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Reinaldo Polito


Personalidade e energia: o Moro ministro fala muito melhor que o Moro juiz

Paulo Lopes/FuturaPress/Estadão Conteúdo
Imagem: Paulo Lopes/FuturaPress/Estadão Conteúdo
Reinaldo Polito

Autor de 31 livros que venderam mais de 1 milhão de exemplares, dá dicas de expressão verbal para turbinar sua carreira.

12/02/2019 04h00

O ministro Sérgio Moro está enfrentando um grande desafio pessoal. Até há pouco tempo, como juiz, raramente concedia entrevistas. E quando isso ocorria era sempre com muita precaução. Chegava a um local determinado, protegido por seguranças e respondia às perguntas mais ou menos programadas.

Os tempos mudaram. Agora como ministro, precisando defender projetos que serão analisados por deputados e senadores, tanto da base aliada quanto da oposição, tem de se virar para convencê-los a votar de maneira favorável à causa que defende. E não só, começa a sair a campo para falar também com os jornalistas. 

Sempre me intrigou a fala dos magistrados. Eu me lembro de um dos mais eloquentes tribunos da história do país, Paulo Brossard. Sua oratória era tão fascinante que, quando atuava como senador, os deputados deixavam a Câmara só para assistir aos seus pronunciamentos no Senado. Discursava com aquela postura elegante, olhar matreiro, dicção perfeita e a construção irreparável das frases, sem nunca cometer deslizes gramaticais.

Quando assomou à tribuna do Senado pela primeira vez, fez um discurso que ficou para a história daquela casa: "Fui eleito por oito anos. No entanto o meu mandato pode durar oito anos, mas pode durar oito meses ou oito dias ou oito horas. Mas enquanto eu estiver aqui, eu não irei pedir licença a ninguém para dizer o que entendo seja o meu dever". Agora, quando assistimos à estreia dos novos senadores, ficamos na torcida para que outro Brossard possa aparecer por trás daquela tribuna.

O currículo de Paulo Brossard é extenso e invejável. Atuou como advogado, jurista, magistrado, professor, agropecuarista e político. Como opositor ao governo militar, foi incansável em suas críticas, mas sempre respeitado por aqueles a quem acusava. Suas mensagens eram primorosas peças oratórias.

O governo militar contava no Senado com um tribuno temível pela força da sua comunicação, Jarbas Passarinho. Criticado por ter apoiado o AI5 (Ato Institucional nº 5), era também um político bem preparado, ácido nos seus discursos, destemido nos debates. Era raro encontrar um político que tivesse a coragem de enfrentá-lo. Brossard era um desses corajosos. Os debates que protagonizaram foram exemplares, admiráveis.

Pois bem, foi só Paulo Brossard assumir uma cadeira no STF (Supremo Tribunal Federal), em 1989, que a luz da sua eloquência arrefeceu. Suas frases continuaram com a mesma correção gramatical de sempre, a dicção, se é que isso fosse possível, se tornou ainda mais perfeita. Sua oratória, entretanto, deixou de ser a mesma. Como ministro, passou a falar com cadência exagerada, pausas cansativamente prolongadas, gestos exageradamente medidos. 

Talvez a responsabilidade do cargo o tenha obrigado a procurar com cuidado mais esmerado cada palavra a ser pronunciada. O peso da toga, provavelmente, tenha levado Brossard a buscar um perfeccionismo quase irritante. Esse rigor tirou a liberdade de seus pronunciamentos e o desprendimento que ao longo de tantos anos havia caracterizado seus eletrizantes discursos. Houve nessa passagem do político para o ministro um divisor de águas na sua oratória.

Com Sérgio Moro parece ter ocorrido o contrário

Mesmo aqueles que sempre foram admiradores de Sérgio Moro, quando ainda era juiz, se forem sinceros, vão dizer que como orador o magistrado deixava muito a desejar. A natureza não o privilegiou com um timbre de voz envolvente. Vez ou outra desafinava. Além de ser quase sempre muito lento na maneira de falar, em certas circunstâncias, enquanto buscava a palavra mais adequada para compor seu pensamento, produzia sons prolongados nada agradáveis, como "ééé", "ããã". 

