uma ideia dos temas abordados em sua escola, basta dizer que Melantonio foi o fundador do partido socialista. Entre suas atividades, dizem seus companheiros de partido, que, de vez em quando, se reuniam para cantar com os punhos fechados o hino socialista a “Internacional”.

É mesmo admirável que em plena época de domínio dos militares, que, no período mais agudo, não permitiam sequer pequenas reuniões, Melantonio pudesse ter a coragem de dizer o que pensava e permitir que seus alunos se expressassem da maneira que julgassem mais conveniente, sem nenhum tipo de censura.

Parece incrível que passados tantos anos, no momento em que se alardeia a liberdade de expressão, estejamos sujeitos a um patrulhamento ainda mais severo que o daquela época. Há um extremismo, uma caça às bruxas que chega a aterrorizar, inibindo o próprio indivíduo, levando-o até à autocensura.

Ai daquele que inadvertidamente escorregar em uma frase que seja considerada politicamente incorreta. Com os gravadores aportados no mais simples celular e os ouvidos críticos atentos, a chance de que sofra consequências é enorme.

Hoje o sentido pleno de “livre expressão” fica mesmo comprometido, pois é preciso se submeter ao que reiteradamente é proposto e apresentado como “correto”. A pressão é tão grande que, mesmo não tendo expressado com palavras diretas determinada forma de pensar, se com ilações e associações de ideias for determinado que o politicamente correto foi maculado, a censura sofrida será a mesma,

O professor Oswaldo Melantonio, que sobreviveu bravamente com sua escola na época de profunda intolerância com a livre expressão, talvez, hoje, com toda a liberdade que se apregoa, sucumbisse. Ou pelo discurso próprio ou pelo discurso de seus alunos. Nos dias atuais, em suas aulas, alguém iria se alvoroçar no direito de censurar aquelas palavras que supostamente soassem como ofensivas

São outros tempos. Quando menciono esse tema em minhas aulas, sinto uma espécie de revolta generalizada diante do radicalismo exasperado na defesa do politicamente correto. A maioria concorda que ofensas devam ser coibidas, injustiças corrigidas, respeito ao próximo estimulado, mas são unânimes em se indignar com o exagero que começa a tomar conta de nossa sociedade.

Dizem julgar insensato, por exemplo, não poder se referir a Deus como “Ele”, já que alguns dos defensores do politicamente correto defendem a ideia de que o Ser Supremo não é um homem. Por que, então, se referir a Ele no masculino?!

Lembro-me de uma aula em que, de maneira distraída, eu disse - desde o aparecimento do homem até os nossos dias. Fui advertido por uma aluna para o fato de que eu não deveria me referir a “homem”, mas sim a “ser humano”, pois da forma como me expressei estava privilegiando o homem em detrimento das mulheres.

Talvez um dos eufemismos mais sem sentido seja o uso de “melhor idade” para se referir à pessoa idosa. Como já estou rondando essa faixa etária, sempre que se referem a minha condição como sendo da “melhor idade”, penso – sim, “muito melhor”; ruim é a desse jovem que me trata desse jeito! Quer trocar?

Há pessoas com baixo nível intelectual e outras com elevado nível intelectual? Lógico que sim. Mas se nos referirmos assim a essas pessoas não privilegiadas pelo intelecto, poderemos ser censurados, pois é politicamente incorreto. Para não sermos ofensivos, temos de nos referir a elas, por exemplo, como “pessoas com menor nível de compreensão”. E mesmo assim, cuidado, porque alguém poderá julgar que isso seja também politicamente incorreto.

Soube de um humorista que brincou com o fato de ser obeso, uma autogozação. Uma pessoa que assistia à apresentação dele subiu ao palco e o espancou por ter se sentido ofendida. Que estupidez não poder brincar com a própria característica física!

Quase não acreditei quando ouvi um comentarista esportivo na Copa do Mundo criticando Neymar porque havia humilhado um adversário com seus dribles. Pensei – agora sim é que está tudo perdido, pois só faltava levar para o campo de futebol o politicamente correto. Imagino o que seria de Garrincha, “a alegria do povo”, se fizesse hoje o que fazia com seus dribles, transformando cada um de seus marcadores em “João”.

Certamente, levar esse assunto a ferro e fogo pode tirar a liberdade de as pessoas se expressarem e, talvez, até crie obstáculos para a boa convivência. Exageros à parte, o respeito para com o outro, entretanto, precisa e merece ser considerado. Tomar alguns cuidados com o que falamos é prudência e sabedoria que todos devemos ter.

Passaram a fazer parte das minhas aulas de oratória considerações a respeito de como se comportar com as mensagens que possam ser ou soar agressivas, a atenção que deve existir para não ultrapassar a linha amarela, que além de ser a fronteira que caracteriza a agressão ao próximo, pode  também representar o passo em falso que prejudica a própria imagem de quem se expressa.

Ter em mente que o velho lema atribuído a Herbert Spencer -“A minha liberdade termina quando começa a liberdade do outro”- deve ser levado em conta e sempre prevalecer.

Não ter consciência dos limites entre o exagero e a responsabilidade com o que expressamos com as palavras poderá provocar dissabores e consequências até inimagináveis. A melhor forma de sabermos se podemos ou não nos expressar de determinada maneira é a de nos colocarmos no lugar do outro e refletir: será que, se eu estivesse na situação dele, me sentiria mal se alguém dissesse para mim o que penso em dizer a ele?

Superdicas da semana:

  • Não diga aos outros o que não gostaria que dissessem a você
  • Se existir a mínima possibilidade de ofender alguém com suas atitudes ou palavras, mude a maneira de agir ou de se expressar
  • Não se submeta à tirania do politicamente correto se sentir que se trata de exigência sem sentido
  • Aprenda quais são as expressões e formas de tratamento que deve usar para não ofender as pessoas

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", “A influência da emoção do orador”, “Oratória para advogados”, "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", “Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM” e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e “Oratória para líderes religiosos”, publicado pela Editora Planeta.

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