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Reinaldo Polito


Bolsonaro levou 'cola' do que falar em debate e entrevistas; é bom ou ruim?

Paulo Whitaker/Reuters
Imagem: Paulo Whitaker/Reuters
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

14/01/2019 13h13

Nathan Lopes publicou um artigo muito interessante no UOL, no último dia 12. Ele comentou a respeito das colas que o então deputado federal Jair Bolsonaro escrevia na mão para participar de debates e entrevistas.

Bolsonaro não foi o único candidato à Presidência a levar cola para os debates. Lula inaugurou essa prática há muitos anos, quando concorreu com Geraldo Alckmin.

Em 2006, durante o debate com Alckmin, Lula estava inseguro e precisou ler as perguntas que desejava fazer ao adversário. Alckmin não perdoou e cobrou de forma irônica essa atitude de Lula.

Lula não teve muito como se defender. Como saída, tentou contra-atacar, dizendo que não havia se preparado para decorar respostas como seu adversário. Esse fato não o fez perder a eleição, mas pegou mal para ele. 

Nathan citou três momentos em que Bolsonaro participou em programas de televisão e escreveu palavras na mão. O primeiro na Rede TV, no programa "Mariana Godoy Entrevista". Nessa oportunidade escreveu as palavras: "greve" e "ameaças". Na segunda vez, também na Rede TV, ao participar do debate como candidato à Presidência, escreveu três palavras: "pesquisa", "armas" e "Lula".

E na terceira vez foi durante a entrevista do Jornal Nacional, da Rede Globo. Nessa ocasião escreveu também três palavras: "Deus", "família" e "Brasil".

A questão que se levanta é esta: quem precisa falar em público, seja em palestras, reuniões, entrevistas ou debates, pode levar uma cola, um recurso de apoio? Sim e não. Vamos analisar.

Basicamente são dois tipos mais comuns de recursos de apoio: o roteiro escrito e o cartão de notas. Escrever palavras na mão pode ser considerada uma variação deste último recurso.

O roteiro escrito é constituído de frases escritas em uma folha de papel. Durante a apresentação, o orador lê a frase e depois comenta, amplia, critica, enaltece. Em seguida lê a próxima frase e faz outras considerações. Age assim até concluir o discurso.

O roteiro escrito é eficiente porque dá segurança ao orador e permite que ele desenvolva o raciocínio diante dos ouvintes. É recomendado para situações em que o tema seja complexo, ou quando o orador não tem completo domínio sobre o assunto.

O cartão de notas é recomendado para discursos menos complexos. É constituído de uma pequena folha, normalmente pouco mais da metade de uma folha A4. As cartolinas são muito utilizadas. Nesse caso, o orador escreve as palavras relevantes, datas, cifras na ordem que pretende utilizar.

Durante a apresentação, ele bate os olhos para se certificar de que a ordem planejada está mesmo sendo seguida. Observe que é diferente do roteiro escrito. 

Lá o orador lê a frase e faz os comentários. Neste último, ele apenas verifica se a ordem está sendo seguida. Alguns oradores fazem uma mistura, uma associação com os dois recursos, e o resultado é muito bom.

Renomados oradores se valem desses recursos. Barack Obama, considerado um dos maiores oradores mundiais, se vale de anotações no teleprompter para desenvolver o pensamento diante do público.

Praticamente em todas as circunstâncias o orador poderá se valer desses recursos de apoio. Eles dão segurança para quem fala em público, e quem fica com receio de ter branco se sentirá tão amparado com as anotações que acaba não se esquecendo.

Mas afinal, em que circunstâncias esses recursos podem ou não ser utilizados? Como regra geral, podem ser utilizados em praticamente todas as situações.

Há momentos, entretanto, em que não são convenientes. Numa festa íntima de aniversário, por exemplo. Não seria adequado o filho fazer um discurso de homenagem ao pai e sacar do bolso um papel contendo as palavras que ele diz "saírem do fundo do coração".

Da mesma forma, não seria conveniente a um profissional incitado pelos superiores a falar da sua carreira ter de se apoiar em anotações para se lembrar do que fez na vida.

Assim também, tanto Lula quanto Bolsonaro poderiam ter evitado as anotações. O caso de Lula foi mais grave porque precisou ler as perguntas que desejava fazer. Enquanto Bolsonaro tinha as palavras para se lembrar em alguma eventualidade.

Se um dos dois tivesse de fazer uma palestra ou um pronunciamento, assim como ocorre com Obama, citado há pouco, não haveria nenhum problema se valer de um recurso de apoio. 

Agora, para fazer perguntas ao adversário ou marcar palavras que deveriam ser incluídas como tema em entrevista, as anotações são desaconselháveis. 

Nessas situações, o mais indicado é se preparar bem sobre a sequência do discurso, para não precisar da cola.

Superdicas da semana:

  • Leve um roteiro escrito ou cartão de notas, mesmo que não precise usar
  • Se você tiver receio de que ocorra um branco, as anotações darão a segurança de que precisa para não esquecer
  • Se o assunto for de seu inteiro domínio, prefira guardar a sequência do discurso mentalmente
  • Se você deixar a folha de papel na altura da linha da cintura, indicará ao público que as anotações conterão a sequência, mas que o raciocínio será desenvolvido durante a fala

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

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