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Coluna

Reinaldo Polito

Falta tempero de jacaré nos discursos dos candidatos à Presidência

Nelson Almeida/AFP
9.ago.2018 - Candidatos participantes do primeiro debate com presidenciáveis nas eleições de 2018, realizado pela TV Band Imagem: Nelson Almeida/AFP
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

14/08/2018 04h00

“Preferiria um debate violento a uma conformidade silenciosa” (Honoré de Balzac)

Nas entrevistas para as emissoras de rádio e televisão, assim como no primeiro debate realizado pela TV Bandeirantes, em 9 de agosto, ficou claro que os candidatos à Presidência estão deixando escapar excelentes oportunidades para conquistar maior fatia do eleitorado. O problema está na comunicação.

O país está atravessando uma das maiores crises da sua história. Só para citar um item, basta dizer que temos hoje oficialmente mais de 13 milhões de pessoas desempregadas. Com certeza, o número é muito maior. Se acrescentássemos nesse pacote aqueles que já desistiram de procurar emprego, os dados seriam ainda mais assustadores.

Pois bem, com tantos problemas para resolver, os candidatos se apresentam falando de maneira insossa, sem vida, sem ânimo. No debate da última quinta-feira (9), por exemplo, digladiaram como se estivessem discutindo no centro acadêmico da escola. Falaram do desemprego como se conversassem a respeito da venda ou não de refrigerante na cantina.

Como disse Quintiliano na sua obra “Instituições oratórias”: “Posso eu porventura esperar que o juiz se condoa de um mal, que eu conto sem dor alguma? Indignar-se-á vendo que eu mesmo, que o estou excitando a isso, sou o que menos me indigno? Fará parte das suas lágrimas a um advogado, que está orando com os olhos enxutos?”

Candidatos que não terão praticamente nenhum tempo de televisão para a propaganda gratuita, (usando uma linguagem futebolística) tocando a bola de lado apenas com a intenção de não se comprometer. Candidatos que terão tempo maior à disposição, mas que estão nas últimas posições nas pesquisas eleitorais, também devolvendo a bola para o goleiro do meio do campo.

Em todos os cursos de oratória que tenho ministrado, especialmente com os meus alunos de pós-graduação em marketing político, na ECA-USP, ouvi quase sempre o mesmo comentário – o debate foi morno, sem ânimo, sem pegada. Alguns disseram que depois de uns minutos chegaram a dormir, tal a falta de entusiasmo dos políticos.

Geraldo Alckmin parece ter tido uma recaída e voltado aos tempos em que foi tachado do picolé de chuchu. Contaminou seu discurso com termos e expressões que a maioria do eleitorado não entende. Afinal, o que quer dizer spread? Basta fazer uma rápida pesquisa para constatar como pouquíssimas pessoas sabem o significado desse termo. Precisa, portanto, reciclar o vocabulário para a campanha.

Bolsonaro, tão cheio de vida e, quase sempre, agressivo, praticamente não alterou a voz, talvez tentando manter a dianteira nas pesquisas, mas se esquecendo que terá só meio Enéas Carneiro de tempo para falar, cerca de oito segundos. Perdeu a oportunidade de mostrar algum conhecimento mais profundo nos temas que aborda. Como fará isso sem tempo gratuito de rádio e televisão? Vai contar só com as mídias sociais?

Marina Silva, em fase de fim de hibernação dos últimos quatro anos, nem parecia precisar da oportunidade para alavancar sua campanha. Está tentando simplificar o vocabulário partidário/sindicalista/ambientalista que caracterizou seus quase incompreensíveis pronunciamentos. Talvez, por isso perdeu o tom.

Ciro Gomes, provavelmente acuado por ter sido criticado pela forma contundente como se expressou nos últimos tempos, já que em certos eventos de que participou, onde pretendia buscar votos, saiu vaiado pelo que disse, no debate, entretanto, exagerou no papel de bom-mocismo. Só faltou dizer que os oponentes eram os melhores candidatos à Presidência.

Álvaro Dias, sempre tão combativo no Senado, repetiu cansativamente as mesmas frases antes, durante e depois do debate. Deu a impressão de sentir um pouco o peso da estreia nesse tipo de confronto. Normal para um principiante, mas estranho para alguém com tanta bagagem política. Perdeu a chance de se mostrar.

Boulos, um franco-atirador. Esbravejou aqui e ali, mas nada que pudesse empolgar além das fronteiras onde já conquistou seus eleitores. Sempre com a intenção de atacar, deixou um pouco de lado a oportunidade de falar com mais detalhes de suas propostas. Em certos momentos deu a impressão de estar querendo imitar Lula.

Henrique Meirelles deu a sensação de que ainda não saiu do gabinete do ministério. Acostumado a falar com o “mercado”, está com dificuldade de acertar a sintonia com os eleitores. Tentou acelerar um pouco mais a fala, mas ainda está patinando. Com esse discurso, não vai empolgar.

Cabo Daciolo. Cabo Daciolo? O que é “um Daciolo”? Chegou e saiu rezando. Pediu “em nome de Jesus” que os institutos de pesquisa colocassem seu nome na lista junto com os outros candidatos. Por incrível que pareça, com seu jeitão para lá de diferente de se expressar foi o que mais aproveitou o momento. Agora já sabemos que ele existe.

É só o começo. Cada um dos candidatos precisa se conscientizar de que, se não estudarem as regras mais elementares de comunicação, não vão conseguir atingir seus objetivos. A campanha é curta, curtíssima. Se continuarem nessa lenga-lenga, só poderão pensar em eleições presidenciais daqui a quatro anos.

Que falta faz um Leonel Brizola, um Jânio Quadros, um Mário Covas, um Lula para pôr um pouco mais de tempero nessa briga. Parece que estou vendo Brizola dizendo do alto de sua cultivada ironia: “se tem pele de jacaré, olho de jacaré, boca de jacaré, então não é jacaré?”

Superdicas da semana:

  • Só podemos envolver os ouvintes se demonstrarmos envolvimento pelo que falamos
  • Cada tema deve ser tratado com a emoção que merece
  • Assim como no futebol, na política quem joga para não tomar gol, acaba perdendo o jogo
  • Mais que com gritaria o discurso político empolga mais com a ironia e as tiradas espirituosas
  • Falar bem não significa falar muito. Por isso, o político precisa aprender a se expressar com eficiência

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", “A influência da emoção do orador”, “Oratória para advogados”, "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas", “Superdicas para escrever uma redação nota 1.000 no ENEM” e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e “Oratória para líderes religiosos”, publicado pela Editora Planeta.

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