Essa falta de qualidade na maneira de se expressar, entretanto, não ofuscou o brilho da sua inteligência nem o seu preparo intelectual, muito menos a sua capacidade para julgar ou ainda a correção da sua conduta. Na verdade, esses atributos morais e intelectuais o transformaram em uma das personalidades mais respeitadas e admiradas no Brasil e no mundo. Como juiz, em todos os lugares em que se apresentava era ovacionado como poucos brasileiros conseguiram ser na história. Por isso, até, tenha sido convidado para ser um superministro no atual governo. 

A comunicação de Moro mudou no ministério

Fiquei impressionado ao constatar a transformação ocorrida na comunicação de Sérgio Moro depois que assumiu o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Como ministro, a fala de Moro ficou mais encorpada. Hoje quase não desafina e são poucas as vezes em que recorre aos sons irritantes nas pausas enquanto procura a sequência do pensamento. O ministro, quando juiz, chegava quase a ser inaudível em certos momentos, pelo fato de falar para dentro. Agora fala alto, para fora, com personalidade, energia e disposição.

Um exemplo marcante pode ser observado na semana passada. Quando cercado por um batalhão de jornalistas, enfrentou a todos com a mesma serenidade de sempre, mas com outra disposição. Ele estava em local aberto, rodeado de muitas pessoas que conversavam ruidosamente, mas não se abalou, e falou com volume de voz que todos puderam ouvir sem dificuldade.

Talvez pelo fato de não estar muito acostumado a essas situações, Moro falou tão alto e firme que no final sua voz estava enrouquecida. Seria possível refletir em tom de brincadeira: olha aí o ministro falando grosso com os jornalistas. Assertivo nas respostas, sem fugir de nenhuma questão, Moro demonstrava já ser um orador diferente. Tomou consciência de que para envolver e convencer os interlocutores de suas propostas precisa contar, além do conteúdo, com essa disposição adicional na hora de falar.

É só uma questão de tempo para que se habitue com essa nova forma de se comunicar e passe a usar com mais equilíbrio o aparelho fonador. A própria experiência o ensinará a respirar de maneira mais adequada, usando naturalmente o diafragma e, principalmente, medindo o volume de voz até um limite que não o deixe rouco em circunstâncias barulhentas como essas que passou a enfrentar.

Já que fizemos a comparação com Paulo Brossard, é interessante mencionar uma característica que os diferencia, com vantagem para Moro: a paciência de ouvir. Quem assistiu às entrevistas de Brossard poderá se lembrar de como ele, quase sempre, costumava atropelar o interlocutor. Com uma rápida pesquisa na internet, encontraremos vários exemplos. Antes de o jornalista completar a pergunta, ele já começava a responder.

Moro ouve tudo até o final, sem pressa. Nas ocasiões em que vários jornalistas querem perguntar ao mesmo tempo, ele fica impassível, e no momento apropriado escolhe no meio da balburdia a questão que seja mais conveniente para a entrevista. Não deixa de responder, mas fala o que seja mais interessante para a sua argumentação.

Moro talvez nunca chegue a ser um Paulo Brossard como orador, mas, com certeza, essa sua nova forma de se comunicar o ajudará a atingir os objetivos que pretende alcançar para combater a corrupção, o crime organizado e o crime violento. 

Superdicas da semana:

  • Sem demonstrar entusiasmo pelo que diz, não há como entusiasmar os ouvintes pela mensagem
  • A preocupação com o excesso de perfeccionismo pode tirar o brilho da boa comunicação
  • A descontração para falar não pode ser motivo para negligenciar a qualidade da mensagem
  • O volume de voz não pode ser tão exagerado que deixe a pessoa rouca
  • Os lugares muito barulhentos devem ser evitados para falar

Livros de minha autoria que ajudam a refletir sobre esse tema: "29 Minutos para Falar Bem em Público", publicado pela Editora Sextante; "As Melhores Decisões não Seguem a Maioria", "Oratória para advogados", "Assim é que se Fala", "Conquistar e Influenciar para se Dar Bem com as Pessoas" e "Como Falar Corretamente e sem Inibições", publicados pela Editora Saraiva; e "Oratória para líderes religiosos", publicado pela Editora Planeta.

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